Quando o assunto é diabetes, muitas pessoas aprendem rapidamente que os carboidratos têm impacto direto na glicose. A partir disso, surge uma dúvida comum: se um alimento não tem carboidrato, ele pode ser consumido sem preocupação? A resposta é não.
Durante participação no DiabetesCast, a endocrinologista Denise Franco e a nutricionista Juliana Baptista explicaram por que alimentos como linguiça, bacon, carnes e queijos merecem atenção mesmo quando apresentam pouco ou nenhum carboidrato.
Diabetes não depende apenas da contagem de carboidratos
A contagem de carboidratos se tornou uma das principais estratégias para pessoas que utilizam insulina. A técnica consiste em calcular a quantidade de carboidratos consumidos para ajustar a dose de insulina da refeição.
Segundo Juliana Baptista, essa estratégia trouxe mais flexibilidade para o tratamento. Além disso, ajuda a reduzir episódios de hipoglicemia e hiperglicemia, já que a dose de insulina pode acompanhar a quantidade de alimento consumida.
No entanto, Denise Franco alerta que olhar apenas para os carboidratos pode levar a uma interpretação incompleta da alimentação.
Linguiça tem pouca quantidade de carboidrato, mas concentra gordura
Durante o episódio, Juliana Baptista citou a linguiça como exemplo de alimento frequentemente associado à ideia de “liberado” para quem tem diabetes.
Segundo a nutricionista, a linguiça praticamente não entra na contagem de carboidratos. Ainda assim, ela contém quantidades importantes de gordura.
“Não adianta comer um monte de linguiça todo dia porque ela não tem carboidrato”, explicou a especialista durante a conversa.
Nesse contexto, o problema não está apenas na glicose imediata, mas também na quantidade de calorias consumidas ao longo do tempo.
Calorias e carboidratos não são a mesma coisa
Uma das confusões mais comuns entre pessoas com diabetes é acreditar que controlar carboidratos significa automaticamente controlar calorias.
Juliana Baptista explica que são conceitos diferentes. Enquanto o carboidrato influencia diretamente a glicose, as calorias representam a soma da energia proveniente de carboidratos, proteínas, gorduras e álcool.
Segundo a nutricionista, cada grama de carboidrato fornece quatro calorias. A proteína também fornece quatro calorias por grama. Já a gordura fornece nove calorias por grama, mais do que o dobro.
Por isso, alimentos ricos em gordura podem contribuir para o ganho de peso mesmo sem apresentar grandes quantidades de carboidratos.
Ganho de peso pode aumentar a necessidade de insulina
Para Denise Franco, avaliar apenas a glicemia não é suficiente para analisar o tratamento.
A endocrinologista explica que uma pessoa pode melhorar os números da glicose e, ao mesmo tempo, ganhar peso. Nesse cenário, o aumento do peso corporal pode exigir mais insulina para manter o mesmo controle.
Além disso, o ganho de peso pode favorecer resistência à insulina e aumentar fatores relacionados ao risco cardiovascular.
“Se eu melhorei a glicemia, mas ganhei peso, preciso entender o que está acontecendo na alimentação”, destacou a médica.
Proteína e gordura também podem elevar a glicose
Outro ponto abordado pelas especialistas foi o impacto tardio de proteínas e gorduras.
Muitas pessoas acreditam que apenas os carboidratos influenciam a glicose. No entanto, Denise Franco explica que refeições muito ricas em proteína e gordura também podem provocar aumento da glicemia horas depois da refeição.
Segundo a endocrinologista, esse efeito costuma aparecer entre quatro e cinco horas após a ingestão. Por isso, algumas pessoas observam elevação da glicose sem conseguir identificar a causa imediatamente.
Nesse contexto, o problema nem sempre está na insulina basal. Em muitos casos, a explicação está na composição da refeição consumida anteriormente.
Um ingrediente escondido pode mudar a glicose
Durante o episódio, Juliana Baptista relatou o caso de uma paciente que apresentava picos glicêmicos recorrentes durante a tarde.
Inicialmente, ninguém conseguia identificar a causa das alterações. Depois de investigar os hábitos da família, a nutricionista descobriu que o feijão era preparado com bacon.
Segundo ela, a simples mudança na forma de preparo ajudou a reduzir as elevações glicêmicas observadas horas depois das refeições.
O caso ilustra como ingredientes ricos em gordura podem influenciar o comportamento da glicose mesmo sem alterar significativamente a contagem de carboidratos.
Alimentação equilibrada continua sendo o foco
As especialistas reforçam que a alimentação para quem tem diabetes não deve ser baseada apenas na exclusão de carboidratos.
Segundo Juliana Baptista, proteínas têm papel importante na manutenção da massa muscular, na cicatrização e em diversas funções do organismo. Além disso, verduras, legumes e alimentos ricos em fibras contribuem para o funcionamento intestinal e fornecem vitaminas e minerais.
Enquanto isso, Denise Franco destaca que a alimentação é um dos pilares do tratamento do diabetes, independentemente do tipo da doença.
Por esse motivo, a escolha dos alimentos deve considerar não apenas a glicose do momento, mas também peso corporal, necessidade de insulina e saúde cardiovascular.
