A consulta termina com uma frase que muita gente não esperava ouvir: “Você vai precisar começar a usar insulina.” Na saída, surgem as perguntas: fiz algo errado? O diabetes avançou? Vou depender da insulina para sempre? Essas dúvidas, comuns entre pessoas com diabetes tipo 2 e seus familiares, abriram o episódio mais recente do DiabetesCast, que recebeu a endocrinologista Denise Franco, colunista e consultora médica do Portal Um Diabético.
Quando o médico indica insulina
Um dos cenários mais comuns é o diagnóstico recente com glicose muito alta. Segundo a Dra. Denise, o quadro costuma vir acompanhado de sinais claros:
“Se a gente tem pacientes que estão emagrecidos, com muitos sintomas, hemoglobina glicada mais elevada […] pode ser que a gente precise de insulina. Isso não quer dizer que, principalmente o paciente com diabetes tipo 2, vai precisar sempre de insulina.”
A hemoglobina glicada é o exame que mostra a média da glicose nos últimos três meses. Nesse momento, a insulina ajuda a reduzir a glicotoxicidade, o efeito prejudicial da glicose elevada sobre o próprio organismo. A médica também enfatiza que o uso também pode ser pontual.
“Situações onde, por exemplo, eu vou ficar internado, vou fazer uma cirurgia ou vou ter uma instabilidade. Muitas vezes, o uso da insulina é mais fácil de eu colocar e tirar do que usar uma medicação de ação mais prolongada, quando eu não sei se o paciente vai comer ou não”, explica a médica.
As diretrizes da Associação Americana de Diabetes (ADA) de 2026 seguem essa lógica de individualização. Para adultos com diabetes tipo 2 sem hiperglicemia grave, o documento prefere medicamentos baseados em GLP-1 à insulina no início do tratamento, e indica a insulina quando há sintomas de hiperglicemia. Ou seja, a insulina é considerada a mais potente para reduzir a glicose, mas nem sempre é o primeiro passo.
Insulina é sinal de que a doença piorou?
Para a Dra. Denise, a necessidade de usar insulina não significa necessariamente que o diabetes tenha piorado. Segundo ela, em algumas situações, a insulina pode ser necessária apenas temporariamente e ser retirada após a estabilização do quadro. No entanto, com o passar do tempo, a perda progressiva da função das células responsáveis pela produção de insulina pode fazer com que algumas pessoas com diabetes tipo 2 precisem do tratamento de forma permanente.
Ela também critica a associação entre insulina e fracasso: “A gente tem muito uma coisa ligada à insulina como se eu estivesse piorando a minha doença, como se eu estivesse pior. E, na verdade, é uma terapia”. Segundo a especialista, as terapias mais novas também mudaram o cenário.
“Cada vez menos a gente tem precisado da insulina rápida. Tem se usado muito mais insulina basal, porque as terapias novas melhoram a glicemia pós-refeição. A insulina rápida ainda é um bom recurso, que a gente pode usar quando necessário.”
Na gestação, a insulina tem um papel específico. Segundo a Dra. Denise, o tratamento do diabetes gestacional começa com mudanças no estilo de vida e orientação alimentar, incluindo o fracionamento adequado dos carboidratos. Quando essas medidas não são suficientes e há necessidade de medicação, a insulina é o tratamento de escolha.
No diabetes tipo 1, não há tratamento alternativo
No diabetes tipo 1, a situação é diferente. Segundo a Dra. Denise, como o pâncreas deixa de produzir insulina, a reposição do hormônio é indispensável para o tratamento. A especialista também ressalta que a insulina é essencial para as pessoas que dependem dela e continua sendo uma das principais formas de tratamento para o diabetes tipo 1. A descoberta e a utilização terapêutica da insulina, a partir de 1921, transformaram o prognóstico de uma doença que, até então, era frequentemente fatal.
NPH e análogos: qual a diferença?
