Um novo sensor desenvolvido para medir glicose e cetonas ao mesmo tempo foi apresentado no Congresso Europeu de Diabetes, o EASD 2026, em Milão. A tecnologia permite acompanhar uma diferença importante: a glicose pode não estar muito alta enquanto as cetonas, substâncias que podem indicar falta de insulina, aumentam no organismo. Identificar essa situação ajuda a reconhecer o risco de cetoacidose diabética, uma complicação que exige atendimento médico.
Chamado Libre Duo, o dispositivo da Abbott acrescenta a medição contínua de cetonas ao monitoramento da glicose. A proposta é identificar alterações que os sensores convencionais de glicose não mostram e emitir alertas para que pacientes e cuidadores possam agir conforme as orientações da equipe de saúde.
Em 25 de agosto de 2026, a agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, autorizou o Libre Duo 10 Day para pessoas com diabetes a partir dos 2 anos. Segundo o órgão, ele é o primeiro dispositivo vestível autorizado no país para monitorar cetonas continuamente e o primeiro no mundo a acompanhar glicose e cetonas juntas em um único dispositivo.

Por que acompanhar cetonas além da glicose?
As cetonas são produzidas quando o organismo utiliza gordura como fonte de energia. Em pessoas com diabetes, sua elevação pode estar relacionada à falta de insulina. Quando há acúmulo dessas substâncias e aumento da acidez do sangue, pode ocorrer a cetoacidose diabética.
A complicação é mais frequente no diabetes tipo 1, mas também pode ocorrer no tipo 2. Infecções e interrupção da administração de insulina estão entre os fatores que podem desencadear o quadro.
Os slides apresentados no EASD explicaram que a falta de insulina desencadeia processos diferentes. De um lado, o organismo aumenta a produção de glicose e tem dificuldade para utilizá-la. De outro, aumenta a quebra de gordura, levando à produção de cetonas. Embora possam ocorrer juntos, esses processos não avançam necessariamente na mesma velocidade.
O consenso internacional sobre crises hiperglicêmicas, publicado em 2024, reconhece que a cetoacidose pode acontecer com glicose abaixo de 200 mg/dL. Seu diagnóstico exige a combinação de diabetes conhecido ou hiperglicemia, cetose e acidose metabólica, ou seja, aumento da acidez do sangue. Cetonas elevadas, sozinhas, não confirmam cetoacidose.
Glicose e cetonas podem subir em ritmos diferentes
Na apresentação, gráficos atribuídos a estudos de interrupção de insulina em pessoas com diabetes tipo 1, conduzidos por Jennifer Sherr e colaboradores, mostraram três padrões: glicose e cetonas subindo em ritmo semelhante, glicose aumentando mais rapidamente e cetonas aumentando mais rapidamente.
Os exemplos ajudam a explicar por que acompanhar somente a glicose pode deixar de mostrar uma elevação de cetonas. São observações feitas em ambiente de pesquisa, que não estabelecem uma resposta igual para todas as pessoas.
Outro slide reuniu dados britânicos de 334 episódios de cetoacidose em adultos com diabetes tipo 1. Nesse conjunto, dez episódios, equivalentes a 3%, ocorreram com glicose na admissão abaixo de 200 mg/dL. Dezoito, ou 5,4%, apresentaram glicose abaixo de 250 mg/dL.
Esses percentuais se referem aos episódios analisados, e não ao risco de todas as pessoas com diabetes. Eles ilustram que a avaliação de uma possível cetoacidose não deve depender apenas de uma glicose muito elevada.
Pesquisa mostrou baixa frequência de testes de cetonas
A apresentação também trouxe uma pesquisa publicada em 2017 na revista científica Diabetes Care, com informações de 2.995 crianças e adultos com diabetes tipo 1 do registro americano T1D Exchange.
Entre os participantes, 38% relataram nunca verificar cetonas quando apresentavam náuseas ou vômitos. Outros 45% disseram nunca fazer essa verificação quando tinham febre.
As respostas foram coletadas por questionário em 2015. Portanto, os resultados descrevem aquela população e aquele período, sem representar uma estimativa atual para o Brasil.
O estudo evidencia uma dificuldade discutida no congresso: a medição de cetonas nem sempre é realizada em situações nas quais poderia acrescentar informações à avaliação. A monitorização contínua permite acompanhar a evolução dos valores, em vez de depender exclusivamente de testes feitos em momentos isolados.
Como funciona o Libre Duo
O sistema utiliza um pequeno sensor aplicado na parte posterior do braço. Ele mede glicose e beta-hidroxibutirato, um dos principais corpos cetônicos, no líquido entre as células.
As leituras são atualizadas a cada minuto e enviadas a um celular compatível. Além dos valores, o usuário pode acompanhar a direção das mudanças e receber alertas quando as cetonas atingem limites que exigem atenção.
A autorização americana foi baseada em seis estudos clínicos com mais de 600 participantes a partir dos 2 anos. Segundo a FDA, os resultados demonstraram que o dispositivo acompanha diferenças clinicamente relevantes nas concentrações de cetonas durante os dez dias de uso, incluindo a identificação de níveis elevados antes do início da cetoacidose.
