Uma pesquisa publicada na The Journal of Clinical Investigation aponta um possível novo caminho para entender o diabetes tipo 1. O estudo mostra que a leptina, quando administrada diretamente no cérebro de animais, normalizou a glicose e eliminou as cetonas sem uso de insulina.
A descoberta pode ajudar pesquisadores a investigar o papel do cérebro no diabetes tipo 1 descontrolado. No entanto, os resultados ainda vêm de modelos animais e precisam ser avaliados em humanos.
O endocrinologista e pesquisador Irl Hirsch afirmou, em entrevista publicada nas redes sociais pela Rachael Sood, que espera obter autorização da FDA para iniciar um estudo clínico em pessoas com diabetes tipo 1. Segundo ele, isso poderia ocorrer no início de 2027.
O que a leptina tem a ver com diabetes tipo 1?
A leptina é um hormônio produzido pelas células de gordura. Ela ajuda o cérebro a identificar se o organismo tem energia suficiente disponível.
Quando a quantidade de leptina cai, o cérebro interpreta esse sinal como falta de combustível. Como resposta, ele aumenta mecanismos que fazem o organismo liberar energia armazenada.
Esse processo envolve a liberação de substâncias que aumentam a produção de glicose pelo fígado. Além disso, o organismo passa a produzir mais cetonas e a liberar gordura armazenada.
Em condições normais, a insulina ajuda a controlar esse processo. No diabetes tipo 1, porém, o organismo deixa de produzir insulina em quantidade suficiente.
Nesse contexto, os pesquisadores afirmam que a falta de insulina também reduz os níveis de leptina. O cérebro passa a interpretar a situação como uma falta de energia, mesmo quando existe combustível disponível no organismo.
Como o cérebro pode aumentar a glicose?
Segundo os pesquisadores, o cérebro participa do controle da quantidade de combustível disponível no sangue.
Durante o jejum, por exemplo, o organismo precisa liberar energia para manter o funcionamento das células. O cérebro ajuda a coordenar essa resposta.
Ele envia sinais para órgãos como fígado, tecido adiposo e pâncreas. Esses sinais estimulam a produção de glicose, a formação de cetonas e a liberação de gordura armazenada.
No diabetes tipo 1 sem controle, a falta de insulina retira parte desse mecanismo de controle. Ao mesmo tempo, a queda da leptina informa ao cérebro que as reservas de energia estariam ameaçadas.
Portanto, os pesquisadores descrevem uma situação semelhante a acelerar a liberação de combustível sem o freio exercido pela insulina.
Por que isso pode levar à cetoacidose diabética?
A cetoacidose diabética, conhecida como CAD, acontece quando o organismo produz muitas cetonas e o sangue fica mais ácido.
No diabetes tipo 1 sem insulina suficiente, o fígado aumenta a produção de glicose e cetonas. Ao mesmo tempo, o tecido adiposo libera mais gordura para ser usada como fonte de energia.
Com a glicose muito elevada, o corpo elimina mais água pela urina. Isso provoca desidratação e reduz o volume de sangue circulante.
A desidratação também dificulta a eliminação da glicose pelos rins. Como resultado, a glicose pode subir ainda mais.
Enquanto isso, o fígado continua produzindo cetonas. A presença crescente dessas substâncias aumenta a acidez do sangue.
Segundo o estudo, o próprio estresse causado pela desidratação e pela acidose pode estimular respostas que aumentam ainda mais a produção de glicose, cetonas e gordura.
Esse processo cria um ciclo que pode agravar a cetoacidose diabética.
O que aconteceu quando os pesquisadores deram leptina aos animais?
Os pesquisadores já haviam observado esse efeito em estudos realizados em roedores com diabetes tipo 1 não controlado.
Segundo o artigo, a administração de leptina diretamente no cérebro conseguiu reverter a hiperglicemia e a cetoacidose diabética nos animais.
A glicose e as cetonas voltaram para níveis considerados normais. O resultado ocorreu apesar da deficiência grave e contínua de insulina.
A pesquisa também envolveu porcos com diabetes. Na entrevista, Hirsch afirmou que a administração de leptina diretamente no cérebro levou à normalização da glicose e ao desaparecimento das cetonas.
Segundo o pesquisador, os níveis de glicose permaneceram estáveis nos animais estudados. Ele também afirmou que isso ocorreu sem administração de insulina.
No entanto, o próprio Hirsch explicou que os porcos não apresentavam um quadro completo de diabetes tipo 1 como os camundongos e ratos usados nos experimentos.
