A reutilização da agulha da caneta de insulina continua sendo uma prática frequente entre pessoas com diabetes. No entanto, essa prática pode trazer consequências para o tratamento do diabetes e comprometer a aplicação correta da insulina.
Durante participação no DiabetesCast, as enfermeiras e especialistas em diabetes Gisele Filgueiras e Gabriela Cavicchioli explicaram por que a reutilização da agulha deve ser evitada. Segundo elas, o problema vai além do desconforto durante a aplicação e pode interferir na absorção da insulina pelo organismo.
Reutilizar a agulha pode alterar o tratamento
A recomendação das especialistas é que a agulha seja utilizada apenas uma vez. Gisele Filgueiras explica que não existe nenhuma bula de fabricante que oriente a reutilização desse material.
Segundo ela, a prática ainda acontece com frequência, mas isso não significa que seja considerada segura. Durante o episódio, a enfermeira afirmou que esse é um ponto que ainda precisa evoluir dentro do tratamento das pessoas que utilizam insulina.
Gabriela Cavicchioli reforçou que a reutilização frequente pode trazer impactos importantes para quem convive com diabetes.
“A reutilização de agulha não é nem a questão da dor. A gente aumenta até o risco da lipodistrofia e de não ir a dose adequada de insulina”, explicou a enfermeira.
Por que a agulha perde a qualidade após o uso
Segundo Gabriela Cavicchioli, a agulha sofre desgaste a cada aplicação.
Ela explica que o material “vai esgarçando”, ou seja, perde as características originais de fabricação. Como consequência, a aplicação tende a se tornar mais difícil e menos precisa.
Além disso, a ponta perde o corte adequado, aumentando o desconforto durante a aplicação.
Tom Bueno, apresentador do DiabetesCast e pessoa com diabetes tipo 1, contou que já reutilizou agulhas no passado.
Segundo ele, nas primeiras reutilizações a diferença pode parecer pequena. No entanto, depois de algumas aplicações, a sensação muda.
“Chega uma hora que parece que está enfiando uma faca dentro de você”, relatou durante a conversa.
Reutilização também pode favorecer a lipodistrofia
Outro risco destacado pelas especialistas é o aumento da chance de desenvolver lipodistrofia.
A lipodistrofia é o endurecimento ou formação de caroços na pele causado por aplicações repetidas de insulina na mesma região. Segundo Gabriela Cavicchioli, quando esses caroços aparecem, a absorção da insulina deixa de acontecer da mesma maneira.
Nesse contexto, uma insulina que deveria agir durante determinado período pode apresentar comportamento diferente, dificultando o controle da glicemia.
Por isso, além de trocar a agulha, as especialistas orientam fazer o rodízio dos locais de aplicação.
A recomendação é manter distância de aproximadamente dois ou três dedos entre uma aplicação e outra, reduzindo o risco de lesões no tecido subcutâneo.
O teste da gota também faz parte da aplicação correta
Outro ponto abordado pelas enfermeiras foi o chamado teste da gota. Antes de cada aplicação, tanto nas canetas descartáveis quanto nas reutilizáveis, é necessário liberar duas unidades de insulina até aparecer uma gota na ponta da agulha.
Segundo Gabriela Cavicchioli, esse procedimento confirma que a agulha está funcionando corretamente e que a dose será aplicada como foi prescrita.
Algumas pessoas acreditam que esse teste representa desperdício de insulina. No entanto, Gisele Filgueiras afirma que ele faz parte da segurança do tratamento e não deve ser ignorado.
As especialistas explicam que o cálculo da quantidade de insulina distribuída considera esse procedimento, justamente para garantir que a pessoa consiga realizar toda a técnica corretamente.
Agulha de 4 milímetros atende a maioria das pessoas
Durante o episódio, as especialistas também falaram sobre o tamanho das agulhas.
Segundo Gabriela Cavicchioli, estudos atuais mostram que a agulha de 4 milímetros pode ser utilizada por qualquer pessoa, independentemente da idade ou do tipo físico.
Ela explica que a pele possui espessura média de cerca de 2,7 milímetros. Dessa forma, a agulha de 4 milímetros consegue alcançar o tecido subcutâneo, local correto para aplicação da insulina.
Além disso, Gisele Filgueiras destacou que esse modelo é considerado o mais seguro para o tratamento e, na maioria dos casos, não exige a realização da prega na pele antes da aplicação. A exceção ocorre em crianças menores de seis anos e idosos muito magros, conforme explicado pelas especialistas.
O descarte correto também faz parte do tratamento
Depois da aplicação, a agulha deve ser descartada de forma adequada.
As especialistas alertam que a tradicional garrafa PET deixou de ser indicada porque atualmente o plástico é mais fino e pode oferecer risco para quem manipula o lixo.
A orientação é utilizar recipientes rígidos, com tampa de rosca e boca larga, ou caixas específicas para descarte de perfurocortantes, conhecidas como Descarpack.
Gabriela Cavicchioli orienta ainda que o recipiente não seja preenchido até a borda e que seja identificado antes de ser encaminhado para descarte no serviço de saúde.