Receber o diagnóstico de diabetes tipo 2 costuma trazer uma série de dúvidas sobre alimentação. Entre elas, uma das mais frequentes é o que pode ou não entrar no prato. Muitas pessoas acreditam que precisarão abandonar alimentos como arroz, feijão, pão e macarrão. No entanto, segundo a nutricionista Tarcila Campos, membro do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e educadora em diabetes, a alimentação para quem vive com diabetes tipo 2 não precisa ser baseada em proibições.
Durante participação no DiabetesCast, Tarcila explicou que o diabetes tipo 2 é uma condição multifatorial e que a alimentação faz parte do tratamento, mas não deve ser encarada como punição. Segundo ela, o foco deve estar na organização das refeições, na quantidade consumida e nas combinações dos alimentos.
Diabetes tipo 2 não acontece apenas por causa da alimentação
De acordo com Tarcila, um dos primeiros mitos que precisam ser esclarecidos é a ideia de que o diabetes tipo 2 surge exclusivamente por escolhas alimentares inadequadas.
A nutricionista explica que fatores como idade, genética, sedentarismo, excesso de gordura abdominal e hábitos alimentares participam do desenvolvimento da doença. Portanto, o diagnóstico não deve ser encarado como consequência única do que a pessoa comeu ao longo da vida.
Nesse contexto, ela destaca que a alimentação saudável continua importante, mas não existe um alimento isolado responsável pelo surgimento do diabetes.
“Não é porque alguém comeu errado a vida inteira que necessariamente desenvolveu diabetes. Existem vários fatores envolvidos”, explicou.
1. Metade do prato deve ser composta por verduras e legumes
Entre as principais orientações para o almoço de quem tem diabetes tipo 2, Tarcila destaca a composição do prato.
Segundo ela, uma estratégia que pode beneficiar praticamente todas as pessoas é preencher cerca de 50% do prato com verduras e legumes. A recomendação vale para vegetais crus, cozidos ou refogados.
“Mais importante do que discutir se o vegetal é cru ou cozido é garantir que ele esteja presente na refeição”, afirmou.
Além disso, ela lembra que salada de batata não entra nessa categoria. Embora seja um alimento nutritivo, a batata é fonte de carboidrato.
2. Arroz branco não precisa sair da alimentação
Uma das dúvidas mais comuns entre pessoas recém-diagnosticadas é se o arroz branco deve ser eliminado. Segundo Tarcila, isso não é necessário.
Embora o arroz integral tenha mais fibras, vitaminas e minerais por ser menos processado, o arroz branco também pode fazer parte do plano alimentar.
A diferença está na forma de consumir. Quando o arroz branco é combinado com feijão, verduras, legumes e uma fonte de proteína, sua absorção ocorre de forma diferente.
“O arroz com feijão é uma combinação interessante porque o feijão fornece fibras e proteínas que ajudam a reduzir a velocidade de absorção do carboidrato”, explicou.
Portanto, para muitas pessoas, o problema não está no arroz, mas no excesso de quantidade e na ausência de combinações adequadas.
3. A quantidade importa tanto quanto a qualidade
Segundo a especialista, muitas pessoas procuram um alimento “milagroso” para controlar a glicose. No entanto, o fator mais importante costuma ser a quantidade consumida.
Ela explica que alimentos considerados saudáveis também contêm carboidratos.
A aveia, por exemplo, possui fibras e nutrientes importantes. Ainda assim, consumir grandes quantidades pode elevar a glicose. O mesmo vale para frutas.
Tarcila reforça que não existem frutas proibidas para quem tem diabetes tipo 2. Banana, manga, uva, mamão e outras frutas podem fazer parte da alimentação. O que muda é a porção consumida e a forma de combinação.
Em muitos casos, associar a fruta a uma fonte de proteína, como iogurte natural, pode ajudar a reduzir a velocidade de absorção dos carboidratos.
4. Sempre inclua uma fonte de proteína na refeição
Outra orientação destacada pela nutricionista é evitar refeições compostas apenas por carboidratos.
Por isso, ela recomenda incluir proteínas como ovos, frango, carnes, peixes, queijos ou leguminosas nas refeições.
Essa estratégia pode ser utilizada no café da manhã, almoço, jantar e lanches. No almoço, por exemplo, o prato pode incluir arroz, feijão, salada e uma proteína.
Da mesma forma, uma refeição com batata e frango assado também pode funcionar bem dentro de um planejamento alimentar.
Segundo Tarcila, a combinação dos alimentos ajuda a reduzir picos glicêmicos e torna a refeição mais equilibrada.
Não existe alimento proibido para todas as pessoas
Outro ponto destacado pela nutricionista é a individualidade. Ela explica que pessoas diferentes podem responder de formas diferentes ao mesmo alimento.
Enquanto uma pessoa pode apresentar elevação significativa da glicose após consumir determinado alimento, outra pode ter uma resposta diferente.
Por isso, o acompanhamento da glicemia pode ser uma ferramenta importante para compreender o comportamento do próprio organismo.
Segundo Tarcila, quando há acesso ao glicosímetro ou ao sensor de glicose, torna-se possível avaliar como cada refeição influencia os níveis glicêmicos e personalizar melhor as orientações alimentares.
O Guia Alimentar Brasileiro pode ser um aliado
Durante a entrevista, a nutricionista também destacou a importância do Guia Alimentar para a População Brasileira.
Segundo ela, o documento valoriza alimentos in natura e minimamente processados e respeita as diferenças culturais e regionais do país.
Isso significa que alimentos como arroz, feijão, cuscuz, mandioca, macaxeira, batata, inhame e milho podem fazer parte da alimentação de quem vive com diabetes tipo 2.
O foco deve estar na quantidade consumida, na frequência e nas combinações realizadas ao longo do dia.
Além disso, Tarcila alerta para o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, como sucos de caixinha, biscoitos industrializados e barrinhas de cereal com muitos ingredientes.
Segundo ela, a leitura dos rótulos e a preferência por alimentos mais próximos da forma natural podem trazer benefícios para a saúde de forma geral.