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    ISPAD 2026

    Falta de alimentos e acesso à insulina: estudos no ISPAD 2026 expõem desafios no controle do diabetes nos países em desenvolvimento

    Pesquisa discutida durante congresso no Rio de Janeiro relaciona fatores socioeconômicos ao controle da glicose em crianças, adolescentes e jovens adultos.
    Redação5 de novembro de 2026Nenhum comentário5 Mins Read
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    Insulina e enfermeira Gisele Filgueiras no ISPAD 2026, durante cobertura sobre desafios no tratamento do diabetes em países em desenvolvimento.
    No ISPAD 2026, Gisele Filgueiras destaca estudos sobre dificuldades no acesso à insulina, insegurança alimentar e controle do diabetes.
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    Como manter o tratamento do diabetes quando uma família não sabe se terá comida suficiente para a próxima refeição? Ou quando falta dinheiro para chegar a uma consulta médica? Essas foram algumas das questões discutidas durante o ISPAD 2026, congresso internacional sobre diabetes em crianças e adolescentes, que acontece nesta semana no Rio de Janeiro.

    Uma sessão dedicada ao acesso e à educação em diabetes em países em desenvolvimento apresentou um estudo com dados de Uganda e do Quênia. Os resultados apontaram uma associação entre desemprego, menor escolaridade dos cuidadores e níveis mais elevados de hemoglobina glicada em crianças, adolescentes e jovens adultos com diabetes.

    A enfermeira e educadora em diabetes Gisele Filgueiras, que acompanha o congresso pelo Portal Um Diabético, destacou o impacto das discussões.

    “Saí de uma sessão agora que foi muito emocionante, deu, gerou um pouquinho de incômodo e às vezes é uma realidade que a gente acha que não tá tão próximo aqui, mas tá.”

    A discussão mostrou que o cuidado com o diabetes não depende apenas de medicamentos e orientações médicas. As condições sociais e econômicas também podem interferir na continuidade do tratamento.

    Escolaridade e desemprego podem influenciar o controle da glicose

    Entre os resultados apresentados, um dos destaques foi a relação entre a escolaridade dos cuidadores e os níveis de hemoglobina glicada, exame que permite avaliar a média da glicose nos últimos dois a três meses.

    De acordo com Gisele, o estudo identificou uma associação entre menor escolaridade dos responsáveis e níveis mais elevados de hemoglobina glicada.

    A escolaridade pode influenciar a compreensão das orientações sobre o tratamento, a administração da insulina e o reconhecimento de situações que exigem atenção. Isso não significa que famílias com menor escolaridade tenham menos comprometimento com o cuidado, mas reforça a importância de uma educação em diabetes acessível.

    Outro fator associado aos resultados foi o desemprego. A falta de renda pode comprometer a alimentação, o transporte até os serviços de saúde e o acompanhamento regular, criando barreiras que vão além das orientações recebidas durante as consultas.

    Quando não há garantia da próxima refeição

    A insegurança alimentar foi outro tema discutido na sessão. Gisele relatou que algumas famílias convivem com o medo de não saber quando terão acesso à próxima refeição.

    “Então, eles têm essa fobia em relação à comida porque eles não sabem quando que eles vão ter uma oportunidade de ter uma outra refeição. Então, isso impacta muito.”

    Para pessoas com diabetes, especialmente aquelas que utilizam insulina, a alimentação irregular pode dificultar o controle da glicose. Dependendo do esquema de tratamento, ficar sem comer pode aumentar o risco de hipoglicemia, caracterizada pela queda dos níveis de glicose no sangue.

    Além disso, a falta de alimentos dificulta o planejamento das refeições e a adequação das doses de insulina. A situação mostra que recomendar uma alimentação equilibrada nem sempre é suficiente quando a família não tem condições de seguir as orientações.

    A dificuldade de conseguir e armazenar a insulina

    Além da alimentação, a sessão abordou obstáculos para conseguir atendimento médico e acesso à insulina. Em algumas situações, a falta de dinheiro para o transporte pode impedir que crianças e adolescentes compareçam às consultas.

    Outro ponto levantado foi o armazenamento do medicamento em residências sem geladeira.

    “Às vezes eles não tem nem geladeira, então como eles vão armazenar a insulina?”, questionou Gisele.

    A conservação adequada é importante para preservar a qualidade e a eficácia da insulina. Em geral, os produtos ainda não utilizados precisam ser mantidos sob refrigeração, enquanto algumas apresentações em uso podem permanecer por determinado período em temperatura ambiente, conforme as orientações do fabricante.

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os desafios de conservação da insulina em locais com acesso limitado à refrigeração. Uma revisão publicada pela entidade em 2024 analisou evidências sobre a estabilidade do medicamento em diferentes temperaturas, especialmente relevantes para regiões com poucos recursos.

    E no Brasil, essas dificuldades também existem?

    Embora o estudo tenha utilizado dados de Uganda e do Quênia, a discussão também levantou questionamentos sobre a realidade brasileira.

    “Mas pensando nesses países de desenvolvimento, será que essa realidade a gente também tem no Brasil?”, refletiu Gisele.

    O Brasil conta com o Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece acompanhamento e acesso a insulinas conforme os critérios da rede pública. Entretanto, problemas financeiros, distância dos serviços de saúde e custos de transporte podem dificultar a continuidade do tratamento.

    Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2025, cerca de 24,2% dos domicílios brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar em 2024.

    Embora o levantamento não seja específico sobre pessoas com diabetes, ele ajuda a dimensionar um problema social que também pode afetar famílias que convivem com a condição.

    A comparação não significa que os desafios brasileiros sejam idênticos aos enfrentados em Uganda e no Quênia, mas reforça a importância de considerar as desigualdades sociais no cuidado.

    Educação em diabetes precisa considerar a realidade de cada família

    A sessão trouxe ainda uma reflexão sobre o papel da educação em diabetes em um cenário marcado pelo avanço de sensores de glicose, novas tecnologias e tratamentos.

    Embora esses recursos representem conquistas importantes, Gisele destacou que as orientações precisam considerar as condições de vida de quem recebe o diagnóstico.

    “Então a educação em diabetes não é só contar carboidrato, não é só falar de tecnologia, mas ver toda essa realidade em volta dessa pessoa que tem diabetes, porque isso vai influenciar diretamente no controle dela.”

    Na prática, isso significa compreender se a família consegue manter uma alimentação regular, armazenar os medicamentos, comparecer às consultas e colocar em prática as recomendações recebidas.

    A discussão apresentada no ISPAD 2026 reforça que os avanços científicos precisam caminhar junto com medidas que ampliem o acesso ao tratamento e à informação. Para muitas famílias, antes de pensar na tecnologia mais moderna, o desafio é garantir o básico para cuidar do diabetes todos os dias.

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    Redação

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