A vacina da gripe costuma gerar dúvidas todos os anos. Algumas pessoas acreditam que ela deixou de ser necessária, enquanto outras questionam sua eficácia por conhecer alguém que se vacinou e, mesmo assim, ficou gripado. Entre quem convive com diabetes, essas dúvidas podem ter um peso ainda maior, já que a doença aumenta o risco de complicações causadas por infecções respiratórias.
O ponto, porém, não é apenas evitar a gripe. O objetivo principal da vacinação é reduzir a chance de evolução para formas graves da doença, diminuir o risco de internações e proteger um organismo que já enfrenta desafios extras para combater infecções.
Segundo o infectologista Igor Marinho, médico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, do Hospital Israelita Albert Einstein e do Hospital São Camilo, pessoas com diabetes fazem parte dos grupos que merecem atenção especial quando o assunto é imunização.
Logo no início da entrevista, o especialista explica que viver com diabetes aumenta a vulnerabilidade a algumas infecções e que proteger esse público antes que elas aconteçam representa um benefício importante para a saúde.
Diabetes aumenta o risco de complicações causadas por infecções
Muita gente associa o diabetes apenas ao controle da glicose, mas a doença também pode interferir no funcionamento do sistema imunológico. Isso acontece porque níveis elevados de glicose no sangue podem reduzir a eficiência de algumas células responsáveis pela defesa do organismo.
“O estado hiperglicêmico pode causar uma atividade mais prejudicada de células de defesa, principalmente neutrófilos e leucócitos”, explica Igor Marinho. Segundo ele, essas células funcionam como a primeira linha de defesa do organismo contra vírus, bactérias e outros agentes infecciosos. Quando trabalham de forma menos eficiente, aumenta a possibilidade de uma infecção evoluir para um quadro mais grave.
Além disso, pessoas com diabetes frequentemente convivem com outras condições de saúde, como doenças cardiovasculares e alterações da circulação, fatores que também podem contribuir para complicações durante uma infecção. Por isso, a prevenção ganha ainda mais importância.

A vacina da gripe não impede toda infecção, mas reduz o risco de formas graves
Uma das crenças mais comuns é que a vacina “não funciona” porque algumas pessoas continuam pegando gripe depois da imunização. Na prática, esse raciocínio ignora o principal objetivo das vacinas contra influenza.
“A vacina não impede que você fique gripado e nem de pegar Covid, mas ela protege contra as formas mais graves”, afirma o infectologista.
Isso significa que uma pessoa vacinada ainda pode entrar em contato com o vírus e desenvolver sintomas. No entanto, as chances de precisar de internação ou apresentar complicações importantes tendem a ser menores.
Segundo Igor Marinho, aproximadamente um em cada dez casos de gripe pode evoluir para uma forma grave, principalmente entre pessoas que apresentam alguma comorbidade, como o diabetes.
Esse é justamente o motivo pelo qual o Ministério da Saúde mantém a recomendação anual da vacina contra influenza para pessoas com diabetes.
A gripe não é a única preocupação
Embora a vacina contra influenza seja uma das mais conhecidas, ela faz parte de um conjunto maior de estratégias de prevenção recomendado para quem vive com diabetes.
De acordo com o especialista, o calendário de vacinação para esse público também inclui imunizantes contra Covid-19, hepatite B, tétano e doença pneumocócica, disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Cada uma dessas vacinas atende a um risco específico. A vacina contra hepatite B, por exemplo, recebe atenção especial porque pessoas com diabetes costumam ser submetidas com mais frequência a procedimentos como punções, exames e monitorização da glicemia, situações que aumentam a importância da proteção contra o vírus da hepatite B.
Quais vacinas são recomendadas para quem vive com diabetes?
Além da vacina contra a gripe, o infectologista reforça que pessoas com diabetes devem manter o calendário vacinal atualizado. Entre as vacinas recomendadas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde estão a imunização anual contra influenza, a vacina contra Covid-19, hepatite B, tétano e a vacina pneumocócica, que protege contra formas graves de pneumonia e também contra infecções causadas pela bactéria pneumococo.
Segundo Igor Marinho, também existem imunizantes disponíveis apenas na rede privada que podem representar uma proteção adicional para algumas pessoas, principalmente conforme a idade e a presença de outros fatores de risco.
Entre elas estão:
- vacina contra herpes-zóster;
- vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR);
- vacinas pneumocócicas mais abrangentes, que protegem contra um número maior de sorotipos da bactéria.
A indicação dessas vacinas deve ser discutida individualmente com o médico responsável pelo acompanhamento.
Tenho medo de tomar vacina. Isso é normal?
A desconfiança em relação às vacinas aumentou nos últimos anos, principalmente após a pandemia de Covid-19. No entanto, o infectologista lembra que ter dúvidas faz parte do processo e não deve ser motivo para abandonar a vacinação.
“É normal ter dúvidas sobre vacinas, e está tudo bem. O importante é procurar um profissional de saúde que trabalhe com evidências científicas e possa orientar cada caso”, afirma.
Durante a entrevista, o especialista também destacou que a queda da cobertura vacinal observada no Brasil está relacionada, entre outros fatores, à disseminação de notícias falsas e à politização do tema. Apesar disso, ele lembra que o país ainda possui um dos programas públicos de imunização mais completos do mundo.
Vacinar continua sendo uma das formas mais eficazes de prevenção
Para quem vive com diabetes, controlar a glicemia, manter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física continuam sendo pilares fundamentais do tratamento. Entretanto, a vacinação também faz parte desse cuidado.
Embora nenhuma vacina ofereça proteção absoluta contra infecções, elas reduzem significativamente o risco de hospitalizações, complicações e mortes causadas por doenças infecciosas. No caso da gripe, por exemplo, esse benefício pode fazer diferença justamente para quem apresenta maior vulnerabilidade.
Ao final da entrevista, Igor Marinho resume a principal mensagem para as pessoas que convivem com diabetes.
“Proteger é melhor do que remediar. Vamos tentar nos vacinar para evitar sustos e problemas futuros.”