A contagem de carboidratos faz parte da rotina de muitas pessoas com diabetes, principalmente de quem utiliza insulina. Embora o nome pareça complicado, a estratégia tem um objetivo simples: estimar a quantidade de carboidratos consumidos para ajustar a dose de insulina de forma mais próxima da necessidade do organismo.
Durante participação no DiabetesCast, a endocrinologista Denise Franco e a nutricionista Juliana Baptista explicaram como a técnica funciona na prática, quais são seus benefícios e por que ela pode ajudar a evitar tanto a hipoglicemia quanto a hiperglicemia.
O que é contagem de carboidratos?
A contagem de carboidratos consiste em identificar quanto carboidrato existe em uma refeição para calcular a quantidade de insulina necessária naquele momento.
Segundo Juliana Baptista, o carboidrato é um dos nutrientes que mais impactam os níveis de glicose porque ele é transformado em glicose após a digestão. Por isso, conhecer a quantidade consumida permite fazer ajustes mais precisos na aplicação de insulina.
Na prática, o médico determina quantos gramas de carboidrato correspondem a uma unidade de insulina para cada paciente. A partir dessa relação, a pessoa consegue adaptar a dose de acordo com o que vai comer.
Como a contagem ajuda a evitar hipoglicemia e hiperglicemia
De acordo com Juliana Baptista, a principal vantagem da contagem de carboidratos é permitir que a dose de insulina acompanhe a quantidade de alimento consumida.
Quando a pessoa utiliza uma dose fixa de insulina e come mais do que o habitual, a glicose tende a subir. Por outro lado, se ela come menos do que o esperado para aquela dose, o risco de hipoglicemia aumenta.
Nesse contexto, a contagem de carboidratos oferece mais flexibilidade. A pessoa pode variar suas refeições e ajustar a insulina conforme a necessidade daquele momento.
A técnica não serve apenas para quem usa insulina
Embora seja muito associada ao diabetes tipo 1, a contagem de carboidratos também pode ser utilizada em outras situações.
Denise Franco explicou que a estratégia pode ajudar pessoas com diabetes gestacional a distribuir melhor os carboidratos ao longo do dia. Além disso, também pode ser útil para pessoas com diabetes tipo 2 que utilizam medicamentos orais e desejam compreender melhor a quantidade de carboidratos consumida nas refeições.
Segundo a endocrinologista, entender o que representa um exagero alimentar é algo individual. Por isso, a técnica pode servir como ferramenta de educação alimentar e não apenas para cálculo de insulina.
Contar carboidratos não significa ignorar calorias
Um dos alertas feitos pelas especialistas é que muitas pessoas passam a olhar apenas para os carboidratos e acabam esquecendo outros aspectos da alimentação.
Juliana Baptista destacou que carboidratos e calorias são conceitos diferentes. Um alimento pode ter muito carboidrato e poucas calorias, enquanto outro pode apresentar poucas quantidades de carboidrato e elevado valor calórico.
A nutricionista explicou que proteínas são importantes para manutenção muscular, cicatrização, unhas e cabelos. Além disso, fibras fornecem vitaminas e minerais e participam do funcionamento intestinal.
Nesse contexto, a alimentação precisa ser analisada como um conjunto e não apenas pela quantidade de carboidratos presente no prato.
Ganho de peso também interfere no controle do diabetes
Denise Franco destacou que controlar apenas a glicose não é suficiente para avaliar o tratamento.
Segundo a endocrinologista, uma pessoa pode apresentar melhora nos números da glicemia e, ao mesmo tempo, ganhar peso. Isso pode aumentar a necessidade de insulina e favorecer resistência à ação do hormônio.
Além disso, o ganho de peso também pode impactar fatores relacionados ao risco cardiovascular. Por isso, o acompanhamento nutricional continua sendo importante mesmo para quem já domina a contagem de carboidratos.
Proteína, gordura e álcool também merecem atenção
Outro ponto abordado pelas especialistas foi que o carboidrato não é o único nutriente capaz de influenciar a glicose.
Denise Franco explicou que proteínas e gorduras podem provocar aumento da glicose horas depois da refeição. Portanto, refeições muito ricas nesses nutrientes também exigem atenção.
A nutricionista citou como exemplos de proteínas alimentos como carnes, peixes, ovos e queijos. Embora não contenham quantidades relevantes de carboidrato, o consumo excessivo pode gerar impacto glicêmico mais tardio.
O álcool também entrou na discussão. Segundo Denise Franco, ele possui valor calórico significativo e deve ser considerado dentro do planejamento alimentar.
A técnica das mãos para estimar carboidratos
Nem sempre é possível pesar alimentos ou consultar tabelas nutricionais. Pensando nisso, Juliana Baptista desenvolveu uma estratégia baseada em medidas visuais.
A nutricionista utiliza as próprias mãos como referência para estimar porções e facilitar a contagem em restaurantes, viagens e situações do cotidiano.
Segundo ela, uma colher de sopa de alimentos como arroz, feijão, macarrão, mandioca, batata e outros alimentos ricos em carboidratos costuma representar aproximadamente cinco gramas de carboidratos.
Já farinhas, como farinha de mandioca, tapioca e amido de milho, costumam concentrar mais carboidrato na mesma medida e podem representar cerca de dez gramas por colher.
A proposta não é substituir completamente tabelas ou aplicativos, mas oferecer uma alternativa para situações em que esses recursos não estão disponíveis.
Índice glicêmico não é a mesma coisa que carboidrato
As especialistas também destacaram uma dúvida comum entre pessoas com diabetes.
A quantidade de carboidratos de um alimento não determina a velocidade com que ele elevará a glicose. Esse papel é desempenhado pelo índice glicêmico.
Um exemplo citado foi o purê de batata. Como o alimento já está processado e amassado, sua absorção tende a ser mais rápida do que a da batata consumida em outra forma.
Da mesma forma, o suco costuma elevar a glicose mais rapidamente do que a fruta inteira porque perde parte das fibras durante o preparo.
Combinações de alimentos mudam a resposta da glicose
A forma como os alimentos são combinados também influencia a curva glicêmica.
Juliana Baptista explicou que alimentos ricos em proteína e fibras podem reduzir a velocidade de absorção dos carboidratos. Por isso, um macarrão consumido junto com proteína tende a provocar uma resposta glicêmica diferente daquela observada quando ele é consumido sozinho.
Segundo a nutricionista, entender essas combinações ajuda a interpretar melhor os resultados observados nos sensores de glicose.
Aplicativos ajudam, mas não substituem orientação profissional
Hoje existem aplicativos capazes de estimar carboidratos a partir de fotos ou descrições dos alimentos.
No entanto, Juliana Baptista alerta que a tecnologia pode apresentar limitações. Uma fotografia nem sempre permite identificar o tamanho exato da porção, fator essencial para uma contagem adequada.
Por isso, tanto ela quanto Denise Franco reforçam a importância do acompanhamento com nutricionista e equipe de saúde para interpretar corretamente as informações fornecidas pela tecnologia.
Sensores, bombas de insulina e inteligência artificial estão mudando esse cenário
Denise Franco destacou que a tecnologia vem reduzindo parte da carga mental associada ao tratamento do diabetes.
Segundo ela, sensores de glicose e sistemas automatizados de administração de insulina conseguem corrigir parte dos erros de cálculo da contagem de carboidratos. Além disso, recursos de inteligência artificial já começam a ser utilizados para analisar padrões glicêmicos e auxiliar nas decisões do dia a dia.
Enquanto isso, a contagem de carboidratos continua sendo uma das principais ferramentas para ajustar a alimentação e a insulina de forma individualizada.