É preciso pesar tudo antes de comer? Para quem convive com diabetes, a alimentação pode parecer uma espécie de matemática diária.
Quantas colheres de arroz? Quantas gramas de macarrão? Quanto de carne?
A dúvida é comum, principalmente entre pessoas que começam a prestar mais atenção à quantidade de carboidratos das refeições. Mas transformar todas as refeições em uma sequência de pesagens pode não ser necessário — e, em alguns casos, pode até gerar confusão.
Durante o Diabetes Cast, a nutricionista e educadora em diabetes Juliana Baptista chamou atenção justamente para essa questão. Segundo ela, a balança pode ser uma ferramenta útil para aprender a reconhecer porções, mas não precisa acompanhar a pessoa ou pesar todas as refeições.
“Eu sou um pouco contra a balança”, afirmou a nutricionista durante o episódio.
A declaração não significa que pesar alimentos seja errado. O ponto levantado por Juliana é outro: é preciso entender o que está sendo pesado e qual é a finalidade dessa medida.
O mesmo alimento pode pesar diferente depois de cozido
Um dos principais motivos de confusão está na água incorporada durante o preparo.
O macarrão é um exemplo simples. Quando está cru, apresenta determinado peso. Depois de cozido, absorve água e passa a pesar mais. Essa diferença de peso, entretanto, não representa necessariamente uma quantidade maior de carboidrato.
“Quando você cozinha, por exemplo, o macarrão, ele tem mais água. Ele vai estar mais pesado, mas é água. A água não vai subir a glicemia”, explicou Juliana.
O mesmo raciocínio vale para outros alimentos, como o arroz. Um arroz mais cozido pode apresentar um peso maior porque reter mais água, e não porque passou a ter mais carboidrato.
Por isso, comparar diretamente o peso de um alimento cru com o peso do mesmo alimento cozido pode levar a interpretações equivocadas.
A balança pode ensinar o “olhômetro”
Apesar da crítica ao uso excessivo da balança, Juliana não descarta a ferramenta. Para ela, pesar alimentos pode ser útil durante uma fase de aprendizado.
“Uma balança eu gosto muito de treinar o olhar da pessoa”, explicou.
A ideia é utilizar a balança como uma espécie de referência. Ao descobrir visualmente o que representa determinada quantidade de macarrão, arroz ou carne, a pessoa pode começar a reconhecer aquela porção sem precisar pesar o alimento todas as vezes.
Esse conceito também aparece nas orientações da Sociedade Brasileira de Diabetes sobre contagem de carboidratos. A entidade destaca que o método pode utilizar tanto medidas caseiras quanto peso em gramas ou mililitros, dependendo da estratégia utilizada.
Preciso levar uma balança para o restaurante?
Foi justamente essa situação que apareceu no podcast.
“Vamos combinar a gente levar a balancinha junto? Não faz muito sentido”, brincou Juliana.
A observação toca em uma questão importante: a alimentação também acontece fora de casa. Restaurante, casa de amigos, viagens e comemorações fazem parte da rotina. Se o controle alimentar depender exclusivamente de uma balança, situações comuns podem se tornar muito mais difíceis.
Por isso, aprender medidas visuais pode ser uma alternativa prática para algumas pessoas.
No podcast, a nutricionista cita referências como o tamanho da mão e colheres utilizadas no cotidiano para ajudar na percepção das porções.
Isso não substitui uma orientação nutricional individualizada, principalmente para quem utiliza contagem de carboidratos para ajustar a insulina. Mas pode transformar o conhecimento adquirido durante o acompanhamento profissional em uma habilidade que pode ser utilizada no dia a dia.
Contar carboidratos não significa pesar tudo
Existe ainda uma diferença importante entre contagem de carboidratos e simplesmente pesar todos os alimentos.
A contagem de carboidratos é uma estratégia utilizada no tratamento do diabetes e pode oferecer maior flexibilidade alimentar, especialmente para pessoas com diabetes tipo 1. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda a individualização da quantidade de carboidratos e considera a contagem uma ferramenta importante para melhorar o controle glicêmico.
Isso não significa que alimentos como carne, salada e outros componentes da refeição tenham necessariamente de ser colocados na balança da mesma forma que uma fonte importante de carboidrato.
Além disso, a composição completa da refeição pode interferir na resposta da glicemia. Proteínas e gorduras também podem contribuir para uma elevação mais tardia da glicose em determinadas situações.
O objetivo é ganhar autonomia, não depender da balança
Para Juliana, o aprendizado das porções deve servir para dar mais liberdade.
“Eu gosto que a pessoa entenda o quanto que é uma porção. Com o tamanho da mão dela, uma coisa que ela está ali no dia a dia, ou do tamanho de uma colher de sopa que todo mundo tem em casa”, explicou.
A ideia é que a pessoa consiga reconhecer uma quantidade aproximada mesmo quando estiver longe da cozinha.
Isso é especialmente relevante porque não existe uma quantidade universal de alimento que funcione para todas as pessoas com diabetes. A necessidade de carboidratos, a dose de insulina, o nível de atividade física, o tratamento utilizado e os objetivos nutricionais variam de pessoa para pessoa. A Sociedade Brasileira de Diabetes reforça que a terapia nutricional deve ser individualizada.
Quando a balança pode ser uma boa aliada?
A balança pode ser útil principalmente durante o processo de aprendizagem, para quem precisa compreender melhor as quantidades consumidas ou está iniciando uma estratégia de contagem de carboidratos.
Depois, o conhecimento pode ser transformado em referências visuais e medidas caseiras, tornando a alimentação menos dependente de números.
Como resume Juliana, o objetivo não é fazer da balança uma obrigação.
É usar a ferramenta para aprender e, depois, desenvolver autonomia para fazer escolhas também fora de casa.
