Receber o diagnóstico de diabetes costuma levar muitas pessoas a reverem a alimentação. Nesse processo, uma mudança frequente é retirar alimentos considerados menos saudáveis e aumentar o consumo de frutas. Embora as frutas façam parte de uma alimentação equilibrada, trocar refeições inteiras por elas pode trazer efeitos diferentes do esperado.
Segundo a nutricionista e educadora em diabetes Tarcila Campos, parceira do Portal Um Diabético e integrante do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes, esse é um comportamento comum entre pessoas que receberam recentemente o diagnóstico de diabetes ou pré-diabetes.
“Tem as pessoas que trocam tudo por fruta porque acham que não tem problema”, explicou durante participação no DiabetesCast.
Frutas contêm açúcar natural e também influenciam a glicose
As frutas possuem frutose, o açúcar naturalmente presente nesses alimentos. Quando consumida, essa frutose também influencia os níveis de glicose no sangue.
Segundo Tarcila Campos, isso não transforma as frutas em um problema para quem vive com diabetes. No entanto, exige atenção à quantidade consumida e ao contexto da alimentação.
Nesse cenário, a especialista destaca que não existe uma fruta totalmente liberada nem uma fruta que deva ser considerada proibida para todas as pessoas. O que realmente faz diferença é a quantidade ingerida ao longo do dia.
“Automaticamente aquela frutose que está na fruta vai virar glicose no nosso sangue. O que importa mais nesse balanço é a quantidade que a gente está utilizando dessa fruta”, afirmou.
O que acontece quando a fruta substitui uma refeição
Muitas pessoas reduzem pães, arroz, massas ou outros alimentos após o diagnóstico. Enquanto isso, aumentam o consumo de frutas por acreditarem que elas não afetam a glicose.
Segundo Tarcila Campos, esse raciocínio pode levar ao consumo excessivo de carboidratos sem que a pessoa perceba.
Uma banana, por exemplo, pode fornecer uma quantidade significativa de carboidratos dependendo do tamanho. Além disso, quando ela é combinada com leite, aveia, mel ou outros ingredientes, a quantidade total consumida aumenta.
Nesse contexto, um lanche aparentemente simples pode concentrar uma carga de carboidratos semelhante à de uma refeição completa.
Por outro lado, muitas pessoas não observam essas somas porque associam os alimentos apenas à ideia de serem naturais.
Nem toda combinação com frutas funciona da mesma forma
Outro ponto levantado pela nutricionista envolve as combinações feitas no dia a dia.
Banana com aveia, frutas batidas com leite e vitaminas são exemplos comuns. No entanto, cada ingrediente acrescenta carboidratos à refeição.
Segundo Tarcila Campos, esse cálculo costuma passar despercebido principalmente entre pessoas com diabetes tipo 2 e pré-diabetes, que muitas vezes não receberam orientações sobre contagem de carboidratos.
Além disso, a especialista orienta observar quais alimentos acompanham a fruta.
Ela cita que sementes e oleaginosas podem representar combinações diferentes de ingredientes ricos em carboidratos.
O tamanho da porção faz diferença
Uma das mensagens centrais do DiabetesCast foi a importância das porções. Segundo Tarcila Campos, a mesma fruta pode apresentar quantidades diferentes de carboidratos dependendo do tamanho e da quantidade consumida.
Isso acontece com banana, manga, uva, melancia e diversas outras frutas frequentemente presentes na alimentação dos brasileiros.
A uva é um exemplo citado pela nutricionista. Enquanto algumas pessoas consomem cerca de dez unidades, outras podem comer uma caixa inteira sem perceber o impacto dessa diferença.
Da mesma forma, frutas como melancia e manga costumam ser consumidas em porções maiores do que as utilizadas em orientações nutricionais.
Portanto, o controle glicêmico não depende apenas da escolha da fruta, mas também da quantidade colocada no prato.
Fruta inteira e suco não produzem o mesmo efeito
Outro erro frequente ocorre quando a fruta passa a ser consumida principalmente na forma de suco.
Segundo a nutricionista, o organismo absorve os carboidratos dos líquidos com maior velocidade. Por isso, a resposta glicêmica tende a ser diferente da observada com a fruta inteira.
Ela cita o exemplo do suco integral de uva. Embora seja produzido sem adição de açúcar e mantenha componentes da fruta, um copo pode concentrar uma grande quantidade de carboidratos.
Nesse contexto, pessoas com diabetes precisam considerar não apenas a qualidade nutricional do alimento, mas também a forma como ele é consumido.
Duas a três porções de frutas costumam fazer parte da orientação
Durante o DiabetesCast, Tarcila Campos reforçou que frutas continuam sendo alimentos importantes para pessoas com diabetes.
Segundo ela, esses alimentos fornecem fibras, vitaminas e minerais. Além disso, ajudam a compor uma alimentação variada.
A nutricionista orienta priorizar a fruta inteira, respeitar as porções e observar a resposta individual da glicose.
“Quanto mais variado, melhor. E se a gente tiver uma regra clássica aqui, é tentar manter duas a três porções de frutas por dia e comer a fruta”, explicou.
Como incluir frutas sem transformar o alimento em uma refeição completa
Para quem vive com diabetes, o desafio não costuma ser retirar frutas da alimentação. O principal cuidado está em evitar que elas substituam refeições inteiras sem planejamento.
Nesse contexto, entender a quantidade consumida, observar os acompanhamentos e monitorar a resposta da glicose pode ajudar na tomada de decisões do dia a dia.
Além disso, a orientação da nutricionista é abandonar a ideia de frutas proibidas e focar na construção de uma alimentação compatível com a realidade de cada pessoa.