Esses resultados sustentam a capacidade de medição do sistema. As informações podem ajudar pacientes e cuidadores a reconhecer sinais de risco e seguir o plano de cuidado, considerando também a glicose e os sintomas.
Aplicativo mostra valores e tendências
A interface apresentada no EASD mantém a glicose em destaque, com o valor atual, a seta de tendência e o histórico das últimas horas. Na tela demonstrada, quando as cetonas estavam abaixo de 0,6 mmol/L, aparecia uma indicação de que estavam na faixa normal.
A discussão também destacou a importância de acompanhar a velocidade de mudança das cetonas. As recomendações de especialistas mostradas nos slides utilizam setas para indicar aumento, relativa estabilidade ou queda, considerando uma variação de 0,4 mmol/L por hora.
Para o usuário, isso acrescenta uma informação ao número: permite observar se as cetonas continuam aumentando ou se começam a cair após as medidas orientadas pela equipe. As setas precisam ser interpretadas junto com os sintomas e o plano individual de tratamento.
O que os níveis de cetonas indicam
As recomendações apresentadas organizam as concentrações de cetonas em quatro faixas:
- Abaixo de 0,6 mmol/L: faixa considerada normal no quadro.
- De 0,6 a 1,5 mmol/L: cetonas elevadas, que exigem atenção à evolução dos valores e às orientações individuais.
- Acima de 1,5 e abaixo de 3,0 mmol/L: cetonas altas, com necessidade de seguir o plano de cuidado e entrar em contato com a equipe de saúde.
- A partir de 3,0 mmol/L: situação que exige avaliação médica imediata.
O material também orienta confirmar as cetonas com um teste de sangue capilar quando a leitura do monitor contínuo não corresponde aos sintomas.
Náuseas, vômitos, dor abdominal, cansaço, sede intensa, respiração profunda e confusão estão entre os sinais que precisam ser considerados. A presença de sintomas preocupantes exige avaliação, mesmo quando a glicose não está muito elevada.
Um plano individual deve acompanhar os alertas
Outro quadro apresentado aos profissionais combina diferentes faixas de glicose e cetonas para orientar o cuidado de adultos com diabetes tipo 1.
A mesma concentração de cetonas pode exigir condutas diferentes conforme a glicose, os sintomas e a evolução das medidas. Em determinadas situações, o plano pode incluir tanto insulina quanto carboidratos.
As doses adicionais de insulina e as quantidades de carboidratos precisam ser definidas pela equipe de saúde. O material técnico não representa uma orientação única para todas as pessoas com diabetes.
Durante o manejo da elevação de cetonas, o quadro orienta verificar a glicose a cada hora. A persistência de cetonas a partir de 3,0 mmol/L, apesar da insulina suplementar, aumenta a suspeita de cetoacidose. A procura por atendimento não deve ser adiada para aguardar essa persistência.
Para quem usa bomba, o plano também deve explicar como verificar um possível problema na infusão, quem contatar e quando procurar atendimento. Essas orientações devem estar preparadas antes de um episódio de doença ou de uma falha na administração de insulina.
Duas versões, com indicações diferentes
Na Europa, a Abbott anunciou em maio de 2026 a obtenção da marcação CE para dois modelos. O Libre Duo tem duração de até 15 dias e indicação para adultos a partir dos 18 anos. O Libre Duo 10 Day tem duração de até dez dias e indicação a partir dos 2 anos.
Nos Estados Unidos, a autorização corresponde à versão de dez dias. A fabricante também informou que trabalha com empresas de bombas de insulina para conectar os sensores a sistemas automatizados de administração de insulina. A disponibilidade dessas integrações depende de cada sistema e mercado.
Monitorização da glicose já foi associada a menos internações
A discussão sobre cetonas se soma às evidências acumuladas com sensores de glicose. No estudo francês RELIEF, pesquisadores analisaram 31.446 pessoas com diabetes tipo 1 e 41.027 com diabetes tipo 2 que iniciaram o uso do FreeStyle Libre.
Nos dois anos seguintes, as internações por eventos agudos relacionados ao diabetes foram 49% menores no grupo com tipo 1 e 48% menores no grupo com tipo 2, em comparação com o período anterior. A redução foi impulsionada principalmente pelas internações por cetoacidose.
A pesquisa foi observacional e utilizou registros do sistema de saúde francês. Os resultados mostram uma associação entre o início da monitorização e menos internações. O RELIEF avaliou sensores de glicose, enquanto os estudos que embasaram a autorização do Libre Duo 10 Day avaliaram o desempenho da medição conjunta de glicose e cetonas.
Disponibilidade no Brasil
O Libre Duo 10 Day recebeu autorização da FDA nos Estados Unidos, e as duas versões receberam a marcação CE na Europa. A apresentação no EASD não trouxe uma data de lançamento para o Brasil.
A medição conjunta permite acompanhar duas informações que podem mudar em ritmos diferentes. Os alertas de cetonas acrescentam dados para reconhecer situações de risco e orientar a avaliação junto com os sintomas e o plano de cuidado definido pela equipe de saúde.
