Uma pessoa com diabetes tipo 1 também pode apresentar características do diabetes tipo 2? Embora muita gente desconheça essa possibilidade, a combinação existe e é conhecida como diabetes duplo. O quadro pode dificultar o controle da glicose, aumentar o risco cardiovascular e exigir mudanças no tratamento.
O assunto foi abordado durante a cobertura do Portal Um Diabético no ISPAD 2026, congresso internacional realizado no Rio de Janeiro, que reúne especialistas para discutir avanços no cuidado de crianças, adolescentes e jovens com diabetes.
Em entrevista ao Portal, a endocrinologista Carolina Sallorenzo explicou como identificar os sinais dessa combinação e por que reconhecer suas características pode fazer diferença no acompanhamento médico.
O que é diabetes duplo?
No diabetes tipo 1, o sistema imunológico ataca as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Por isso, a pessoa precisa receber o hormônio para controlar a glicose.
Já no diabetes tipo 2, uma das principais características é a resistência à ação da insulina, situação em que o organismo não responde adequadamente ao hormônio.
O diabetes duplo ocorre quando essas características se sobrepõem. Uma pessoa com diabetes tipo 1, por exemplo, pode desenvolver resistência à insulina e apresentar alterações metabólicas semelhantes às observadas no tipo 2.
“A gente tem características clínicas do diabetes tipo 1, mas tem características muito marcantes do diabetes tipo 2”, explica Carolina.
Apesar do nome, o diabetes duplo não é reconhecido universalmente como um terceiro tipo de diabetes. O termo é utilizado para descrever essa sobreposição de características, que precisa ser avaliada individualmente.
Quais sinais podem indicar diabetes duplo?
A identificação nem sempre é simples, principalmente porque a resistência à insulina pode surgir anos depois do diagnóstico de diabetes tipo 1.
Segundo a endocrinologista, alguns sinais merecem atenção durante o acompanhamento:
- Excesso de peso, especialmente com acúmulo de gordura abdominal;
- Obesidade visceral, caracterizada pelo aumento de gordura ao redor dos órgãos;
- Acantose nigricans, alteração que provoca escurecimento e espessamento da pele, principalmente no pescoço e nas dobras;
- Triglicerídeos e colesterol LDL elevados;
- Níveis reduzidos de colesterol HDL;
- Necessidade de doses maiores de insulina, que também pode ocorrer por outros motivos.
A presença isolada desses sinais não confirma diabetes duplo. A investigação envolve histórico clínico, exame físico e avaliação laboratorial.
Em determinadas situações, exames de autoanticorpos também ajudam a esclarecer a classificação do diabetes, especialmente quando existem dúvidas sobre o diagnóstico inicial.
Por que o diabetes duplo preocupa os médicos?
Um dos principais motivos de preocupação é o aumento do risco cardiovascular.
A resistência à insulina pode estar associada a alterações no colesterol, pressão arterial elevada e acúmulo de gordura abdominal. Quando esses fatores estão presentes em pessoas com diabetes tipo 1, o risco de complicações cardiovasculares pode ser maior.
Durante a entrevista, Carolina destacou a importância de reconhecer essa combinação:
“E é super importante reclassificar, por quê? Porque esses pacientes têm um risco cardiovascular muito mais aumentado.”
Isso não significa que toda pessoa com diabetes duplo terá um infarto, mas reforça a necessidade de acompanhar os fatores de risco, inclusive entre pacientes jovens.
O excesso de peso também merece atenção
Durante a conversa no ISPAD 2026, a endocrinologista mencionou dados do estudo brasileiro BRASDIAB, que, segundo ela, envolveu mais de 3 mil pessoas com diabetes tipo 1.
De acordo com os números apresentados pela especialista, aproximadamente 26% dos participantes tinham sobrepeso e 8% apresentavam obesidade.
Os percentuais mostram que o excesso de peso também está presente entre pessoas com diabetes tipo 1. Entretanto, não representam a prevalência de diabetes duplo no Brasil, que ainda não possui uma estimativa nacional precisa.
Além disso, ter sobrepeso não significa necessariamente apresentar resistência à insulina. A alteração também pode ocorrer em pessoas sem excesso de peso.
Identificar o diabetes duplo pode mudar o tratamento?
Reconhecer a resistência à insulina pode ajudar a explicar por que algumas pessoas com diabetes tipo 1 precisam de doses elevadas do hormônio para manter a glicose controlada.
Nesses casos, o organismo pode necessitar de quantidades maiores de insulina para alcançar o mesmo efeito.
A identificação permite ao endocrinologista avaliar estratégias complementares, como mudanças na alimentação, prática de atividade física e controle do peso, além de considerar outras opções terapêuticas conforme as necessidades individuais.
Durante a entrevista, Carolina também comentou sobre medicamentos não insulínicos, incluindo os agonistas do receptor de GLP-1, que estão sendo estudados em pessoas com diabetes tipo 1 e resistência à insulina.
Segundo a especialista, estudos observacionais apresentam resultados promissores, mas ainda existem pesquisas clínicas em andamento para avaliar melhor a eficácia e a segurança dessas estratégias.
É importante destacar que esses medicamentos não substituem a insulina no diabetes tipo 1. Seu uso como tratamento complementar depende de avaliação especializada e das indicações aprovadas para cada medicamento.
Quando procurar uma avaliação?
Pessoas com diabetes tipo 1 que apresentam aumento persistente das necessidades de insulina, alterações no colesterol, acúmulo de gordura abdominal ou outros sinais de resistência à insulina podem conversar com o endocrinologista sobre a necessidade de uma investigação.
A avaliação permite identificar fatores que dificultam o controle da glicose e verificar se o tratamento precisa de ajustes. Isso não significa necessariamente mudar o diagnóstico de diabetes tipo 1, mas reconhecer características adicionais que influenciam o cuidado.
A discussão apresentada durante a cobertura do ISPAD 2026 reforça que o acompanhamento do diabetes deve considerar as mudanças que podem ocorrer ao longo da vida. Mesmo após anos de diagnóstico, identificar novos fatores de risco pode ser fundamental para melhorar o controle da glicose e prevenir complicações.
