A memória pode ser afetada pelo diabetes? Esquecer se já aplicou a insulina, perder o fio da conversa ou demorar para lembrar uma palavra são situações que podem levantar essa dúvida em quem convive com a doença.
Segundo Taki Cordás, coordenador do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), o diabetes pode aumentar o risco de declínio cognitivo. Esse processo envolve alterações nos vasos sanguíneos, resistência à insulina no cérebro, inflamação e episódios graves de hipoglicemia.
Como o diabetes pode afetar o cérebro?
A hiperglicemia mantida pode alterar proteínas presentes nas paredes dos vasos sanguíneos. Esse processo modifica estruturas como colágeno e elastina e pode comprometer a barreira hematoencefálica, responsável por proteger o cérebro.
Com o tempo, podem surgir alterações nos pequenos vasos, chamadas de microangiopatia. A hiperglicemia também pode favorecer a aterosclerose na carótida.
Essas alterações podem reduzir a circulação sanguínea em diferentes regiões do organismo, inclusive no cérebro. Dessa forma, o diabetes pode aumentar o risco de declínio cognitivo.
O que acontece com a memória?
O hipocampo participa dos processos relacionados à memória. Segundo Taki Cordás, existem evidências de redução dessa estrutura em pessoas com diabetes mal controlado, principalmente no diabetes tipo 2.
Esse processo pode envolver diferentes mecanismos, como isquemia crônica leve, resistência à insulina no cérebro, estresse oxidativo e inflamação cerebral.
Ao longo dos anos, a combinação desses fatores pode contribuir para lesões e redução do hipocampo.
Por que a insulina também importa para o cérebro?
O cérebro não depende diretamente da insulina para captar glicose. No entanto, o hormônio participa de funções importantes no sistema nervoso.
A insulina ajuda a regular a plasticidade dos neurônios, participa da formação da memória e interfere na liberação de neurotransmissores, como glutamato e GABA.
Além disso, o hormônio participa do metabolismo energético. Quando ocorre resistência à insulina no cérebro, essas funções podem ser prejudicadas.
Mesmo com glicose disponível no sangue, os neurônios podem apresentar dificuldade para aproveitar essa energia de forma eficiente.
Inflamação também pode atingir o cérebro
O diabetes está associado a um processo inflamatório de baixo e médio grau. Segundo o especialista, esse processo aumenta a produção de citocinas inflamatórias.
Essas moléculas podem atravessar a barreira hematoencefálica e chegar ao sistema nervoso central. No cérebro, elas ativam células como micróglia e astrócitos.
Essa ativação pode gerar neuroinflamação crônica e aumentar o estresse oxidativo. Nesse contexto, o processo também pode contribuir para o aumento do risco de Alzheimer.
Diabetes tipo 2 aumenta o risco de Alzheimer?
Do ponto de vista epidemiológico, o diabetes tipo 2 está associado a um risco maior de doença de Alzheimer e de demência mista, que também apresenta componente vascular.
Segundo Taki Cordás, essa relação envolve diferentes mecanismos. Entre eles estão resistência à insulina no sistema nervoso central, glicotoxicidade, doença vascular, inflamação e depósito de substância amiloide, característica encontrada no Alzheimer.
“Há um consenso, sim, de que diabetes mellitus tipo 2 é um fator de risco muito forte para o desenvolvimento de Alzheimer.” Taki Cordás, coordenador do Departamento de Saúde Mental da SBD
Hipoglicemia também pode prejudicar o cérebro?
A glicemia baixa também exige atenção. Episódios graves, repetidos e prolongados de hipoglicemia podem aumentar o risco de declínio cognitivo.
Esse risco é maior entre pessoas idosas e aquelas que já apresentam doença cerebrovascular.
Como os neurônios dependem fortemente de glicose, episódios prolongados de hipoglicemia podem causar sofrimento e morte neuronal no hipocampo e no córtex.
Segundo o especialista, a preocupação aumenta em pessoas com mais de 70 anos, algum grau de declínio cognitivo, histórico de AVC ou uso de insulina.
Diabetes tipo 1 e tipo 2 afetam o cérebro da mesma forma?
Os dois tipos de diabetes estão associados ao risco de comprometimento cognitivo, mas os mecanismos envolvidos são diferentes.
No diabetes tipo 1, o risco está mais relacionado à alternância entre episódios de hipoglicemia e hiperglicemia ao longo da vida.
Já no diabetes tipo 2, ganham importância a resistência à insulina, a inflamação crônica e as alterações vasculares.
Quando o declínio cognitivo pode atrapalhar o tratamento?
Diabetes e declínio cognitivo também podem influenciar um ao outro. Segundo Taki Cordás, o diabetes pode prejudicar a função cognitiva e dificultar a adesão ao tratamento.
Por outro lado, o declínio cognitivo e a demência podem dificultar o controle da glicemia e o uso correto dos medicamentos.
Esse cenário pode favorecer novos problemas no controle do diabetes e, em alguns casos, quadros de delírio.
Do ponto de vista biológico, o diabetes tipo 2 também pode favorecer processos de neurodegeneração. Esse processo pode alterar controles hipotalâmicos relacionados ao metabolismo.
Por isso, a relação entre diabetes e declínio cognitivo não ocorre em apenas uma direção. As duas condições podem interferir uma na outra ao longo do tempo.
