Quem tem diabetes pode acordar com a glicose elevada depois de passar por uma hipoglicemia durante a madrugada. Segundo a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, a forma como a queda da glicemia é corrigida durante a noite pode influenciar o valor registrado pela manhã.
A situação pode acontecer quando a pessoa percebe a glicose baixa e, por medo de permanecer em hipoglicemia, come algum alimento disponível naquele momento. A quantidade e o tipo escolhido podem fazer a glicemia subir além do necessário.
Durante participação no DiabetesCast, Denise Franco relatou o caso de uma paciente que apresentou esse padrão. Por volta das 22 horas, a glicemia estava em 100 mg/dL e a paciente decidiu comer antes de dormir por receio de ter uma hipoglicemia durante a noite.
A paciente, segundo a endocrinologista, não avaliou a quantidade ou o tipo de alimento que consumiria. Na manhã seguinte, acordou com glicemia de 210 mg/dL. Ao analisar o gráfico do sensor, Denise conseguiu relacionar o aumento ao comportamento adotado antes de dormir.
O que acontece na hipoglicemia noturna
A hipoglicemia é a redução da glicose no sangue. Durante a madrugada, uma pessoa pode perceber a queda e buscar alguma fonte de carboidrato para corrigir a situação.
De acordo com Denise Franco, quando a hipoglicemia acontece durante a noite, a pessoa pode pegar o primeiro alimento disponível para tentar corrigir a queda. Nesse processo, pode consumir uma quantidade maior do que a necessária.
O problema, segundo a médica, não está apenas no ato de comer, mas também na escolha e na quantidade do alimento utilizado para essa correção. Esses fatores podem contribuir para que a glicemia fique elevada horas depois.
No caso relatado pela endocrinologista, a paciente estava com 100 mg/dL antes de dormir e teve receio de apresentar uma hipoglicemia. Por isso, decidiu comer, mas não considerou quanto iria consumir ou qual alimento escolheria.
Sensor ajuda a identificar o padrão
O uso de sensor de glicose pode facilitar a investigação porque permite acompanhar não apenas o valor da glicemia, mas também o comportamento dela ao longo das horas.
Segundo Denise Franco, os gráficos e as setas de tendência permitem observar como a glicose se movimentou durante a noite. A análise desse histórico pode ajudar o profissional a entender o que ocorreu antes da glicemia elevada pela manhã.
No caso apresentado no DiabetesCast, foi justamente a análise do gráfico que permitiu identificar o comportamento da paciente antes de dormir e relacioná-lo ao valor registrado na manhã seguinte.
Para quem não utiliza sensor, a endocrinologista também citou a possibilidade de acompanhar a glicemia capilar em diferentes momentos. A proposta é observar os valores antes e depois das refeições, antes de dormir e durante a madrugada.
Glicose alta pela manhã tem outras causas
A hipoglicemia noturna não é a única possibilidade para explicar uma glicemia elevada ao acordar. Denise Franco também citou alimentação, falta de atividade física, alterações no tratamento e o fenômeno do alvorecer entre os fatores que precisam ser avaliados.
O fenômeno do alvorecer ocorre quando alterações hormonais contribuem para o aumento da glicose durante o período que antecede o despertar. Segundo a endocrinologista, esse padrão precisa ser observado ao longo de vários dias para ser identificado.
Por isso, uma única manhã com glicemia elevada não permite atribuir automaticamente o resultado ao fenômeno do alvorecer. A análise também deve considerar o que aconteceu durante a noite e nos dias anteriores.
A médica citou ainda a possibilidade de uma quantidade insuficiente de insulina basal para quem utiliza esse tipo de tratamento. Alimentação e outros fatores também podem contribuir para o aumento da glicemia durante a madrugada.
Quando procurar orientação médica
Para quem acorda frequentemente com a glicose elevada, Denise Franco recomenda investigar o padrão em vez de considerar o resultado como algo normal da rotina. O acompanhamento pode incluir a análise dos gráficos do sensor ou das medições feitas com glicemia capilar.
A endocrinologista orienta que alterações recorrentes sejam discutidas com um profissional de saúde, que poderá avaliar o tratamento e identificar em qual período da noite a glicose começa a subir.
A reportagem não orienta mudanças na dose de insulina ou no tratamento com base apenas em uma medição. O conteúdo apresentado por Denise Franco destaca a necessidade de observar o padrão e discutir os resultados com o profissional responsável pelo acompanhamento.