Quando o objetivo é emagrecer ou melhorar o controle da glicemia, uma das primeiras mudanças costuma ser tirar o carboidrato do prato. Arroz, pão, batata, feijão e até frutas passam a ser vistos como alimentos que deveriam desaparecer. No lugar deles, entram salada e proteína.
Mas será que é preciso eliminar o carboidrato para perder peso ou controlar o diabetes?
Para a nutricionista Martha Amodio, a questão não é simplesmente cortar ou liberar. É entender qual carboidrato faz sentido, em que quantidade e como ele se encaixa na alimentação e no tratamento de cada pessoa.
Carboidrato não precisa desaparecer do prato
Eles estão presentes em alimentos como arroz, feijão, frutas, batata, aveia, pães e massas. Eles são uma importante fonte de energia para o organismo e podem fazer parte da alimentação de pessoas com diabetes.
A Sociedade Brasileira de Diabetes destaca que não existe uma quantidade única de carboidratos adequada para todas as pessoas. A composição da alimentação deve ser individualizada, considerando fatores como tipo de diabetes, tratamento, atividade física e resposta glicêmica.
“Cortar um grupo alimentar inteiro raramente é necessário para emagrecer ou controlar o diabetes. Boas fontes de carboidrato como feijão, frutas, aveia, arroz integral, batata e quinoa trazem fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos que acompanham esse nutriente. Nós não comemos nutrientes isolados; comemos alimentos” explica Martha.
Martha Amodio | Nutricionista
A diferença, portanto, está também na qualidade. Uma fruta inteira não é equivalente a um suco. Feijão não tem a mesma composição de açúcar, assim como aveia e um biscoito feito principalmente com farinha refinada são alimentos diferentes.
Cortar é diferente de ajustar
Retirar completamente arroz, pão, batata, frutas e feijão é diferente de avaliar quanto desses alimentos faz sentido dentro da alimentação.Para quem tem diabetes, essa diferença é especialmente importante. A quantidade de carboidratos pode variar de acordo com o tipo de diabetes, medicamentos, uso de insulina, atividade física, objetivos e resposta individual da glicemia.
“Em vez de perguntar ‘carboidrato pode?’, prefiro perguntar: qual, quanto, em qual refeição, para quem”, afirma Martha.
Uma alimentação com menos carboidratos pode ser utilizada em algumas situações e ajudar determinadas pessoas a perder peso ou melhorar a glicemia. Isso não significa, porém, que quanto menos melhor para todos.
O problema pode estar justamente em transformar uma estratégia alimentar em uma regra universal.
O que acontece quando o carboidrato é reduzido demais?
Os efeitos de uma redução importante variam de pessoa para pessoa. Quando a retirada também diminui a variedade da alimentação e o consumo de fibras, podem surgir alterações intestinais e, em algumas pessoas, cansaço ou queda de rendimento.
Em restrições mais intensas, o organismo passa a utilizar proporcionalmente mais gordura como fonte de energia e aumenta a produção de corpos cetônicos. Dietas com menos carboidratos não são necessariamente inadequadas, mas precisam considerar o contexto clínico e nutricional de cada pessoa.
Também não é correto concluir que uma refeição formada apenas por salada e proteína seja automaticamente melhor para emagrecer. Ela pode reduzir a ingestão calórica e levar à perda de peso, mas o resultado depende do conjunto da alimentação, da atividade física, do sono e da capacidade de manter aquela estratégia ao longo do tempo.
Quem usa insulina precisa ter atenção
Para pessoas que usam insulina ou medicamentos capazes de provocar hipoglicemia, reduzir drasticamente o carboidrato sem avaliar o tratamento pode aumentar o risco de queda da glicose.
Na contagem de carboidratos, por exemplo, a quantidade desse nutriente é uma das informações utilizadas para calcular a dose de insulina das refeições em determinados esquemas de tratamento.
Por isso, mudar de uma refeição com bastante carboidrato para outra com uma quantidade muito menor pode exigir uma reavaliação do tratamento.
“Não comi carboidrato, então não preciso de insulina” é uma interpretação perigosa.
Martha Amodio, nutricionista
No diabetes tipo 1, a atenção precisa ser ainda maior. A redução não significa que a pessoa possa suspender a insulina por conta própria. Mudanças importantes na alimentação e no tratamento precisam ser discutidas com a equipe de saúde.
Quanto colocar no prato?
Não existe uma quantidade de carboidrato por refeição que seja ideal para todas as pessoas com diabetes.
Uma referência prática é buscar uma refeição variada, com verduras e legumes, uma fonte de proteína e uma porção adequada de alimentos que fornecem carboidratos. O feijão, por exemplo, contém carboidratos, mas também oferece fibras e proteína vegetal.
Para quem utiliza sensor de glicose, acompanhar a resposta do organismo a diferentes refeições pode trazer informações úteis para identificar padrões. Esses dados, porém, devem ser avaliados dentro do tratamento e não usados para criar regras rígidas por conta própria.
E à noite?
A ideia de que comer carboidrato depois de determinado horário automaticamente engorda é uma simplificação. Para o peso, é preciso considerar a alimentação como um todo, além de atividade física, sono e outros fatores.
No diabetes, o horário pode fazer parte da avaliação quando existe um padrão de alteração da glicemia após o jantar ou durante a noite. Ainda assim, isso não significa que o carboidrato precise ser eliminado dessa refeição. Quantidade, composição do prato, atividade física e tratamento podem influenciar a resposta glicêmica.
“À noite, assim como em qualquer outra refeição, escolha bem o carboidrato, ajuste a quantidade e observe como o seu organismo responde”, orienta Martha.
A pergunta pode ser outra
Em vez de pensar apenas em “o que preciso cortar?”, a nutricionista sugere perguntar “o que preciso ajustar?”.
Pode ser reduzir a quantidade de arroz, trocar o suco pela fruta inteira, aumentar os vegetais, escolher alimentos menos refinados ou diminuir o consumo de ultraprocessados. A ideia não é transformar o carboidrato em vilão nem tratá-lo como um alimento que deve ser consumido sem critério. Para quem tem diabetes, quantidade, qualidade, composição da refeição e tratamento precisam ser considerados em conjunto.
“Para controlar a glicemia ou emagrecer, muitas vezes não precisamos cortar o carboidrato. Precisamos aprender a colocar a quantidade certa, do alimento certo, dentro de uma refeição bem construída. Um prato só de salada e proteína pode até ter pouco carboidrato. Mas pouco carboidrato, sozinho, não é sinônimo de alimentação equilibrada”, finaliza Martha Amodio.
