Você termina de comer a lasanha do almoço e a glicose parece tranquila. Uma hora passa. Depois, duas. Mais tarde, a curva começa a subir.
Esse comportamento pode aparecer depois de refeições que combinam carboidratos com quantidades maiores de gordura e proteína. A lasanha é um exemplo porque reúne massa, queijo, carne, molho e, dependendo da receita, outros ingredientes que aumentam o teor de gordura.
Por isso, olhar apenas para a glicemia logo depois da refeição pode não mostrar toda a resposta do organismo.
A primeira hora não conta toda a história
A massa da lasanha fornece carboidratos, que têm papel importante na elevação da glicose após a refeição.
Mas o prato não é composto apenas pela massa.
Queijo, carne, molhos e outros ingredientes acrescentam proteínas e gorduras. A presença desses nutrientes pode modificar o ritmo da digestão e retardar o aparecimento de parte da glicose na circulação.
A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes para diabetes tipo 1 descreve que a gordura pode reduzir a resposta glicêmica nas primeiras duas a três horas, atrasar o pico de glicose e aumentar o risco de hiperglicemia tardia a partir de três a cinco horas. A resposta, porém, é individual.
É uma possível explicação para aquela curva que parecia tranquila e começa a subir mais tarde.
O recheio também entra nessa conta
Nem toda lasanha tem a mesma composição.
Uma receita com molho de tomate, carne e uma quantidade moderada de queijo é diferente de outra feita com molho branco, vários tipos de queijo, creme e embutidos.
A quantidade consumida também muda a história.
Quanto maior a porção, maior tende a ser a quantidade total de carboidratos, além de outros nutrientes presentes na receita.
Por isso, não existe uma resposta única para a pergunta “quanto a lasanha vai subir minha glicose?”.
A receita, a porção, o tratamento e a resposta individual precisam ser considerados.
A gordura não apaga o carboidrato
Esse é um ponto importante.
Quando uma refeição é rica em gordura, pode acontecer de a glicose subir mais lentamente no início. Isso não significa que os carboidratos da massa deixaram de existir.
A diretriz da SBD destaca que o carboidrato é o nutriente com maior influência na variabilidade glicêmica após as refeições, mas gordura e proteína também podem afetar esse perfil.
Na prática, uma refeição com muita gordura pode apresentar uma curva diferente daquela observada após o consumo de uma quantidade semelhante de carboidratos em uma refeição com menor teor de gordura.
Uma fatia não é igual a três
O tamanho da porção é outro ponto que pode passar despercebido.
Uma fatia pequena de lasanha e um prato cheio com duas ou três porções representam quantidades muito diferentes de massa, queijo e recheio.
Para quem tem diabetes, esse aspecto é especialmente importante porque a quantidade de carboidratos consumida em cada refeição precisa ser considerada dentro do planejamento alimentar.
A SBD recomenda individualizar a quantidade de carboidratos e, no diabetes tipo 1, utiliza a contagem de carboidratos como uma das estratégias para o manejo da alimentação.
E trocar pela massa integral?
Pode aumentar a quantidade de fibras da preparação, dependendo do produto escolhido.
A SBD recomenda priorizar alimentos minimamente processados e fontes de carboidratos ricas em fibras. No diabetes tipo 2, a entidade recomenda pelo menos 25 gramas de fibras por dia para adultos, dentro de uma alimentação individualizada.
Mas a troca da massa não transforma sozinha a receita.
Uma lasanha integral ainda pode levar bastante queijo, creme, molho branco e outros ingredientes ricos em gordura.
A qualidade da massa é apenas uma parte da composição.
O sensor pode mostrar a elevação mais tarde
Para quem usa monitorização contínua da glicose, uma refeição como a lasanha pode revelar uma curva diferente daquela esperada.
Em vez de uma elevação concentrada logo depois de comer, pode haver uma resposta mais prolongada, especialmente quando a refeição contém bastante gordura.
Esse comportamento não significa que toda pessoa terá o mesmo resultado.
Também não deve ser usado como motivo para alterar doses de insulina por conta própria.
A SBD destaca que a resposta à gordura e à proteína é individual e que não existe uma fórmula única que possa ser aplicada de maneira automática a todas as pessoas.
O acompanhamento das curvas pode, entretanto, fornecer informações úteis para serem discutidas com a equipe de saúde.
O que muda quando a receita é mais simples?
A composição da lasanha pode ser modificada sem transformar o prato em outra comida.
É possível controlar a quantidade de queijo, escolher um molho com menos gordura, usar uma porção adequada de massa e incluir vegetais na refeição.
Isso não elimina os carboidratos nem garante uma resposta glicêmica específica.
A ideia é apenas tornar a refeição mais compatível com uma alimentação equilibrada e com as necessidades de cada pessoa.
A glicose depois da refeição também depende do contexto
A resposta não depende apenas da lasanha.
Atividade física, horário da refeição, quantidade consumida, tratamento, níveis de glicose antes de comer e diversos outros fatores também podem interferir na curva.
É por isso que duas pessoas podem comer pratos semelhantes e apresentar respostas diferentes.
Até a mesma pessoa pode perceber comportamentos diferentes em ocasiões distintas.
O que a lasanha ensina sobre glicemia
A principal questão não é decidir se lasanha é um alimento permitido ou proibido.
É entender que uma refeição pode ter efeitos que aparecem em momentos diferentes.
A massa fornece carboidratos. A gordura e a proteína podem modificar o ritmo da resposta. A quantidade consumida interfere na carga total da refeição. E cada organismo responde de uma maneira.
Por isso, aquela glicemia aparentemente tranquila logo depois do jantar não necessariamente encerra a história.
Em refeições como a lasanha, acompanhar o que acontece algumas horas depois pode revelar uma parte da resposta glicêmica que não aparece no primeiro olhar.