A NPH é a insulina mais usada no país. Os análogos são versões modificadas da insulina humana, com ação mais longa. A Dra. Denise detalha a diferença:
“Para eu aumentar o tempo de ação da NPH, eu tenho que aumentar a quantidade. E aí eu aumento o meu risco de hipoglicemia. Em geral, para quem precisa de insulina o tempo todo, a NPH eu preciso aplicar duas vezes no mínimo. Os análogos podem chegar até 24 horas.”
Por que a insulina assusta
O medo tem base concreta: a hipoglicemia, que é a queda da glicose abaixo do nível seguro. Mas há também o peso das histórias. “A gente sabe o medo que as pessoas têm pelas histórias que são contadas de outras pessoas que já usaram insulina e tiveram alguns problemas”, diz a especialista. Para ela, o caminho é a orientação:
“Quando você vai começar a insulinizar um paciente, não é simplesmente fazer uma prescrição e mandar pra casa. Eu preciso ensinar como usar, ensinar a técnica de aplicação, ensinar o que pode acontecer, por exemplo, queda ou subida da glicemia. O paciente tem que voltar para casa sabendo qual é a dose que vai aplicar, como vai conservar a insulina dentro de casa. E, principalmente, o que ele faz quando tem risco de hipoglicemia ou de hiperglicemia.”
A médica reconhece que a dificuldade também está do lado de quem prescreve. “Muitas vezes não é nem que ele seja um mau médico, é que ele não teve ainda uma formação detalhada para iniciar essa terapia.”
Alergia à insulina é rara
Outra dúvida esclarecida no episódio é sobre alergia. A Dra. Denise explica que o risco é baixo: “É bem raro o caso de alergia com o uso de insulina, principalmente as insulinas mais novas. Os análogos novos diminuíram muito a incidência.”
Ainda assim, embora sejam incomuns, podem ocorrer reações alérgicas à insulina. Segundo a Dra. Denise, elas podem aparecer no local da aplicação, com sintomas como vermelhidão e coceira, e, em casos raros, evoluir para uma reação mais grave, como o choque anafilático. A especialista explica que, em algumas situações, a reação pode estar relacionada não à própria insulina, mas a componentes da formulação. Nesses casos, é possível investigar a causa e buscar uma alternativa adequada, sem necessariamente interromper o tratamento.
O que muda no Brasil
O Ministério da Saúde iniciou a substituição gradual da insulina NPH pela glargina, de ação prolongada, no SUS. A mudança atinge, por ora, pessoas de 2 a 18 anos incompletos com diabetes tipo 1 e pessoas com 70 anos ou mais com diabetes tipo 1 ou 2, e depende de avaliação e prescrição médica. Pacientes não devem trocar a insulina por conta própria. Sobre a insulina semanal, a Dra. Denise diz:
“A gente vai ter aqui no Brasil, porque já tem no mundo, uma insulina basal que dura até sete dias. Já tem nos Estados Unidos, em alguns países da Europa, e no Brasil deve chegar ano que vem. A gente espera.”
A icodeca (Awiqli) foi aprovada pela Anvisa em março de 2025, mas não há data oficial confirmada de venda. Em 28 de setembro de 2026, a agência também aprovou o Kyinsu, que associa a icodeca à semaglutida, indicado para adultos com diabetes tipo 2. Entretanto, a aprovação não significa disponibilidade imediata nas farmácias.
O que muda no Brasil
Usar insulina não é, por si só, sinal de fracasso. Em muitos casos de diabetes tipo 2, é uma etapa do tratamento, às vezes temporária. No tipo 1, é indispensável. O risco de hipoglicemia é real, e por isso o aprendizado sobre o uso é parte do tratamento. A escolha do tipo de insulina e da dose depende de avaliação individual. A mensagem final da Dra. Denise resume o episódio:
“Continuo chamando que insulina é vida e é importante para a gente usar no dia a dia. A gente não pode falar mal dessa insulina. A insulina é boa. A gente só precisa saber utilizar, e treinar as pessoas que prescrevem.”
Quer saber mais sobre o uso da insulina no diabetes? Assista ao episódio completo do DiabetesCast.
