Uma criança com diabetes tipo 1 pode participar normalmente das aulas de educação física? O que o professor deve fazer se a glicose cair durante uma atividade? E como agir diante de uma emergência? Essas são situações que podem surgir no ambiente escolar e mostram a importância de preparar os profissionais da educação para receber alunos com a condição.
Pensando nisso, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) disponibiliza o projeto Diabetes & Sala de Aula, uma iniciativa gratuita que oferece capacitação para professores e outros profissionais das escolas. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre o diabetes tipo 1 e contribuir para que crianças e adolescentes participem das atividades escolares com mais segurança e inclusão.
O assunto foi abordado durante o ISPAD 2026, congresso internacional realizado no Rio de Janeiro, em uma conversa entre o jornalista Tom Bueno, do Portal Um Diabético, e a endocrinologista pediátrica Jesselina Haber, que explicou como funciona a iniciativa e a importância da preparação dos educadores.
Professores podem aprender sobre diabetes gratuitamente
O projeto foi desenvolvido para oferecer orientações práticas aos profissionais que convivem diariamente com crianças e adolescentes nas escolas, mesmo que não tenham conhecimentos prévios na área da saúde.
Segundo Jesselina Haber, o conteúdo é apresentado em vídeos curtos, com linguagem simples e acessível, abordando situações que podem acontecer durante as aulas, no recreio ou em atividades fora da escola.
“Um professor, ele pode entrar, se cadastrar, e ele vai assistir pequenos vídeos, curtos, rápidos, em que vai informar numa linguagem clara e acessível o que é uma hipoglicemia, o que fazer em dia de festa, o que fazer numa excursão”, explicou a médica.
A capacitação também apresenta orientações sobre o que fazer quando a glicose sobe, os diferentes tipos de insulina e como reconhecer situações que exigem atendimento imediato.
“São coisas rápidas e que são possíveis de acontecer na escola e que é importante que esse profissional que recebe esteja habilitado para receber essa criança de forma segura”, destacou Jesselina.
O que os professores aprendem na capacitação?
O treinamento reúne informações sobre os principais cuidados relacionados ao diabetes tipo 1 no ambiente escolar. Entre os assuntos abordados estão a identificação de alterações da glicose, os cuidados com a insulina, a alimentação e a participação dos alunos nas atividades.
Um dos pontos importantes é o reconhecimento da hipoglicemia, situação em que a glicose fica abaixo dos valores recomendados. Dependendo da intensidade, a criança pode apresentar tremores, suor, tontura, dificuldade de concentração e até perda de consciência.
Já a hiperglicemia ocorre quando os níveis de glicose estão elevados e também exige atenção, especialmente quando acompanhada de sintomas que podem indicar complicações.
A proposta é ajudar os profissionais a reconhecer essas situações e seguir as orientações adequadas, considerando o plano individual de cuidados do estudante e a necessidade de acionar os responsáveis ou o atendimento de emergência.
O conteúdo também aborda situações comuns da rotina escolar, como festas, passeios e excursões, nas quais o planejamento é importante para garantir a participação dos alunos.
Crianças com diabetes podem participar da educação física?
Outro ponto destacado durante a entrevista foi a necessidade de combater informações equivocadas que ainda podem limitar a participação de crianças com diabetes nas atividades escolares.
A endocrinologista chamou atenção para a ideia de que alunos com diabetes tipo 1 não podem praticar exercícios físicos.
“Porque muitas vezes nós vemos coisas assim, paciente com diabetes não pode fazer educação física, é o contrário. Ele precisa fazer exercício físico”, afirmou Jesselina.
A atividade física é importante para o desenvolvimento infantil e também traz benefícios para pessoas com diabetes. Entretanto, alguns cuidados podem ser necessários, como acompanhar os níveis de glicose, observar possíveis sintomas e manter disponíveis os recursos indicados pela equipe de saúde.
Com planejamento e orientação, a criança pode participar das atividades junto aos colegas, sem restrições desnecessárias relacionadas ao diagnóstico.
Escolas podem receber selo de reconhecimento
Além de disponibilizar os conteúdos educativos, o projeto da SBD prevê o reconhecimento das instituições que investem na preparação de seus profissionais.
As escolas que capacitarem pelo menos 60% de sua equipe poderão receber o selo “Escola Amiga da Criança com Diabetes”, conforme os critérios estabelecidos pela entidade.
A proposta é incentivar a participação das instituições e valorizar aquelas que buscam oferecer um ambiente mais preparado para receber estudantes com diabetes tipo 1.
Como acessar o curso gratuito da SBD?
Os professores e demais profissionais interessados podem acessar a página oficial do projeto Diabetes & Sala de Aula, no site da Sociedade Brasileira de Diabetes.
O processo começa com um cadastro gratuito, que permite o acesso aos conteúdos educativos disponibilizados na plataforma DiabetesPlay. Os vídeos podem ser assistidos pelo computador ou celular, facilitando a participação dos profissionais conforme sua disponibilidade.
Para conhecer o projeto e realizar a inscrição, basta acessar:
Diabetes & Sala de Aula – Sociedade Brasileira de Diabetes
Inclusão vai além de receber o aluno
A preparação dos profissionais também é uma forma de combater o preconceito e evitar que crianças com diabetes sejam excluídas de atividades por falta de informação.
Uma escola inclusiva precisa compreender as necessidades dos estudantes e estabelecer uma comunicação próxima com as famílias, respeitando as particularidades de cada criança.
Durante a entrevista no ISPAD 2026, Tom Bueno destacou que a inclusão não se resume à presença do aluno na sala de aula.
“Inclusão não é só receber, né? Inclusão não é só permitir. Inclusão é acolher e saber como receber”, afirmou o jornalista.
A iniciativa da SBD reforça justamente essa proposta: oferecer conhecimento para que os profissionais da educação se sintam mais preparados e as crianças com diabetes possam vivenciar a rotina escolar com segurança, autonomia e participação.
