Receber uma prescrição com dois tipos de insulina pode gerar dúvidas: uma não seria suficiente? A segunda aplicação significa que o diabetes piorou? No diabetes tipo 1, combinar a reposição de base com a insulina das refeições faz parte de um tratamento que procura reproduzir o funcionamento do organismo.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda esse esquema, chamado basal-bolus, desde as fases iniciais do diabetes tipo 1. Ele pode ser realizado com múltiplas aplicações ou por bomba de insulina. A indicação não deve ser interpretada, por si só, como sinal de agravamento.
O assunto foi discutido no DiabetesCast com a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, colunista e consultora médica do Portal Um Diabético.
“Então, quem tem diabetes tipo 1 precisa dessas duas insulinas”, explicou a médica ao diferenciar a cobertura de base daquela relacionada à alimentação. Na prática, são duas funções que precisam ser atendidas, mesmo quando o tratamento usa uma bomba.
O que a insulina lenta faz?
A expressão “insulina lenta” costuma ser usada para falar das insulinas que cumprem a função basal. Elas ajudam a atender às necessidades do organismo durante a noite e entre as refeições.
“É uma insulina que a gente utiliza quando eu estou dormindo ou quando eu não estou comendo”, afirmou Denise.
Mesmo sem alimentação, o fígado continua liberando glicose na circulação. Segundo a Associação Americana de Diabetes (ADA), a principal ação da basal é limitar essa produção e ajudar a evitar glicose elevada durante a noite e nos intervalos entre as refeições.
As formulações usadas para essa finalidade têm perfis diferentes. A NPH tem ação intermediária, enquanto outros produtos apresentam ação prolongada ou ultraprolongada. Por isso, “lenta” é uma expressão popular que não descreve todas as diferenças entre os medicamentos.
Para que serve a insulina rápida?
A insulina relacionada às refeições é chamada de prandial. Sua função é atender à necessidade que surge com a alimentação.
“Quando eu vou comer, eu preciso aplicar insulina em cada refeição, no caso de quem tem diabetes tipo 1”, explicou Denise no episódio.
A SBD distingue esse componente da reposição basal e recomenda que o tratamento reproduza ambos. A escolha da formulação interfere no momento da aplicação: insulina regular e análogos rápidos ou ultrarrápidos não têm exatamente o mesmo início de ação.
Além da cobertura alimentar, a insulina de ação rápida pode integrar um plano de correção de glicose elevada. Esse uso depende de orientação individual sobre dose, glicemia e insulina que ainda está agindo no organismo.
Por que uma não substitui automaticamente a outra?
A basal e a prandial têm objetivos complementares. Uma atende à necessidade contínua; a outra acompanha a demanda relacionada às refeições.
Por isso, tentar resolver todas as elevações da glicose apenas aumentando a basal pode não atender ao problema. A ADA alerta para a chamada sobrebasalização, quando a reposição basal é usada em excesso para compensar necessidades que exigem outra abordagem, aumentando o risco de hipoglicemia.
Da mesma forma, no diabetes tipo 1, aplicações ligadas apenas às refeições não eliminam a necessidade da cobertura basal.
O tratamento deve considerar os padrões de glicose ao longo do dia. Uma elevação depois do almoço e uma alteração durante a madrugada podem exigir avaliações diferentes.
Quem usa bomba também precisa das duas funções?
Sim. A bomba permite cumprir as funções basal e bolus usando, em geral, uma mesma formulação de insulina de ação rápida.
O dispositivo libera pequenas quantidades ao longo do dia para a cobertura basal. Também permite administrar bolus relacionados às refeições e às correções, de acordo com o sistema e com o plano de tratamento.
Portanto, a pessoa não precisa necessariamente de dois frascos ou duas canetas para receber as duas formas de reposição. A SBD inclui a infusão contínua entre as maneiras de realizar o tratamento basal-bolus.
Essa distinção ajuda a entender a fala de Denise: a necessidade central está nas duas funções, e a forma de fornecê-las pode variar.
No diabetes tipo 2, a combinação é sempre necessária?
Não. A ADA descreve a basal como uma opção para iniciar a insulinoterapia no diabetes tipo 2, inclusive em associação com outros medicamentos. A insulina das refeições pode ser acrescentada conforme a resposta ao tratamento.
No DiabetesCast, Denise explica que novas terapias ampliaram as possibilidades de cuidar da glicose após as refeições.
“A gente tem usado muito mais insulina basal do que as insulinas de ação rápida”, afirmou ao comentar sua utilização no diabetes tipo 2.
Isso não exclui a necessidade de rápida em determinados casos. A médica ressalta que ela continua sendo um recurso quando indicada.
O que precisa estar claro na prescrição?
Saber o nome da insulina não basta. A pessoa precisa entender qual função cada medicamento cumpre, quando aplicá-lo e como agir se houver mudanças na alimentação ou na glicose.
Na entrevista, Denise destaca a importância de ensinar a técnica de aplicação, a conservação e os cuidados diante de hipoglicemia ou hiperglicemia.
A combinação de insulinas exige orientação e acompanhamento. Quando o médico acrescenta uma formulação, a pergunta que ajuda a compreender a mudança é: qual necessidade do organismo essa insulina vai atender?
