Encontrar personagens com os quais nos identificamos pode tornar uma história ainda mais especial. Mas, para quem convive com diabetes tipo 1, nem sempre é fácil encontrar livros em que a condição apareça de maneira natural, sem estereótipos.
Foi com essa proposta que a escritora Laura Amorim criou Nina, uma das protagonistas do romance Você Já Devia Saber. Na história, a jovem convive com diabetes tipo 1, precisa lidar com os cuidados diários do tratamento, mas também tem sonhos, inseguranças profissionais e a oportunidade de viver um grande amor.
Em entrevista ao Portal Um Diabético, a autora contou como surgiu a ideia, o processo de pesquisa e a participação de duas de suas leitoras, que convivem com diabetes tipo 1, na construção da personagem.
Como nasceu a personagem Nina?
A ideia surgiu durante o desenvolvimento dos protagonistas. Laura queria que Nina fosse uma mulher segura em relação aos cuidados com a saúde, mas que enfrentasse inseguranças em outras áreas da vida, especialmente na realização de seus sonhos profissionais.
“Eu queria trazer ela com algum desafio relacionado à saúde e que, frente a esse desafio, ela fosse uma pessoa muito forte, muito bem resolvida”, contou.
Ao pesquisar diferentes condições, Laura conheceu mais sobre o diabetes tipo 1. Como não convivia diretamente com pessoas que tinham a condição, começou a assistir a vídeos sobre tratamento, alimentação e situações cotidianas.
Entre os conteúdos encontrados estavam os vídeos do canal Um Diabético, no YouTube, além de materiais produzidos por outros criadores.
A escritora percebeu que muitas informações que circulam sobre diabetes não correspondem à realidade, como a ideia equivocada de que o diabetes tipo 1 é causado pelo consumo excessivo de doces.
Essa descoberta influenciou a construção da história. Cristiano, o outro protagonista, inicialmente sabe pouco sobre diabetes, permitindo que o leitor conheça essa realidade junto com ele.
Uma pesquisa que foi além da internet
Para retratar o diabetes tipo 1 com responsabilidade, Laura procurou compreender tanto os aspectos médicos quanto as experiências de quem convive com a condição.
Depois de assistir a vídeos sobre aplicação de insulina e monitoramento da glicose, conversou com um médico para esclarecer dúvidas técnicas.
Em seguida, recorreu às próprias redes sociais para encontrar pessoas com diabetes tipo 1 que gostassem de romances. Foi assim que conheceu duas seguidoras, que já acompanhavam seu trabalho, e aceitaram compartilhar suas experiências.
Durante uma conversa por videochamada, as duas leitoras falaram sobre situações comuns, como calcular a insulina ao comer fora de casa, lidar com refeições inesperadas e administrar os cuidados durante festas e encontros sociais.
“Teve várias vezes que realmente eu me atentei para detalhes que eu não tinha pensado”, contou a autora sobre a colaboração das duas mulheres.
Elas também participaram da leitura do manuscrito, identificando situações em que se reconheceram e apontando detalhes que precisavam de ajustes. O médico consultado também leu a obra antes da publicação.
Uma das descobertas que mais surpreenderam Laura foi perceber a atenção constante exigida pelo diabetes, mesmo quando a pessoa já está habituada ao tratamento. Para ela, compreender essa carga mental foi essencial para construir uma personagem mais próxima da realidade.
Como mostrar o diabetes sem transformar o romance em um manual?
Um dos maiores desafios da escrita foi encontrar equilíbrio entre representar os cuidados necessários e manter o ritmo da narrativa.
Laura não queria que Nina aparecesse apenas medindo a glicose ou aplicando insulina. Ao mesmo tempo, sabia que ignorar essas situações tornaria a personagem pouco realista.
“Eu tentei encaixar o diabetes da forma mais natural possível na história. Eu não queria que fosse uma cartilha de diabetes ou que parecesse algo maçante, sabe?”
