Pão, arroz e macarrão estão entre os alimentos que mais geram dúvidas depois do diagnóstico de diabetes. Como são fontes de carboidrato, eles podem influenciar a glicemia após as refeições, o que faz muitas pessoas questionarem se esses alimentos devem fazer parte da rotina. A resposta, porém, não é tão simples e envolve mais do que olhar apenas para um alimento isoladamente.
É o que explica a nutricionista e educadora em diabetes Tarcila de Campos, em episódio do DiabetesCast. Segundo ela, a alimentação de quem tem diabetes não deve ser encarada apenas como uma lista de alimentos proibidos, mas como parte do tratamento, considerando as necessidades e escolhas de cada pessoa.
Para entender essa relação, o primeiro passo é conhecer o papel do carboidrato, nutriente presente em diversos alimentos que fazem parte da alimentação cotidiana.
Carboidrato, pode?
Todos os alimentos que comemos contêm nutrientes. No grupo do pão, arroz, macarrão, batata, frutas, leite e outros alimentos, o principal nutriente é o carboidrato, ainda que ele esteja presente em diferentes quantidades e formas nesses alimentos.
Durante a digestão, esse nutriente é quebrado e contribui para a formação da glicose, que pode ser absorvida e chegar à corrente sanguínea. É por esse motivo que esse nutriente tem um impacto importante na glicemia depois das refeições.
Isso não significa, porém, que todos os alimentos que contêm carboidratos tenham o mesmo efeito. A quantidade consumida, a forma de preparo e a combinação com outros componentes da refeição podem influenciar a velocidade com que a glicose aparece no sangue.
Contudo, o carboidrato também faz parte de uma alimentação adequada e fornece energia para o organismo, como pontua Tarcila:
“A alimentação é vital para todo mundo e o carboidrato também. Os músculos precisam de carboidrato para funcionar. O coração é um músculo e precisa de glicose para funcionar. Então, quando a gente pensa em alimentação saudável, a ideia é escolher as melhores fontes, na quantidade que cada um precisa ao longo do dia, de acordo com a medicação prescrita e até considerando os hábitos alimentares de cada um.”
A partir dessa lógica, a questão deixa de ser apenas quais alimentos devem ser retirados e passa a envolver também a maneira como eles são incluídos na rotina. É o caso do pão.
E o pão?
O pão, assim como tantos outros alimentos derivados do trigo, é uma fonte de carboidrato e pode fazer parte da alimentação de uma pessoa com diabetes. O ponto está principalmente na quantidade, na frequência e na composição da refeição.
No episódio do DiabetesCast, a nutricionista Tarcila usa o pão francês para explicar justamente essa questão. Em vez de pensar apenas em retirar o alimento, a estratégia pode envolver observar com o que ele será combinado.
Por exemplo, acrescentar ovo ou queijo muda a composição da refeição em comparação com consumir o pão acompanhado de geleia, que também é fonte de carboidrato. Isso não significa que ovo ou queijo sejam obrigatórios, nem que a geleia seja automaticamente proibida. A ideia é compreender que a composição da refeição pode influenciar a resposta glicêmica.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), no diabetes tipo 1, o carboidrato é o nutriente que exerce maior influência na variabilidade glicêmica após as refeições. Por isso, a quantidade deve ser individualizada, e a contagem de carboidratos pode ser utilizada como estratégia de controle também.
E o arroz branco? Precisa ser trocado pelo integral?
O arroz integral costuma ter mais fibras do que o arroz branco, e a presença de fibras pode contribuir para uma absorção mais lenta dos carboidratos. Por isso, é recomendável priorizar fontes de carboidratos ricas em fibras e minimamente processadas.
Mas isso não significa que o arroz branco esteja automaticamente proibido. Segundo Tarcila, uma possibilidade é montar a refeição com outros grupos de alimentos, como salada, legumes, feijão e uma fonte de proteína.
A combinação também pode ser considerada quando o assunto é outro alimento bastante presente na alimentação dos brasileiros: o macarrão.
E o macarrão? Ele também pode entrar no prato?
