Na hora de escolher o leite no supermercado, uma dúvida costuma aparecer entre pessoas com diabetes: vale a pena optar pela versão sem lactose para ajudar no controle da glicose?
Segundo a nutricionista e educadora em diabetes Tarcila Campos, a resposta é não. Embora muitas pessoas associem o leite sem lactose a uma redução do açúcar, isso não acontece na prática.

Leite sem lactose continua tendo lactose
De acordo com Tarcila Campos, o leite sem lactose não deixa de conter o açúcar natural do leite.
“O leite tem lactose, que é o açúcar do leite. Mesmo quando ele é vendido como sem lactose, ele continua tendo lactose”, explica.
A diferença está no processo industrial. A indústria adiciona uma enzima que ajuda na digestão da lactose. Portanto, o produto continua contendo os mesmos carboidratos presentes no leite tradicional.
Nesse contexto, escolher o leite sem lactose não significa consumir menos açúcar ou reduzir automaticamente o impacto na glicemia.
O leite sem lactose aumenta menos a glicose?
Segundo a especialista, não existe uma vantagem específica do leite sem lactose para o controle glicêmico apenas por ele receber essa classificação.
Muitas pessoas acreditam que o produto retira o açúcar do leite. No entanto, a lactose continua presente. O que muda é a forma como o organismo consegue digeri-la.
Por isso, a escolha pelo leite sem lactose deve acontecer principalmente em casos de intolerância à lactose e não como estratégia para controlar o diabetes.
O que realmente muda entre os tipos de leite?
Ao comparar leite integral, semidesnatado e desnatado, a principal diferença está na quantidade de gordura.
Segundo Tarcila Campos, os três mantêm quantidades semelhantes de carboidratos e proteínas. Além disso, continuam fornecendo nutrientes importantes, como cálcio e vitamina D.
“Eu não estou mexendo nem em quantidade de carboidrato e nem em quantidade de proteína. O que muda principalmente é a quantidade de gordura”, afirma.

A gordura do leite pode influenciar a glicemia
Embora a lactose seja o carboidrato presente no leite, a gordura também exerce influência sobre o comportamento da glicose.
Segundo a nutricionista, alimentos com maior teor de gordura podem provocar uma elevação mais tardia da glicemia. Além disso, esse aumento pode permanecer por mais tempo.
Esse efeito costuma aparecer em situações comuns da rotina, como o consumo de leite integral antes de dormir.
Muitas famílias observam dificuldades no controle glicêmico noturno após o consumo de leite mais gorduroso. No entanto, a especialista ressalta que é importante avaliar todo o contexto da refeição.
Achocolatados, mingaus, farinhas industrializadas e outros acompanhamentos também podem contribuir para alterações na glicose.
Existe um melhor leite para quem tem diabetes?
Segundo Tarcila Campos, não existe uma resposta única. A escolha depende dos objetivos de cada pessoa, da presença de outras condições de saúde e da estratégia alimentar definida com a equipe de acompanhamento.
Ainda assim, ela explica que o leite integral pode gerar mais desafios para algumas pessoas devido ao efeito da gordura sobre a glicemia.
Por outro lado, versões com menor teor de gordura costumam ser consideradas em situações que envolvem controle de peso, colesterol elevado ou síndrome metabólica.
Entre o leite desnatado e o semidesnatado, o semidesnatado costuma apresentar maior aceitação pelo sabor, segundo a nutricionista.
Leite faz mal para quem tem diabetes?
Outra dúvida frequente envolve a ideia de que o leite seria inflamatório ou poderia causar diabetes.
Segundo Tarcila Campos, as evidências científicas disponíveis não sustentam essa relação.
“Eu não tenho nenhum estudo que me fale que uma pessoa com diabetes precise retirar o leite da alimentação por esse motivo”, afirma.
Além disso, ela destaca que pesquisas apontam benefícios relacionados ao consumo de leite e derivados, especialmente iogurtes, dentro de uma alimentação equilibrada.
Os produtos lácteos fornecem proteínas, cálcio e vitamina D. Segundo a especialista, esses nutrientes participam de funções importantes do organismo, incluindo processos relacionados ao funcionamento da insulina.
Quantidade e contexto continuam sendo os fatores mais importantes
Para a nutricionista, a principal recomendação não está na exclusão do leite, mas na adequação do consumo.
A quantidade ingerida, a composição da refeição, os objetivos individuais e o tratamento adotado influenciam mais do que a simples escolha entre leite tradicional ou sem lactose.
Por isso, pessoas com diabetes que gostam de leite podem incluir o alimento na alimentação, desde que ele faça parte de um planejamento alimentar individualizado.