Um único sensor capaz de acompanhar a glicose e, ao mesmo tempo, alertar sobre alterações que podem indicar risco de cetoacidose diabética. Essa é a proposta do Libre Duo, tecnologia da Abbott apresentada durante o ISPAD 2026, congresso internacional realizado no Rio de Janeiro.
O dispositivo amplia o monitoramento contínuo ao acompanhar também os níveis de cetonas, substâncias que podem se acumular no organismo quando há falta de insulina.
A novidade foi explicada pelos endocrinopediatras Thiago Arruda e Renata Lima durante a cobertura do Portal Um Diabético. Segundo os especialistas, a tecnologia pode ajudar pessoas com diabetes tipo 1 a reconhecer situações de risco e buscar os cuidados necessários.
O que muda com o Libre Duo?
Os sensores de glicose permitem acompanhar os valores ao longo do dia e identificar tendências de alta ou queda. O Libre Duo amplia essa função ao reunir o monitoramento de glicose e cetonas em um único dispositivo, com atualização dos dados a cada minuto, segundo a Abbott.
Durante a apresentação, Thiago Arruda destacou a importância dessa segunda informação.
“Além da glicemia que todo mundo ali já tem, né, o valor da glicose no sangue, a gente vai medir os valores em tempo real das cetonas”, explicou.
O sensor apresenta formato compacto, semelhante ao Libre 3, modelo ainda não disponível no Brasil. As medições são realizadas no líquido intersticial, presente sob a pele, e não diretamente no sangue.
Atualmente, a verificação das cetonas costuma ser feita por testes específicos de sangue ou urina, principalmente em situações de hiperglicemia persistente, infecções ou sintomas sugestivos de cetoacidose.
Com o novo dispositivo, será possível observar como esses níveis se comportam ao longo do tempo, sem depender apenas de resultados isolados.
Por que medir cetonas é tão importante?
As cetonas são produzidas quando o organismo utiliza gordura como fonte de energia. Em situações de falta de insulina, sua produção pode aumentar significativamente e evoluir para a cetoacidose diabética, uma complicação aguda que exige atendimento médico imediato.
Thiago Arruda explicou que esse aumento pode ocorrer antes do desenvolvimento do quadro mais grave.
“Então, para a gente estar em cetoacidose, a gente começa a ter o aumento dos níveis de cetona no sangue”, afirmou.
A cetoacidose ocorre quando a falta de insulina leva à produção excessiva de cetonas, provocando alterações no equilíbrio ácido-base do sangue.
Entre os sinais de alerta estão sede intensa, aumento da frequência urinária, náuseas, vômitos, dor abdominal, cansaço e respiração acelerada. Nos casos mais graves, pode ocorrer alteração do nível de consciência.
A complicação nem sempre está acompanhada de valores extremamente elevados de glicose. Por isso, acompanhar apenas a glicemia pode não ser suficiente para reconhecer todas as situações de risco.
É importante destacar que o aumento das cetonas, isoladamente, não significa que a pessoa já esteja com cetoacidose. O diagnóstico depende de avaliação clínica e exames específicos.
Alertas por cores podem ajudar a identificar alterações
Uma das funcionalidades apresentadas durante o ISPAD é o sistema de alertas do Libre Duo, que chama a atenção quando os níveis de cetonas começam a aumentar.
A endocrinopediatra Renata Lima explicou que a interface utiliza mudanças de cores para facilitar a identificação dessas alterações.
“Se começar a ficar alto, ele começa a ficar amarelo. E se ficar muito alto, fica vermelho”, explicou.
Segundo a especialista, o monitoramento pode contribuir para evitar que o quadro evolua até o aparecimento de sintomas mais intensos, como vômitos e desidratação.
Entretanto, os alertas não substituem a avaliação médica. A interpretação deve considerar os valores de glicose, os sintomas e o plano individual de tratamento.
Ajustes de insulina e hidratação precisam seguir as recomendações da equipe responsável. Em situações de suspeita de cetoacidose, especialmente com vômitos persistentes, dificuldade para respirar ou alteração da consciência, é necessário procurar atendimento de urgência.
Tecnologia já recebeu autorização nos Estados Unidos
Em maio de 2026, a Abbott anunciou a certificação europeia para duas versões do dispositivo. O Libre Duo foi desenvolvido para adultos a partir de 18 anos, com duração de até 15 dias, enquanto o Libre Duo 10 Day possui duração de até 10 dias e indicação a partir dos 2 anos de idade.
Em agosto, a agência reguladora dos Estados Unidos, FDA, autorizou o Libre Duo 10 Day. A decisão considerou seis estudos clínicos, com mais de 600 participantes, que avaliaram o desempenho do monitoramento de glicose e cetonas.
A tecnologia foi desenvolvida para pessoas com maior risco de cetoacidose, incluindo aquelas com diabetes tipo 1 e determinados grupos com diabetes tipo 2.
Apesar dos avanços internacionais, ainda não há confirmação de disponibilidade comercial do Libre Duo no Brasil.
O futuro do monitoramento do diabetes
Para pessoas com diabetes tipo 1, reconhecer rapidamente situações que podem levar à cetoacidose é fundamental. A complicação pode se desenvolver em poucas horas, especialmente em casos de falta de insulina ou episódios de infecção.
Nesse contexto, o Libre Duo oferece uma possibilidade adicional de acompanhamento, permitindo que pacientes, familiares e profissionais de saúde tenham acesso a informações que antes dependiam de testes específicos.
Embora ainda seja necessário acompanhar sua chegada ao Brasil e os resultados de sua utilização na prática, a tecnologia representa um avanço no monitoramento do diabetes, com potencial para contribuir para a prevenção de complicações graves.
