O tradicional prato de arroz e feijão costuma aparecer entre as principais recomendações quando o assunto é uma alimentação equilibrada.
Mas existe um detalhe do preparo que pode passar despercebido por quem convive com diabetes: o que vai dentro do feijão também pode interferir na resposta da glicose.
Bacon, linguiça e outros embutidos são usados por muitas famílias para dar sabor ao feijão. O problema não está apenas no alimento que aparece no prato, mas na gordura que é incorporada à preparação durante o cozimento. Segundo a nutricionista e educadora em diabetes Juliana Baptista, esse é um exemplo de como a composição de uma refeição pode ser mais complexa do que parece.
“Às vezes vem o paciente e diz: ‘não, mas eu não estou comendo nada de gordura’. E a gente vê aquela curva subindo lá na frente. Quando a gente vai pesquisar o que acontece, colocamos linguiça ou bacon no feijão”, relatou a especialista durante o Diabetes Cast.
O bacon não precisa aparecer no prato para entrar na refeição
A gordura utilizada no preparo pode fazer parte da refeição mesmo quando o alimento não é servido diretamente. É o que acontece quando bacon, linguiça ou outros ingredientes mais gordurosos são cozidos junto com o feijão.
“Não, mas eu só estou comendo feijão, eu não ponho o bacon no prato. Sim, mas quando a gente cozinha, a gordura, ela derrete e entra no feijão. Então, ele está comendo a gordura, sim”, explicou Juliana.
Esse detalhe ajuda a entender por que duas refeições aparentemente semelhantes podem produzir respostas diferentes na glicemia. O feijão, por si só, fornece carboidratos, fibras e proteínas. A forma como ele é preparado pode acrescentar uma quantidade significativa de gordura à refeição.
A Sociedade Brasileira de Diabetes destaca que, especialmente no diabetes tipo 1, proteínas e gorduras também podem interferir na resposta glicêmica após as refeições. Em determinadas situações, refeições com maior quantidade desses nutrientes podem estar associadas a uma elevação mais tardia da glicose.
Por que a glicemia pode subir horas depois?
Um dos pontos que mais chamam atenção na relação entre alimentação e diabetes é que nem sempre a glicemia responde imediatamente ao que foi consumido.
Juliana explicou durante o podcast que alguns alimentos podem produzir efeitos mais tardios. Isso é particularmente importante em refeições que combinam carboidratos com quantidades maiores de gordura.
“Tem alimento que impacta na curva glicêmica ali duas horas depois. E tem alimento que parece que não impacta, mas ele vai impactar quatro, seis horas depois que a pessoa come”, afirmou.
Isso pode ajudar a explicar situações em que a glicemia parece estar adequada logo depois da refeição, mas aumenta algumas horas mais tarde.
No caso de pessoas com diabetes tipo 1 que utilizam insulina nas refeições, esse comportamento pode exigir atenção individualizada, já que a quantidade e a composição da refeição fazem parte da avaliação para o manejo da glicose. A própria diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda considerar proteínas e gorduras, além dos carboidratos, na avaliação da resposta glicêmica pós-prandial.
Então é preciso tirar bacon e linguiça do feijão?
Não necessariamente. A questão apresentada pela nutricionista é a frequência e a quantidade desses alimentos, e não uma proibição absoluta.
Durante o podcast, Juliana explicou que o feijão pode ser temperado de outras maneiras, utilizando ingredientes como alho, cebola e outros temperos. Para ela, bacon e linguiça não precisam fazer parte do preparo diário.
“Pode. O ideal é não ter isso todos os dias, até para parte cardíaca, parte colesterol, ganho de peso”, disse.
A orientação também faz sentido quando se considera que bacon e linguiça são alimentos processados e, em geral, apresentam maior quantidade de gordura e sódio. A substituição por temperos naturais pode preservar o sabor da preparação sem acrescentar a mesma quantidade de gordura proveniente dos embutidos.
O feijão continua sendo um aliado no prato
Retirar bacon ou linguiça do preparo não significa transformar o feijão em um alimento sem graça ou deixar de consumir o prato tradicional brasileiro.
Pelo contrário. A combinação de arroz e feijão foi destacada pela nutricionista como uma opção que reúne diferentes nutrientes e pode fazer parte da alimentação de pessoas com diabetes.
“O feijão tem a proteína, o carboidrato e a fibra”, explicou Juliana.
A fibra presente no feijão também é relevante para a alimentação de quem convive com diabetes. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, fibras podem contribuir para o controle da glicemia e para a saciedade, além de estarem presentes em alimentos como feijões, outros legumes, vegetais, sementes e farelo de aveia.
Por isso, a discussão não precisa ser simplesmente “feijão pode ou não pode”. O contexto da refeição importa: a quantidade consumida, os demais alimentos presentes no prato e a forma de preparo também participam da resposta glicêmica.
O problema está no conjunto da refeição
Para quem tem diabetes, observar apenas o carboidrato de um alimento pode não contar toda a história. A composição da refeição e o modo de preparo também podem influenciar a resposta da glicose.
“Tem que entender e saber onde vai ser a curva para ajustar com a nutricionista ou com o médico”, afirmou Juliana.
Isso não significa que toda pessoa com diabetes precise retirar bacon ou linguiça do feijão. A alimentação deve ser individualizada, considerando o tratamento, as necessidades nutricionais, os hábitos e a realidade de cada pessoa. A recomendação da Sociedade Brasileira de Diabetes é que a estratégia nutricional seja adaptada ao indivíduo.
No fim, o detalhe que parece pequeno pode fazer parte de uma refeição muito maior. E entender esses detalhes pode ajudar a interpretar melhor as variações da glicemia ao longo do dia.
