O climatério traz mudanças hormonais que afetam o metabolismo, o sono, o humor e a saúde cardiovascular. Para a mulher que convive com diabetes, essa fase exige atenção redobrada. Isso porque o acúmulo de gordura abdominal, típico desse período, dificulta o controle da glicemia e pode exigir ajustes no tratamento.
A boa notícia é que a alimentação tem papel central nesse cuidado. Priorizar proteínas de qualidade, fibras e gorduras saudáveis ajuda a manter a massa muscular, controlar a glicemia e proteger o coração. Pequenas escolhas diárias fazem diferença para atravessar essa fase com mais equilíbrio.
A perimenopausa: quando as mudanças começam antes
Os primeiros sinais da transição hormonal costumam surgir por volta dos 40 anos. Nesse período, chamado de perimenopausa, as oscilações do estrogênio e da progesterona impactam o metabolismo feminino de forma direta.
Durante o período que antecede a menopausa e todo o climatério ocorre uma mudança na distribuição de gordura corporal, com maior acúmulo no abdômen. A explicação é da médica Lenita Zajdenverg, coordenadora do Departamento de Diabetes na Gestação da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Segundo a endocrinologista, isso leva a um aumento da resistência à insulina e pode dificultar o manejo da glicemia.
Essas alterações afetam tanto mulheres com diabetes tipo 2 quanto mulheres com diabetes tipo 1. No tipo 2, a dificuldade costuma aparecer no controle glicêmico. Já no tipo 1, muitas vezes é preciso ajustar as doses de insulina.
Por que o peso é o primeiro ponto de atenção
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, o ganho de peso no climatério é um dos principais fatores de descontrole glicêmico nessa fase. Isso acontece porque o excesso de peso aumenta a resistência à insulina, tornando o diabetes mais difícil de controlar. Com o ganho de peso, há maior chance de ocorrer a resistência insulínica, quando ficará mais difícil controlar o diabetes, explica a endocrinologista Lenita Zajdenverg.
Por isso, segundo a especialista, o cuidado com o peso deve ser prioridade desde os primeiros sinais da perimenopausa. Vale tanto para quem tem diabetes tipo 1 quanto para quem tem tipo 2.
O papel da alimentação no controle glicêmico dessa fase
A alimentação é uma das ferramentas mais acessíveis para lidar com as mudanças metabólicas do climatério. Priorizar proteínas de boa qualidade, fibras e gorduras saudáveis ajuda a manter a massa muscular e a controlar a glicemia. Além disso, aumenta a saciedade e protege a saúde do coração.
Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados também contribui para o equilíbrio metabólico nessa fase. Investir em alimentos mais naturais e nutritivos favorece o controle do peso e, consequentemente, da glicemia.
Cálcio e vitamina D: atenção redobrada
Além das proteínas, fibras e gorduras saudáveis, o climatério pede atenção a dois nutrientes específicos: o cálcio e a vitamina D. Ambos merecem destaque nessa etapa da vida, já que a queda do estrogênio também afeta a saúde óssea.
Sintomas que podem confundir o diagnóstico
Um ponto de atenção importante é a sobreposição de sintomas entre o climatério e o diabetes descompensado. Identificar a origem de cada sinal exige olhar clínico e monitoramento frequente. O calorão, por exemplo, é típico do climatério, mas pode ser confundido com um episódio de hipoglicemia.
Da mesma forma, o cansaço e a falta de ânimo, comuns nessa fase, também podem indicar hiperglicemia. Já os lapsos de memória estão relacionados à queda do estrogênio, mas podem interferir no manejo do diabetes. A irritabilidade e a ansiedade, ligadas à oscilação hormonal, afetam a tomada de decisão no tratamento.
Lapsos de memória e a “nuvem cerebral”
A mulher pode esquecer se tomou um medicamento, se aplicou a insulina ou se fez determinada correção. Segundo a especialista, essa condição, muitas vezes descrita como nuvem cerebral, pode gerar ansiedade e culpa desnecessárias. É importante deixar claro que essas mudanças fazem parte dessa fase e tendem a se estabilizar, afirma a especialista. Ter uma rede de apoio é fundamental nessa fase. O suporte da família ou dos amigos é muito importante quando a memória e a concentração não estão no melhor momento.
Depois da menopausa: riscos cardiovasculares em foco
Após 12 meses consecutivos sem menstruação, ocorre a menopausa. Nessa fase, a queda do estrogênio se estabiliza, mas os riscos cardiovasculares se tornam mais evidentes, já que o corpo perde parte da proteção hormonal.
Mulheres com diabetes ficam ainda mais vulneráveis a complicações vasculares nesse período. O acompanhamento médico regular é indispensável para monitorar pressão arterial, colesterol e função renal.
Tratamentos: o diabetes não impede o cuidado do climatério
Uma dúvida comum entre mulheres com diabetes é se os tratamentos para os sintomas do climatério são permitidos. Segundo a Dra. Lenita, o diabetes não é uma contraindicação em si.
O uso de hidratantes vaginais ou estrogênio vaginal, por exemplo, não é contraindicado para mulheres com diabetes. Pelo contrário: pode melhorar o conforto e a qualidade de vida. Já a terapia hormonal sistêmica deve ser avaliada de forma individual, em conversa com o médico.
Para a endocrinologista, o ideal é que ginecologista e endocrinologista conversem entre si. Quando a equipe se alinha, o manejo dos sintomas e do diabetes se torna muito mais eficiente. O acompanhamento profissional continua indispensável para ajustar o tratamento conforme a necessidade de cada mulher.
