Os benefícios do uso do sensor de glicose por crianças e adolescentes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ganharam destaque no ISPAD 2026, congresso internacional dedicado ao diabetes na infância e adolescência, realizado no Rio de Janeiro.
Um estudo desenvolvido no Hospital das Clínicas de São Paulo acompanhou 79 pacientes que receberam os dispositivos pelo SUS e identificou melhorias importantes no controle glicêmico ao longo de seis meses. Entre os resultados estão a redução de quase um ponto percentual na hemoglobina glicada, o aumento de mais de 10% no tempo no alvo e a diminuição de internações e episódios de cetoacidose.
Durante a cobertura do ISPAD 2026, o jornalista Tom Bueno, do Portal Um Diabético, conversou com Daniel Barreto, médico residente e integrante da equipe responsável pelo estudo, sobre os principais resultados da pesquisa do sensor.
“No nosso estudo a gente conseguiu beneficiar 79 dos nossos pacientes todos com o sensor porque o SUS proveu e os resultados foram muito bons, foi muito interessante ver como melhorou os parâmetros, o perfil glicêmico desses pacientes”, destacou.
O que mudou após seis meses de uso do sensor?
Um dos resultados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi a redução da hemoglobina glicada, exame que indica a média dos níveis de glicose no sangue nos últimos dois a três meses.
Segundo Daniel, a melhora observada em apenas seis meses foi um dos principais resultados do acompanhamento.
“Além da percepção do cuidado das famílias e das crianças, o que mais chamou a atenção foi a queda na glicada, que quase alcançou um ponto a menos em 6 meses”, afirmou.
Outro resultado positivo foi o aumento de mais de 10% no tempo no alvo, indicador que representa o período em que a glicose permanece dentro da faixa desejada.
Na infância e adolescência, manter a glicose dentro da faixa recomendada é especialmente importante para reduzir o risco de complicações ao longo da vida. A melhora desses indicadores sugere um controle glicêmico mais adequado, embora os resultados observados em seis meses não permitam determinar, isoladamente, os efeitos da tecnologia a longo prazo.
Diferentemente de uma medição isolada, o sensor fornece informações frequentes sobre as variações da glicose, ajudando as famílias e os profissionais de saúde a identificar padrões e avaliar possíveis ajustes no tratamento.
Menos internações e episódios de cetoacidose
Além da melhora nos indicadores glicêmicos, os pesquisadores observaram uma diminuição nas internações e nos episódios de cetoacidose entre os participantes.
A cetoacidose diabética é uma complicação grave que ocorre quando há falta importante de insulina no organismo, provocando o acúmulo de cetonas no sangue. A situação exige atendimento médico imediato e pode levar à hospitalização.
“A gente percebeu também menos internação, menos cetoacidose”, relatou Daniel durante a entrevista.
A monitorização contínua pode ajudar a identificar alterações na glicose e permitir uma resposta mais rápida, especialmente quando os dispositivos oferecem alertas para valores elevados ou baixos.
Embora o estudo tenha apresentado resultados positivos, a entrevista não detalhou os números de internações e episódios de cetoacidose antes e depois do acompanhamento. Por isso, ainda não é possível quantificar essa redução com as informações divulgadas.
Como os sensores ajudam crianças e adolescentes?
O acompanhamento da glicose pode representar um desafio durante a infância e adolescência, principalmente pelas mudanças na alimentação, nas atividades físicas e nas necessidades de insulina ao longo do crescimento.
Os sensores permitem acompanhar as tendências da glicose durante o dia e a noite, reduzindo a necessidade de medições frequentes na ponta do dedo, embora essas verificações ainda possam ser necessárias em algumas situações.
Para as famílias, o acesso às informações pode facilitar a identificação de episódios de hipoglicemia e hiperglicemia e contribuir para decisões mais seguras no cotidiano.
Entretanto, os dispositivos não substituem a administração de insulina nem o acompanhamento médico. A interpretação dos dados deve fazer parte do tratamento orientado pela equipe de saúde.
Resultados também podem beneficiar o SUS
Outro ponto destacado pelo pesquisador foi o possível impacto da monitorização contínua nos custos da saúde pública.
Internações relacionadas a complicações do diabetes exigem estrutura hospitalar e atendimento especializado. Por isso, evitar esses episódios pode representar benefícios para os pacientes e para o sistema de saúde.
“Porque se você evita essas internações você evita muito mais gastos”, explicou Daniel.
Apesar dessa possibilidade, a entrevista não apresentou uma análise econômica detalhada que permita calcular a economia gerada pelo uso do sensor.
A apresentação do estudo no ISPAD 2026 dá visibilidade a uma experiência brasileira de utilização da monitorização contínua da glicose no atendimento público. O trabalho desenvolvido pela equipe do Hospital das Clínicas de São Paulo mostra resultados observados na prática clínica e contribui para as discussões sobre o acesso a essa tecnologia.
Os avanços identificados nos 79 participantes ao longo de seis meses reforçam a importância de investigar como a disponibilização dos sensores pode contribuir para melhorar o acompanhamento, a segurança e a qualidade de vida de crianças e adolescentes com diabetes atendidos pelo SUS.

