Pessoas com sobrepeso ou obesidade que trocaram tratamentos injetáveis usados para controle do peso pela semaglutida em comprimido perderam, em média, 4 kg nos três meses seguintes à mudança.
O resultado faz parte do estudo OCTANE, apresentado no EASD 2026, congresso anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, realizado em Milão, na Itália. A pesquisa analisou dados de 194 adultos atendidos por uma plataforma de telessaúde nos Estados Unidos.
Os participantes não tinham histórico de diabetes. Antes da mudança, utilizavam medicamentos injetáveis para controle do peso, entre eles semaglutida ou tirzepatida. Depois, passaram a utilizar semaglutida oral uma vez ao dia, também destinada ao controle do peso.
Após três meses, a redução média observada foi de 4,1% do peso corporal, equivalente a aproximadamente 4 kg. Cerca de quatro em cada dez participantes, 40,7%, perderam pelo menos 5% do peso corporal.
Os resultados descrevem o que aconteceu após a mudança de tratamento, mas não permitem concluir que a semaglutida oral seja mais eficaz para perda de peso do que as opções injetáveis utilizadas anteriormente.
Estudo acompanhou pessoas que já faziam tratamento para controle do peso
O OCTANE é uma análise retrospectiva de dados de mundo real. Na prática, isso significa que os pesquisadores analisaram informações de pessoas acompanhadas durante o atendimento habitual, fora das condições controladas de um ensaio clínico.
Participaram adultos com obesidade ou com sobrepeso, definido no estudo como Índice de Massa Corporal, o IMC, entre 27 e 29,9 kg/m², associado a pelo menos uma condição relacionada ao excesso de peso.
Entre essas condições estavam pressão alta, alterações nos níveis de colesterol e triglicérides, apneia obstrutiva do sono e doença cardiovascular.
Pessoas com histórico de diabetes ou que haviam realizado cirurgia bariátrica foram excluídas da análise. Portanto, o estudo não avaliou pessoas com diabetes nem a troca de medicamentos utilizados especificamente para o tratamento da doença.
Os participantes já utilizavam medicamentos injetáveis para controle do peso antes de iniciar a semaglutida oral. Entre os tratamentos anteriores estavam a semaglutida e a tirzepatida.
A pesquisa não teve como objetivo comparar esses dois medicamentos. Eles aparecem no estudo porque faziam parte dos tratamentos utilizados antes da mudança para a opção oral.
O material divulgado também não detalha as doses dos medicamentos injetáveis utilizadas individualmente pelos participantes. Dessa forma, não é possível determinar, a partir dos dados apresentados, quais doses de semaglutida ou tirzepatida cada pessoa utilizava antes da mudança.
O estudo também não exigia um período específico de uso do medicamento injetável nem que os participantes tivessem apresentado perda de peso com o tratamento anterior.
Em média, o intervalo entre a última prescrição do medicamento injetável e o início da semaglutida oral foi de 36,8 dias.
Quatro em cada dez perderam pelo menos 5% do peso
Os 194 participantes tinham peso médio inicial de 100,5 kg e IMC médio de 34,5 kg/m².
Depois de três meses utilizando a semaglutida oral, 40,7% haviam perdido pelo menos 5% do peso corporal.
Os pesquisadores também analisaram a proporção de participantes que estavam na faixa de IMC utilizada para classificar obesidade. No início do acompanhamento, 87,1% apresentavam IMC igual ou superior a 30 kg/m². Três meses depois, essa proporção era de 65,5%, uma redução de 21,6 pontos percentuais.
O IMC é um cálculo que relaciona peso e altura e funciona como uma das ferramentas utilizadas para avaliar o excesso de peso. A mudança de classificação pelo IMC, isoladamente, não significa que a obesidade tenha sido curada. A obesidade é uma doença crônica e sua avaliação envolve outros fatores além desse indicador.
Participantes também relataram mudanças no dia a dia
Além da variação do peso, o estudo avaliou informações relatadas pelos próprios participantes sobre mudanças percebidas durante o período.
Entre aqueles com dados disponíveis, 82,4% relataram pelo menos uma melhora relacionada ao tratamento. Aproximadamente 69% disseram perceber que as roupas passaram a vestir melhor e cerca de 51% relataram uma alimentação mais saudável.
Essas informações foram relatadas pelos próprios participantes, uma das limitações apontadas pelos pesquisadores na interpretação dos resultados.
Resultados mostram o que aconteceu após a mudança
O estudo acompanhou a evolução do peso depois que os participantes passaram dos medicamentos injetáveis para a semaglutida oral.
Como não houve um grupo de comparação que permanecesse utilizando os tratamentos anteriores, os resultados não permitem concluir que o comprimido seja mais eficaz do que as opções injetáveis nem atribuir exclusivamente à troca os aproximadamente 4 kg de redução média observados.
Estudos com dados de mundo real ajudam a observar o que acontece com pacientes durante a prática cotidiana, mas têm limitações para estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Estudo tem limitações
O período de acompanhamento foi de três meses, o que não permite determinar, a partir desses resultados, se a redução de peso observada será mantida no médio e no longo prazo.
O peso utilizado na análise foi informado pelos próprios participantes. Os pesquisadores também apontaram variações no momento e na quantidade de informações coletadas durante os atendimentos de rotina por telessaúde.
Para entrar na análise, os participantes precisavam permanecer utilizando a semaglutida oral durante os três meses, sem uma interrupção superior a 30 dias. Os responsáveis pelo estudo reconhecem que esse critério pode provocar viés de seleção.
Outra limitação apontada pelos pesquisadores é que os resultados obtidos nesse grupo não podem ser generalizados para toda a população com sobrepeso ou obesidade.
Semaglutida oral estudada é destinada ao controle do peso
A pesquisa avaliou uma formulação de semaglutida oral destinada ao controle do peso, apresentada no material da Novo Nordisk como Wegovy em comprimidos.
O documento menciona a apresentação oral de 25 mg nas informações referentes ao produto. A descrição metodológica disponibilizada no material, no entanto, não detalha individualmente o esquema de doses utilizado pelos participantes durante o acompanhamento.
Segundo a Novo Nordisk, no momento da divulgação dos resultados, o Wegovy em comprimidos havia sido lançado nos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Alemanha. A empresa informou que o medicamento seria levado a outros mercados selecionados nos meses seguintes.
O material divulgado não informa lançamento dessa apresentação no Brasil.
Medicamentos que utilizam a semaglutida como princípio ativo podem ter diferentes apresentações, doses e indicações. Os resultados do OCTANE, portanto, não representam uma orientação para substituir um tratamento injetável por qualquer comprimido que contenha semaglutida.
Mudanças no medicamento, na dose ou na forma de administração devem considerar a indicação do tratamento e a avaliação do profissional de saúde responsável pelo acompanhamento.
Resultados são de três meses de acompanhamento
Os dados apresentados no congresso mostram o que ocorreu nos três meses seguintes à mudança para a semaglutida oral em um grupo específico de adultos com sobrepeso ou obesidade e sem histórico de diabetes.
O estudo não permite determinar se a perda de peso observada será mantida no longo prazo nem estabelecer se a semaglutida oral oferece resultados superiores aos tratamentos injetáveis utilizados anteriormente.
Pesquisas com acompanhamento mais longo e comparação direta entre diferentes estratégias de tratamento são necessárias para responder a essas questões.
Referências
Smith BJ, Divino V, Morgen CS e colaboradores. 3-month real-world weight outcomes among patients with overweight or obesity after switching from injectable semaglutide or tirzepatide to oral semaglutide for weight management: the OCTANE study. Estudo apresentado no EASD 2026