Por que a leptina precisa chegar ao cérebro?
A pesquisa não indica que simplesmente aplicar leptina por uma injeção comum resolveria o problema.
Os pesquisadores explicam que os receptores da leptina ficam no cérebro. Por isso, a leptina administrada no organismo não necessariamente consegue chegar ao local necessário para produzir o efeito observado nos experimentos.
O estudo também mostrou que apenas restaurar os níveis normais de leptina no sangue não foi suficiente para normalizar a glicose nos roedores com diabetes descontrolado.
Esse dado é importante porque diferencia a reposição de leptina no organismo da ação da leptina diretamente no cérebro.
Segundo os pesquisadores, o efeito observado depende de uma ação da leptina no cérebro capaz de interromper a resposta de mobilização de combustível provocada pela falta de insulina.
O que os pesquisadores pretendem testar em humanos?
A próxima etapa seria verificar se o mesmo mecanismo pode funcionar em pessoas com diabetes tipo 1.
Na entrevista, Hirsch afirmou que espera obter autorização da FDA para realizar o estudo. Segundo ele, a expectativa é iniciar a pesquisa, no máximo, no começo de 2027.
A proposta seria administrar leptina diretamente no cérebro de pessoas com diabetes tipo 1 que não produzem insulina.
Hirsch afirmou que os pesquisadores esperam observar, entre o terceiro e o quarto dia, a possibilidade de suspender a insulina dos participantes.
Essa possibilidade ainda representa uma hipótese de pesquisa. Os resultados observados em animais não comprovam que o tratamento terá o mesmo efeito em seres humanos.
Isso significa uma cura para o diabetes tipo 1?
Não. O próprio Hirsch evita chamar a estratégia de cura.
Segundo o pesquisador, mesmo que o tratamento funcione nos testes, a intervenção utilizada na pesquisa não seria um produto comercial.
A proposta atual representa uma primeira etapa para testar se o mecanismo observado em animais também pode ocorrer em humanos.
Caso os resultados se confirmem, ainda seria necessário desenvolver uma forma de levar a leptina até o cérebro de maneira adequada para uso em pessoas.
Hirsch citou possibilidades como injeção, comprimido, infusão ou terapia genética. Essas alternativas, porém, fazem parte de possibilidades futuras e não de um tratamento disponível.
O que a pesquisa já sabe sobre a leptina?
A leptina foi descoberta em 1994 e passou a ser estudada por seu papel na regulação do peso corporal.
Segundo Hirsch, pessoas com diabetes tipo 1 apresentam deficiência de leptina. Ele relaciona essa condição à deficiência de insulina presente na doença.
O pesquisador diferencia essa situação do diabetes tipo 2. Segundo ele, no tipo 2 existe resistência à insulina e também resistência à leptina.
No diabetes tipo 1, a falta de insulina reduz os níveis de leptina. Com menos leptina, o cérebro recebe um sinal de que o organismo não teria energia suficiente.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que a pesquisa passou a investigar o cérebro como parte do processo que leva à hiperglicemia e à cetoacidose diabética.
Onde a leptina atua dentro do cérebro?
O estudo descreve regiões do cérebro envolvidas no controle da mobilização de energia.
Uma delas é o núcleo parabraquial, uma região localizada no tronco encefálico. Outra é o núcleo ventromedial, uma área relacionada ao controle do metabolismo.
Nos experimentos com roedores, os pesquisadores identificaram efeitos diferentes conforme o local de ação da leptina.
A ação da leptina em uma dessas regiões foi suficiente para normalizar o glucagon e reduzir a produção de cetonas. No entanto, esse efeito teve pouco impacto sobre a glicose.
Em outra região, pequenas quantidades de leptina foram capazes de reverter grande parte das alterações causadas pela deficiência grave de insulina.
Os pesquisadores ainda investigam quais células nervosas participam desse processo.
O que falta descobrir antes de pensar em tratamento?
A principal questão é saber se o efeito observado em animais também acontece em seres humanos.
Além disso, os pesquisadores precisam encontrar uma forma segura e viável de fazer a leptina chegar ao cérebro.
O próprio estudo afirma que estratégias para levar medicamentos através da barreira que separa o sangue do cérebro podem tornar essa abordagem possível no futuro.
Ainda assim, essa possibilidade depende de novos estudos.
Por enquanto, os resultados apresentados mostram um mecanismo observado em animais e uma hipótese que os pesquisadores querem testar em pessoas com diabetes tipo 1.
