Uma mancha mais escura no pescoço, triglicérides acima do esperado no exame de sangue, uma circunferência abdominal que aumentou ao longo dos anos. Isoladamente, nenhuma dessas situações significa que uma pessoa tenha resistência à insulina. Mas, quando aparecem em conjunto, podem indicar que algo está acontecendo no metabolismo.
Nem sempre o organismo dá um aviso claro de que há um problema, e algumas dessas alterações podem aparecer antes de mudanças perceptíveis na glicemia. Por isso, entender o que está por trás delas pode ajudar a reconhecer quando é hora de investigar.
Mas afinal, o que é resistência à insulina?
A resistência à insulina ocorre quando as células do organismo respondem menos à ação desse hormônio. Para compensar, o pâncreas pode aumentar a produção de insulina e, durante algum tempo, a glicose no sangue pode permanecer dentro da faixa considerada normal.
É justamente por isso que o problema pode passar despercebido. A pessoa pode não sentir nada e, ainda assim, apresentar alterações metabólicas que aumentam o risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2. Mesmo sem sintomas específicos, algumas alterações podem servir como pistas de que vale a pena olhar com mais atenção para a saúde metabólica, e um exemplo disso pode aparecer na própria pele.
1. Manchas escuras e pele mais grossa no pescoço
Um dos sinais que mais chama atenção é a acantose nigricans, caracterizada por áreas de pele mais escura, espessada e com aparência aveludada. Ela costuma aparecer no pescoço, nas axilas e em outras dobras do corpo.
A alteração pode estar relacionada ao excesso de insulina circulante. Em pessoas com resistência à insulina, o organismo precisa produzir mais insulina para tentar manter a glicose sob controle. Esse excesso pode estimular alterações nas células da pele.
O Ministério da Saúde inclui a acantose nigricans, caracterizada por manchas escuras na pele com textura grossa e aveludada, entre os fatores de risco associados ao diabetes tipo 2.
Isso não significa, porém, que toda mancha escura seja sinal de resistência à insulina. Existem outras causas para alterações na pele, e a avaliação médica é importante para diferenciar as possibilidades.
2. Pequenas “bolinhas” ou excesso de pele
Outro sinal menos conhecido são os acrocórdons, pequenas formações de pele que geralmente aparecem em regiões de atrito, como pescoço, axilas e virilha.
Eles são comuns e, na maioria das vezes, benignos. No entanto, estudos e revisões médicas descrevem uma associação entre acrocórdons, acantose nigricans e alterações relacionadas à resistência à insulina.
Por isso, a presença de várias dessas lesões, principalmente quando aparece junto de outros fatores metabólicos, pode ser uma informação relevante durante uma consulta. Entretanto, mais uma vez, não se trata de um teste para diagnosticar resistência à insulina. É apenas uma pista que pode levar à investigação de outros fatores de risco.
3. Aumento da gordura abdominal
A concentração de gordura na região abdominal também merece atenção. O tecido adiposo não funciona apenas como um depósito de energia. Quando há excesso de gordura visceral, localizada ao redor dos órgãos, podem ocorrer alterações na liberação de substâncias que participam da regulação do metabolismo.
Esse processo está relacionado à resistência à insulina e pode contribuir para alterações na glicemia, nos triglicerídeos e na pressão arterial.
Por isso, o aumento da circunferência abdominal não deve ser analisado apenas pela questão estética. Ele pode fazer parte de um conjunto de alterações metabólicas associadas ao maior risco de diabetes tipo 2.
A própria Sociedade Brasileira de Diabetes utiliza a circunferência abdominal como um dos componentes considerados na avaliação da síndrome metabólica, juntamente com alterações de triglicerídeos, HDL, pressão arterial e glicemia.
4. Triglicérides altos e HDL baixo
Às vezes, a resistência à insulina não aparece primeiro no resultado da glicemia. Ela pode deixar pistas no perfil de gorduras do sangue. Triglicérides elevados e HDL reduzido podem fazer parte de um padrão metabólico associado à resistência à insulina e à síndrome metabólica.
A SBD cita a hipertrigliceridemia entre as características frequentemente associadas à resistência à insulina no diabetes tipo 2. Isso ajuda a explicar por que olhar apenas para a glicemia pode não ser suficiente para compreender todo o cenário metabólico de uma pessoa.
Um exame alterado, entretanto, não permite concluir sozinho que exista resistência à insulina. Alimentação, consumo de álcool, medicamentos, genética e outras condições também podem influenciar os níveis de triglicerídeos e HDL.
5. Pressão alta ou alterações metabólicas que aparecem juntas
Por fim, outro alerta é quando diferentes alterações começam a aparecer ao mesmo tempo. Pressão arterial elevada, aumento da circunferência abdominal, triglicerídeos altos, HDL baixo e glicemia alterada podem formar um conjunto conhecido como síndrome metabólica.
A resistência à insulina participa desse processo e pode estar presente antes que a pessoa receba um diagnóstico de diabetes. Por isso, quando vários desses fatores aparecem juntos, o mais importante não é procurar um único “sintoma”, mas avaliar o quadro metabólico como um todo.
Como detectar?
Não existe um exame simples que, sozinho, seja utilizado rotineiramente para diagnosticar todos os casos de resistência à insulina.
Na prática clínica, o médico considera o conjunto de informações, como histórico familiar, peso, circunferência abdominal, pressão arterial, presença de acantose nigricans, exames de glicemia e hemoglobina glicada, além de outros marcadores metabólicos quando necessário.
A SBD recomenda a glicemia de jejum e/ou a hemoglobina glicada como primeiros exames para o rastreamento do diabetes tipo 2. Em determinadas situações, outros testes podem complementar a investigação.
Isso é importante porque resistência à insulina e diabetes não são a mesma coisa. Uma pessoa pode apresentar resistência à insulina antes de desenvolver alterações suficientes para receber o diagnóstico de pré-diabetes ou diabetes.
Resistência à insulina x diabetes
A resistência à insulina é um dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento do diabetes tipo 2, mas sua evolução depende de diversos fatores.
Durante algum tempo, o organismo pode compensar a menor resposta à insulina aumentando sua produção. Quando essa compensação deixa de ser suficiente, a glicose pode começar a subir e surgir o pré-diabetes ou, posteriormente, o diabetes tipo 2.
Por isso, identificar fatores de risco precocemente é importante. O pré-diabetes é um sinal de alerta e mudanças de hábitos alimentares e prática de atividade física entre as medidas importantes para reduzir o risco de progressão.
Quando esses sinais merecem atenção?
Na maioria das vezes, a resistência à insulina não provoca um sintoma específico que permita identificar o problema sozinho. Algumas alterações, como a acantose nigricans, podem funcionar como pistas, enquanto outras, como triglicérides elevados, pressão alta e aumento da circunferência abdominal, podem aparecer durante exames ou na avaliação clínica.
O mais importante, portanto, é não interpretar nenhum desses sinais de forma isolada. Quando diferentes fatores aparecem juntos, eles podem indicar a necessidade de uma avaliação mais cuidadosa da saúde metabólica.
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda o rastreamento do diabetes tipo 2 em adultos a partir dos 35 anos e também em pessoas mais jovens com sobrepeso ou obesidade associados a fatores de risco, como hipertensão, alterações de colesterol, síndrome dos ovários policísticos, sedentarismo, acantose nigricans e histórico familiar.
Identificar essas pistas não significa que a pessoa tenha diabetes ou necessariamente desenvolverá a doença. Mas pode ser um motivo para procurar avaliação profissional e entender como está a saúde metabólica.
