Na hora de escolher o leite no supermercado, muitas pessoas que convivem com diabetes ficam em dúvida: o leite integral faz a glicose subir mais do que o desnatado? Ou será que retirar a gordura da bebida é sempre a melhor escolha?
Embora os dois produtos tenham praticamente a mesma quantidade de proteínas e carboidratos, a diferença no teor de gordura pode alterar a forma como o organismo responde após o consumo. Além disso, fatores como colesterol, saúde cardiovascular e os objetivos do tratamento também entram nessa decisão.
Segundo a nutricionista Tarcila Campos, do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), não existe um único tipo de leite ideal para todas as pessoas com diabetes. A recomendação depende da condição clínica, do padrão alimentar e das metas de cada paciente.
O que muda entre o leite integral e o desnatado?
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a principal diferença entre o leite integral e o desnatado não está na quantidade de açúcar, mas na gordura.
“A quantidade de carboidratos e proteínas praticamente não muda. O que varia é, principalmente, o teor de gordura”, explica Tarcila durante o episódio do DiabetesCast.
Isso significa que ambos continuam fornecendo nutrientes importantes, como cálcio, proteínas e vitaminas. A retirada da gordura não elimina a lactose, que é o açúcar natural do leite.
Como a gordura pode influenciar a glicose?
A gordura presente no leite integral pode modificar a resposta da glicose após a refeição.
Segundo a especialista, alimentos mais gordurosos costumam retardar o esvaziamento do estômago. Com isso, a glicose pode permanecer elevada por mais tempo ou apresentar uma elevação tardia, situação observada principalmente em pessoas que utilizam insulina.
Esse comportamento tem sido cada vez mais identificado por pessoas que utilizam sensores de monitorização contínua da glicose, que conseguem visualizar as alterações ao longo das horas seguintes às refeições.
O leite desnatado faz a glicose subir mais rápido?
Apesar de conter pouca ou nenhuma gordura, isso não significa que o leite desnatado provoque necessariamente um pico glicêmico importante.
Isso porque o leite continua sendo uma fonte de proteínas, nutriente que ajuda a tornar a absorção dos carboidratos mais gradual.
“O leite não é carboidrato puro. Ele também contém proteínas, que fazem parte dessa resposta metabólica”, destaca Tarcila.
A escolha vai além da glicose
Para pessoas com diabetes, controlar apenas a glicemia não é o único objetivo do tratamento.
As diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes e da American Diabetes Association (ADA) também reforçam a importância de reduzir o risco cardiovascular, já que pessoas com diabetes apresentam maior probabilidade de desenvolver doenças do coração.
Nesse contexto, quem tem colesterol elevado, excesso de peso ou síndrome metabólica pode receber orientação para priorizar versões com menor quantidade de gordura, como o leite semidesnatado ou desnatado.
O problema nem sempre é o leite
Outro ponto importante destacado pela nutricionista é que, muitas vezes, a alteração da glicose não acontece apenas por causa do leite.
Ingredientes como achocolatados, açúcar, cereais açucarados, mingaus industrializados e biscoitos consumidos junto com a bebida podem exercer um impacto muito maior no controle glicêmico do que o próprio leite.
Por isso, avaliar toda a composição do café da manhã costuma ser mais importante do que analisar um alimento isoladamente.
Existe um leite melhor para quem tem diabetes?
A resposta continua sendo individualizada.
Segundo Tarcila Campos, a melhor escolha depende do perfil de cada pessoa, do tratamento utilizado, dos exames laboratoriais e dos objetivos definidos com a equipe de saúde.
“Vai depender da estratégia nutricional e da necessidade de cada paciente”, afirma a especialista.
Ela reforça que o leite pode fazer parte da alimentação de pessoas com diabetes e que não há evidências científicas que justifiquem sua exclusão apenas pelo diagnóstico da doença.
O que dizem as evidências
As diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes e da American Diabetes Association recomendam que a alimentação seja individualizada, levando em conta preferências, objetivos metabólicos e fatores de risco cardiovascular.
Nenhuma das entidades orienta substituir automaticamente o leite integral pelo desnatado para todas as pessoas com diabetes. A decisão deve considerar o contexto clínico, a alimentação como um todo e a orientação do profissional de saúde.
