Um novo medicamento pode mudar a forma como o diabetes tipo 1 é acompanhado antes mesmo do aparecimento dos primeiros sintomas. O Tzield, à base de teplizumabe, pode atrasar em aproximadamente dois anos a evolução para a fase clínica da condição, oferecendo mais tempo para pacientes e familiares se prepararem para o diagnóstico.
A novidade foi apresentada pelos endocrinopediatras Thiago Arruda e Renata Lima, que participaram do lançamento do medicamento no Rio de Janeiro, durante o período do ISPAD 2026, congresso internacional de diabetes pediátrico realizado pela primeira vez no Brasil.
A medicação recebeu aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em março de 2026, para pessoas a partir dos 8 anos que estejam no estágio 2 do diabetes tipo 1.
Como funciona o novo medicamento?
O diabetes tipo 1 é uma condição autoimune em que o sistema imunológico ataca as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Esse processo pode começar meses ou anos antes dos primeiros sintomas, como sede excessiva, aumento da frequência urinária e perda de peso.
O teplizumabe é um anticorpo monoclonal que atua sobre determinadas células do sistema imunológico, ajudando a reduzir a agressão às células produtoras de insulina. Com isso, pode retardar a progressão para a fase em que a pessoa apresenta sintomas e precisa iniciar o tratamento com insulina.
Durante o lançamento, Thiago Arruda destacou a importância dessa mudança na abordagem do diabetes tipo 1.
“A ideia da medicação é a gente tratar antes de vir esses sintomas”, explicou.
Segundo o especialista, durante muito tempo, o diagnóstico era realizado apenas quando crianças e adultos já apresentavam alterações importantes na glicose, algumas vezes acompanhadas de cetoacidose diabética, complicação grave que exige atendimento imediato.
O que os estudos mostram sobre os dois anos?
Os resultados que fundamentaram a aprovação do teplizumabe vieram de um estudo clínico com 76 participantes que apresentavam diabetes tipo 1 no estágio 2, mas ainda não tinham desenvolvido sintomas.
Entre aqueles que receberam o medicamento, o tempo mediano até o diagnóstico clínico foi de aproximadamente 50 meses. Já no grupo que recebeu placebo, esse intervalo foi de 25 meses.
A diferença representa cerca de dois anos a mais antes da manifestação clínica da condição. Entretanto, esse resultado corresponde à mediana observada no estudo e não significa que todos os pacientes terão o mesmo benefício.
O medicamento também não representa uma cura para o diabetes tipo 1. Seu objetivo é retardar a progressão da condição em pessoas que atendem aos critérios de indicação.
Quem pode receber o tratamento?
O Tzield é indicado para adultos e crianças a partir dos 8 anos que estejam no estágio 2 do diabetes tipo 1. Nessa fase, a pessoa já apresenta alterações relacionadas à condição, mas ainda não desenvolveu os sintomas característicos.
Para compreender melhor, o diabetes tipo 1 pode ser dividido em três estágios:
- Estágio 1: presença de autoanticorpos associados ao diabetes tipo 1, com glicose dentro dos parâmetros normais e ausência de sintomas.
- Estágio 2: presença de autoanticorpos e alterações da glicose, mas ainda sem sintomas clínicos.
- Estágio 3: fase em que aparecem os sintomas e o tratamento com insulina se torna necessário.
Por isso, ter um familiar com diabetes tipo 1 não significa que a pessoa automaticamente poderá receber o medicamento. É necessário realizar exames e confirmar a indicação por meio de avaliação médica.
Como é feita a aplicação?
O tratamento é administrado por infusão intravenosa durante 14 dias consecutivos, com acompanhamento de profissionais de saúde.
Durante a apresentação, os especialistas explicaram que a aplicação geralmente ocorre em ambiente hospitalar, permitindo o monitoramento de possíveis efeitos adversos.
Entre os riscos conhecidos estão alterações nas células sanguíneas, reações relacionadas à infusão e síndrome de liberação de citocinas, uma resposta inflamatória que pode exigir cuidados médicos. Por isso, o tratamento requer exames e acompanhamento especializado.
Por que o rastreamento é tão importante?
Uma das principais mensagens destacadas pelos endocrinopediatras foi a necessidade de identificar o diabetes tipo 1 antes do aparecimento dos sintomas.
Pessoas com familiares de primeiro grau que convivem com a condição, como pais, irmãos ou filhos, apresentam risco aumentado e podem ser avaliadas por meio de exames de autoanticorpos.
O rastreamento permite identificar alterações precoces e acompanhar a evolução do diabetes tipo 1. A investigação também pode ser considerada em outras situações, conforme a avaliação médica.
Essa identificação antecipada pode ajudar a evitar que o diagnóstico aconteça apenas diante de complicações graves, como a cetoacidose diabética.
Mais tempo para as famílias se prepararem
Para Renata Lima, um dos principais benefícios dessa nova abordagem é permitir que pacientes e familiares tenham mais tempo para compreender o diabetes tipo 1 e se preparar para os cuidados necessários.
“A gente consegue dar mais tempo para a pessoa se preparar, aprender a tomar insulina, aprender a contar carboidrato”, destacou a endocrinopediatra.
Esse período pode ser importante para que crianças, adolescentes e seus responsáveis recebam orientações sobre monitoramento da glicose, alimentação e tratamento, caso a condição evolua para a fase clínica.
A aprovação do Tzield representa um avanço no cuidado do diabetes tipo 1 no Brasil. Entretanto, a autorização da Anvisa não significa que o medicamento esteja imediatamente disponível em todos os serviços de saúde.
A novidade reforça uma das principais discussões do ISPAD 2026: a possibilidade de identificar o diabetes tipo 1 mais cedo e, agora, também intervir antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