Por isso, os cuidados aparecem em momentos comuns, como refeições, encontros e situações inesperadas.
O relacionamento entre Nina e Cristiano também contribui para apresentar essa realidade. Ao longo da história, o personagem passa a compreender melhor o diabetes tipo 1 e a importância de oferecer apoio em situações que exigem atenção.
A autora explica que procurou incluir esses momentos de maneira natural, sem transformar Nina em uma personagem dependente dos cuidados de outras pessoas.
Assim, o diabetes faz parte da narrativa e das relações entre os protagonistas, mas não ocupa o centro de todos os acontecimentos.
Representatividade vai além do diagnóstico
Durante a preparação do livro, Laura percebeu que ainda encontrava poucas personagens com diabetes tipo 1 na literatura. Em uma das obras que leu, a condição aparecia, mas os cuidados cotidianos eram pouco explorados.
Essa ausência reforçou sua vontade de construir uma protagonista que pudesse despertar identificação em leitores com diabetes.
“Eu queria colocar o diabetes como um aspecto da vida da menina, mas não como o protagonista da história, sabe?”
Para a autora, representar pessoas com diabetes também significa mostrar que elas têm interesses, relacionamentos, conflitos e objetivos que não estão necessariamente ligados à condição.
Nina, por exemplo, já sabe lidar com o tratamento e não associa suas inseguranças profissionais ao diabetes. Seus maiores medos estão relacionados à possibilidade de fracassar e não conseguir trabalhar com aquilo que ama.
Laura espera que pessoas com diabetes reconheçam pequenas situações de suas próprias vidas na personagem e encontrem na leitura uma sensação de acolhimento.
“Só de você se identificar com um ponto específico, eu acho que sempre traz aquela sensação de abraço, de estar sendo visto.”
Para quem não convive com a condição, a expectativa é ampliar o conhecimento e incentivar a empatia, ajudando a reduzir comentários inadequados e julgamentos sobre alimentação e tratamento.
A escritora acredita que, mesmo alcançando um público limitado, a história pode contribuir para uma compreensão mais respeitosa sobre a rotina de pessoas com diabetes tipo 1.
Uma história sobre sonhos, amor e felicidade
Embora o diabetes tipo 1 faça parte da construção de Nina, a principal mensagem do romance vai além da condição.
Ao longo da história, os dois protagonistas enfrentam inseguranças que dificultam a busca pela felicidade. Cristiano carrega sentimentos de culpa por acontecimentos do passado, enquanto Nina teme não conseguir realizar seus sonhos profissionais, especialmente aqueles ligados à escrita, à criatividade e à música.
Laura explica que fez questão de não relacionar os medos da protagonista ao diabetes. O desafio de Nina é reconhecer o próprio talento e superar o medo de não ser suficiente.
Ao ser convidada a resumir a mensagem que gostaria de transmitir aos leitores, a escritora escolheu uma frase:
“Você merece ser feliz.”
Para a autora, essa ideia representa o caminho dos personagens, que precisam aprender a reconhecer seu valor e compreender que merecem realizar sonhos, amar e construir uma vida feliz.
Conheça o livro Você Já Devia Saber
Para quem gosta de romances com personagens que enfrentam desafios reais, Você Já Devia Saber, de Laura Amorim, é uma indicação de leitura que une amor, conflitos pessoais e representatividade.
A obra pode ser especialmente significativa para pessoas com diabetes tipo 1 que desejam encontrar personagens com experiências semelhantes às suas. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade para outros leitores conhecerem situações que fazem parte dessa rotina, sem deixar de acompanhar uma história de amor.
O livro está disponível na Amazon, em formato digital, e pode ser encontrado neste link.
Ao contar a trajetória de Nina e Cristiano, Laura deixa uma mensagem que pode alcançar diferentes leitores: os desafios fazem parte da vida, mas não precisam impedir ninguém de buscar seus sonhos, construir relacionamentos e encontrar a própria felicidade.
