Quem convive com diabetes costuma ter uma dúvida no fim do dia: comer antes de dormir ajuda a evitar a hipoglicemia ou pode aumentar a glicose durante a madrugada? A resposta depende do tratamento, do comportamento da glicemia e da monitorização.
No entanto, algumas escolhas podem atrapalhar esse controle. As orientações são da nutricionista, educadora em diabetes e membro do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Tarcila Campos, durante o DiabetesCast.
Nem toda pessoa com diabetes precisa fazer ceia
Antes de falar dos alimentos, a especialista faz um alerta: a ceia não é obrigatória para todas as pessoas com diabetes. Segundo ela, a decisão depende do tipo de tratamento, do histórico de hipoglicemia, do uso de insulina e do comportamento da glicose durante a madrugada.
Para quem utiliza determinados tipos de insulina, como NPH e regular, a ceia pode fazer parte do tratamento. Já outras pessoas conseguem passar a noite sem comer e manter a glicemia estável. Por isso, conhecer o próprio padrão glicêmico é o primeiro passo antes de mudar a alimentação.
1. Evite comer grandes quantidades de carboidratos sem orientação
Um dos erros mais comuns é acreditar que comer muito carboidrato antes de dormir evita a hipoglicemia.
Tarcila explica que muitas pessoas, por medo de uma queda na glicose durante a madrugada, acabam fazendo uma ceia maior do que o próprio jantar. Ela cita como exemplo um iogurte acompanhado de uma banana grande. Apesar de serem alimentos que podem fazer parte da alimentação, essa combinação pode fornecer mais carboidratos do que a refeição principal.
No diabetes tipo 1, quando essa ceia é feita sem aplicação de insulina, a consequência pode ser uma hiperglicemia durante a madrugada, principalmente se a insulina basal já estiver ajustada.
2. Evite usar doces e alimentos açucarados para prevenir hipoglicemia
Outro erro apontado pela nutricionista é utilizar alimentos que servem para corrigir uma hipoglicemia como estratégia para evitá-la.
Balas, doces, sucos e outros alimentos ricos em açúcar têm absorção rápida. Eles são indicados para tratar uma hipoglicemia quando ela acontece, mas não permanecem tempo suficiente no organismo para proteger toda a madrugada.
Além disso, consumir grandes quantidades desses alimentos antes de dormir pode manter a glicemia elevada por horas e contribuir para o aumento da hemoglobina glicada.
3. Evite exagerar em biscoitos recheados e alimentos ultraprocessados
Segundo Tarcila, muitas pessoas recorrem ao biscoito recheado antes de dormir porque ele reúne carboidratos e gordura. Embora essa combinação prolongue a absorção da glicose, transformá-la em um hábito não é uma estratégia adequada.
O consumo frequente desses produtos pode aumentar a ingestão de calorias, favorecer o ganho de peso e alterar outros indicadores de saúde, como o colesterol.
A especialista ressalta que o objetivo da ceia não é apenas evitar a hipoglicemia, mas também preservar a saúde como um todo.
O que pode ser uma alternativa
Quando existe indicação para fazer uma ceia, a recomendação é combinar pequenas quantidades de carboidratos com proteínas ou gorduras de boa qualidade. Essa estratégia ajuda a manter a glicose mais estável durante a madrugada.
Entre as opções citadas por Tarcila estão iogurte natural com pequena porção de granola, frutas acompanhadas de castanhas, torrada com queijo, iogurte com whey protein, abacate com whey e banana congelada batida com leite.
Ela reforça que a quantidade deve ser individualizada e que algumas pessoas ainda podem precisar aplicar insulina para essa refeição.
Monitorar a glicose ajuda a tomar a decisão
Para a nutricionista, antes de decidir se deve ou não fazer uma ceia, é importante conhecer o comportamento da glicose durante a noite.
Quem usa sensor consegue acompanhar a curva glicêmica de forma contínua. Já quem faz a medição na ponta do dedo pode verificar a glicemia durante a madrugada em alguns dias da semana para entender se há tendência de queda.
Sem esse acompanhamento, muitas decisões acabam sendo tomadas apenas pelo medo da hipoglicemia, o que pode levar a um consumo maior de alimentos sem necessidade.
