A rotina de quem convive com diabetes tipo 1 envolve decisões constantes: medir, acompanhar, corrigir e adaptar. Foi a partir dessa experiência diária que a artista multimídia Ruchita encontrou na arte uma forma de expressar sua relação com o próprio corpo, a saúde e os desafios de viver com uma condição crônica.
Essa vivência é o ponto de partida da exposição “Território de Passagem”, em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. A mostra transforma experiências pessoais da artista em uma narrativa artística sobre cuidado, emoções, mudanças e os diferentes estados que atravessam a vida de uma pessoa com diabetes.
Ruchita é artista multimídia e desenvolve trabalhos que exploram relações entre corpo, memória, tecnologia e experiências pessoais. Em “Território de Passagem”, ela apresenta obras em diferentes linguagens, como vídeo arte, fotografia e performance, reunindo trabalhos produzidos entre 2017 e 2025.
A exposição, concebida especialmente para o MIS, reúne oito obras e tem como um dos destaques “Alternar-se”, trabalho criado a partir da experiência da artista com o diabetes tipo 1.
“Nossa obra nasce de algo muito pessoal, que é a minha vivência com a diabetes. Isso é algo que atravessa o meu corpo, a minha saúde, as minhas emoções e a minha rotina”, afirma Ruchita.
Quando o diabetes deixa de ser apenas uma condição médica e vira narrativa
Embora tenha como ponto de partida a convivência da artista com o diabetes tipo 1, a exposição não busca representar a condição apenas pelo aspecto médico. A proposta é revelar as diferentes camadas presentes nessa experiência: os impactos físicos, emocionais e subjetivos de viver com uma rotina de cuidados constantes.
Mais do que falar sobre números, exames ou tratamentos, Ruchita apresenta a perspectiva de quem convive diariamente com uma condição que exige atenção permanente e adaptação.
“Viver com a diabetes é viver em altos e baixos, constantes, reais, físicos, emocionais, mentais. É constantemente estar medindo, esperando, corrigindo e repetindo”, relata.
A obra “Alternar-se” traduz justamente essa relação com as mudanças. O trabalho propõe uma reflexão sobre a existência nesse intervalo entre diferentes estados, como controle e descontrole, permanência e oscilação.
“Ele é um ensaio visual e sonoro sobre existir nesse intervalo delicado entre controle e descontrole, entre permanência e oscilação”, explica a artista.
Sangue, mel e a construção visual da obra
Entre os elementos presentes na instalação estão materiais como sangue e mel, que fazem parte da composição visual da obra e ajudam a construir uma narrativa relacionada ao corpo, transformação e percepção.
A presença desses elementos reforça a proposta da exposição de abordar o diabetes para além do olhar clínico, trazendo também aspectos ligados à experiência individual, à identidade e à forma como cada pessoa se relaciona com o próprio corpo.
Ao transformar uma vivência pessoal em arte, Ruchita cria uma oportunidade de diálogo sobre uma condição que faz parte da vida de milhões de pessoas, mas que nem sempre é representada em espaços culturais.

A importância da representatividade de pessoas com diabetes na arte
Ao levar sua história para um museu, Ruchita amplia a presença de pessoas com diabetes em espaços onde suas experiências ainda são pouco retratadas.
Durante muito tempo, o diabetes foi apresentado principalmente pelo olhar médico, com foco em exames, controle glicêmico e tratamento. A arte permite uma outra perspectiva: a de quem vive a condição, enfrenta seus desafios diariamente e constrói sua própria relação com o cuidado.
Para a comunidade que convive com diabetes, iniciativas como essa ajudam a ampliar a visibilidade sobre uma condição que acompanha milhões de pessoas, mas que muitas vezes permanece invisível no cotidiano.
A representação de histórias reais também pode gerar identificação e mostrar que o diabetes não define uma pessoa, mas faz parte de uma trajetória formada por escolhas, relações, sonhos e diferentes formas de existir.
Para Ruchita, apesar de nascer de uma experiência individual, a obra pode dialogar com diferentes públicos.
“Eu acredito que várias pessoas podem se identificar com essa obra, porque muitas doenças impõem uma convivência diária com a instabilidade. E mesmo quem não convive com nenhum tipo de enfermidade, a gente vive num tempo que é marcado por constantes oscilações”, afirma.
Arte como convite para observar o corpo e o cuidado
Além de compartilhar sua própria história, Ruchita também destaca a importância de falar sobre diabetes diante do crescimento dos casos da condição no mundo.
“Eu senti que era importante falar sobre isso porque os números seguem crescendo. Hoje em dia, mais de 16 milhões de pessoas convivem com a diabetes no Brasil e quase 600 milhões de pessoas no mundo”, diz.
Segundo a artista, a exposição funciona como um convite para que as pessoas observem seus corpos e reflitam sobre o cuidado cotidiano.
“Essa obra também funciona como um alerta, não imediato, mas contínuo. Um convite para a observação do corpo e do cuidado cotidiano”, completa.
Ao transformar sua própria experiência com o diabetes tipo 1 em linguagem artística, Ruchita amplia o debate sobre a condição e mostra que viver com diabetes também envolve histórias, sentimentos e diferentes formas de se relacionar com o mundo.
Exposição gratuita fica em cartaz no MIS
A exposição “Território de Passagem”, de Ruchita, está aberta ao público no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, com entrada gratuita.
A mostra fica em cartaz até 24 de agosto de 2026, no Espaço Maureen Bisilliat, reunindo oito trabalhos da artista produzidos ao longo dos últimos anos.
Além da visitação, a programação conta com atividades relacionadas à exposição, como visitas mediadas, bate-papos e oficinas, com participação gratuita e vagas sujeitas à lotação.
Exposição: Território de Passagem – Ruchita
Local: Museu da Imagem e do Som (MIS) – Espaço Maureen Bisilliat
Endereço: Avenida Europa, 158 – Jardim Europa, São Paulo (SP)
Período: até 24 de agosto de 2026
Entrada: gratuita
Horários de visitação:
- Terça a sexta-feira: das 10h às 19h
- Sábados: das 10h às 20h
- Domingos e feriados: das 10h às 18h
