O endereço onde uma pessoa vive pode estar relacionado à frequência com que ela chega ao hospital por causa do diabetes. É o que indica uma análise de internações realizadas pelo SUS na cidade de São Paulo entre 2018 e 2021, que encontrou maior concentração dos registros em áreas de menor renda e maior vulnerabilidade social.
A distribuição das hospitalizações não ocorreu de maneira uniforme pela capital paulista. Os registros formaram concentrações em determinados territórios, principalmente em regiões periféricas e mais afastadas do centro.
O resultado surgiu a partir da pesquisa de Matheus Edson Rodrigues da Silva, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O trabalho investigou se as características sociais e urbanas dos bairros poderiam estar associadas à distribuição das internações por diabetes.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram informações públicas do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). Os registros foram distribuídos em 310 áreas da cidade para permitir a comparação entre diferentes territórios.
O território entrou na análise
A equipe utilizou o CEP de residência dos pacientes internados para localizar geograficamente os registros. Segundo Matheus, essa etapa permitiu transformar os endereços disponíveis no sistema em coordenadas e observar onde as internações estavam concentradas.
“É um trabalho minucioso de geocodificação”, explicou o pesquisador ao descrever o procedimento utilizado para transformar os CEPs em pontos geográficos.
Ao todo, 93% dos registros disponíveis puderam ser analisados. Os pesquisadores aplicaram testes de autocorrelação espacial, que permitem verificar se determinados eventos aparecem agrupados geograficamente ou se estão distribuídos de forma aleatória.
O resultado indicou que as internações por diabetes apresentavam agrupamentos na cidade.
Onde estão as maiores concentrações
Depois de identificar os agrupamentos, os pesquisadores cruzaram a localização das internações com variáveis socioeconômicas, demográficas e relacionadas ao ambiente urbano.
A análise encontrou associação entre maiores proporções de internações e áreas com menor renda e maior vulnerabilidade. Esses registros apareceram principalmente em regiões periféricas e distantes da região central.
O estudo utilizou modelos de regressão geograficamente ponderada, uma técnica que permite avaliar como determinadas associações variam de acordo com a localização.
Os dados não permitem afirmar que a baixa renda, isoladamente, provoque internações por diabetes. O que a pesquisa identificou foi uma associação entre as características dos territórios e a distribuição dos registros hospitalares.
O que isso muda para o SUS
Para o pesquisador, identificar onde as internações estão concentradas pode ajudar a direcionar ações de saúde para os territórios que apresentam maior ocorrência de hospitalizações.
A pesquisa aponta a atenção primária como uma das áreas que podem ser fortalecidas nesses locais. É nesse nível de atendimento que ocorre parte do acompanhamento contínuo das pessoas com diabetes.
O trabalho também considerou características do ambiente urbano e o acesso à alimentação adequada entre os fatores relacionados aos territórios analisados.
Dados mostram apenas parte do problema
A pesquisa utilizou registros de internações do SUS entre 2018 e 2021. Por isso, os resultados descrevem a distribuição das hospitalizações registradas nesse período e não representam todas as pessoas que vivem com diabetes na capital.
Também não é possível concluir, a partir da análise, que uma única característica social ou urbana seja responsável pelas internações.
Os resultados foram obtidos a partir da relação entre os registros hospitalares e as características dos territórios onde os pacientes viviam.
Diabetes cresce entre adultos nas capitais
Os dados analisados fazem parte de um cenário mais amplo de aumento dos diagnósticos de diabetes no país. Segundo o Ministério da Saúde, 12,9% dos adultos residentes nas capitais brasileiras e no Distrito Federal relataram diagnóstico médico da doença em 2024.
Em 2006, esse percentual era de 5,5%. Na pesquisa realizada em São Paulo, o foco não foi medir a quantidade de pessoas com diabetes em cada região, mas identificar como as internações pela doença estavam distribuídas no território.
A análise aponta que os registros hospitalares se concentram de maneira diferente entre as áreas da cidade. Os autores consideram que esse tipo de informação pode ser utilizado no planejamento das ações de saúde nos territórios identificados.