O mesmo acontece com o macarrão, ele é um alimento que pode fazer parte da alimentação de quem tem diabetes, mas que merece atenção à quantidade e à composição da refeição. Em vez de pensar apenas no macarrão isoladamente, a refeição deve incluir vegetais e uma fonte de proteína.
A ideia é que a alimentação seja composta por diferentes grupos de nutrientes, e não apenas por uma grande porção de carboidrato. A SBD recomenda, para pessoas com diabetes tipo 2, priorizar carboidratos provenientes de vegetais, legumes, frutas, laticínios e grãos integrais, além de reduzir carboidratos refinados e açúcares adicionados.
Além da escolha dos alimentos e da composição do prato, existe ainda outra estratégia que pode ser considerada durante a refeição: a ordem em que eles são consumidos.
A ordem dos alimentos faz diferença?
Outro ponto abordado pela nutricionista é a possibilidade de utilizar a ordem de consumo dos alimentos como uma estratégia para influenciar a resposta glicêmica. A lógica é começar a refeição por alimentos como vegetais e fontes de proteína e deixar o carboidrato para depois.
A estratégia pode influenciar a resposta glicêmica por alterar a dinâmica da digestão e da absorção dos nutrientes da refeição, mas é importante não transformar isso em uma promessa de que a glicose necessariamente ficará mais baixa. A resposta pode variar de pessoa para pessoa, e a estratégia alimentar precisa fazer sentido dentro do tratamento individual.
Essa diferença de resposta também está relacionada ao tipo de diabetes. Embora alguns princípios de alimentação saudável sejam semelhantes, o tratamento do diabetes tipo 1 e do tipo 2 apresenta diferenças importantes.
Diabetes tipo 1 e tipo 2 têm a mesma relação com o carboidrato?
A alimentação saudável tem princípios semelhantes, mas o tratamento do diabetes tipo 1 e do tipo 2 apresenta diferenças importantes. No diabetes tipo 1, existe deficiência na produção de insulina. Para quem utiliza insulina nas refeições, a quantidade de carboidratos pode ser contabilizada para ajudar no ajuste da dose, conforme orientação da equipe de saúde.Isso proporciona maior flexibilidade alimentar. A pessoa não precisa necessariamente excluir pão, arroz ou macarrão, mas precisa aprender a relacionar a quantidade de carboidrato ao tratamento.
No diabetes tipo 2, há resistência à ação da insulina e, ao longo da evolução da doença, também pode ocorrer redução progressiva da produção desse hormônio. Nesse caso, a estratégia nutricional pode envolver adequação da quantidade e da qualidade dos carboidratos, além de outros objetivos, como controle do peso e melhora da saúde metabólica.
A SBD destaca que diferentes abordagens nutricionais podem melhorar o controle glicêmico no diabetes tipo 2 e que a escolha deve levar em consideração as características e necessidades de cada pessoa.
Por isso, mesmo dentro do mesmo diagnóstico, a orientação alimentar pode ser diferente. O que nos leva à principal questão da matéria: afinal, o que deve pesar mais na escolha dos alimentos?
Alimento x quantidade
Uma alimentação equilibrada para quem tem diabetes não depende apenas de escolher entre arroz branco e integral, pão francês e integral ou macarrão tradicional e integral.
Também é necessário observar quanto é consumido, como a refeição é composta e como o organismo responde a ela. Por isso, duas pessoas podem receber orientações diferentes mesmo tendo o mesmo diagnóstico.
A SBD recomenda que a terapia nutricional seja individualizada e adaptada à realidade de cada paciente. Para pessoas com diabetes tipo 2, a entidade também recomenda acompanhamento individualizado com nutricionista quando disponível.
O que é importante entender
Pão, arroz e macarrão não precisam ser automaticamente retirados da alimentação de quem tem diabetes. A quantidade consumida, a composição da refeição, o tipo de diabetes, o tratamento e a resposta individual podem influenciar a glicemia.
Por isso, mais do que excluir alimentos, o cuidado está em encontrar uma rotina alimentar que seja adequada ao cotidiano e às necessidades de cada pessoa.
