A neuropatia diabética é uma das complicações do diabetes que mais exige atenção. A condição afeta os nervos, reduz a sensibilidade dos pés e pode fazer com que pequenas lesões passem despercebidas. Segundo o ortopedista Dr. Eduardo Araújo, especialista em cirurgias do pé e tornozelo, esse processo acontece de forma lenta, o que dificulta a identificação dos primeiros sinais.
O que acontece com os nervos na neuropatia diabética
De acordo com o Dr. Eduardo Araújo, a glicose elevada por longos períodos pode comprometer os nervos mais compridos do corpo, responsáveis por levar informações entre os pés e o cérebro.
“Os nervos levam para o cérebro informações como dor, temperatura e pressão. Quando começam a perder a função, a pessoa deixa de perceber esses estímulos”, explica.
Esse processo ocorre de forma progressiva. Por isso, muitas pessoas não percebem que a sensibilidade está diminuindo até surgir uma complicação.
O especialista afirma que a neuropatia costuma começar pelos pés e, com o tempo, também pode atingir as mãos, padrão conhecido como neuropatia em botas e luvas.
Por que perder a sensibilidade aumenta o risco de feridas
A dor funciona como um mecanismo natural de proteção do organismo. Quando ela desaparece, situações que normalmente fariam qualquer pessoa interromper uma atividade deixam de ser percebidas.
Segundo o ortopedista, uma pedra dentro do sapato, um calo ou uma pequena lesão podem passar despercebidos durante horas ou até dias.
“Nós sentimos dor porque ela avisa que existe algum problema. Quem perde essa sensibilidade continua caminhando normalmente, mesmo com uma lesão no pé”, afirma.
Como consequência, pequenas feridas podem aumentar de tamanho sem que a pessoa perceba.
A neuropatia não afeta apenas a sensibilidade
O Dr. Eduardo explica que a neuropatia também pode comprometer a movimentação dos músculos dos pés e alterar funções da pele.
Entre as mudanças mais frequentes estão:
- dedos em garra;
- pele mais seca;
- redução da transpiração;
- aumento da formação de calos;
- alterações na distribuição da pressão ao caminhar.
Esses pontos de pressão favorecem o surgimento de calos mais espessos. Debaixo deles, podem aparecer feridas que só são identificadas quando o calo é removido.
Pequenos sinais podem indicar que algo está errado
A advogada Eloísa Malieri, que convive com diabetes tipo 1 há 40 anos e recebeu o diagnóstico de neuropatia durante a gravidez da filha, conta que só conseguiu reconhecer os sinais depois que descobriu a complicação.
Ao relembrar sua história, ela percebeu que havia perdido os pelos dos pés, tinha unhas mais quebradiças, pele mais brilhante, pés frios e uma sensação semelhante a pequenos choques quando o lençol encostava na pele.
Ela também recorda um episódio em que caminhou descalça sobre um piso quente sem perceber que havia queimado a sola do pé.
“Os sinais estavam presentes, mas eu não sabia o que eles significavam”, relata.
Examinar os pés diariamente faz parte do tratamento
Como quem tem neuropatia deixa de contar com o alerta da dor, o exame diário dos pés passa a ser parte da rotina.
Segundo o Dr. Eduardo Araújo, a orientação é observar todos os dias a planta dos pés, os dedos, o espaço entre eles e procurar qualquer alteração de cor, vermelhidão, calos ou feridas.
Ele também recomenda usar calçados confortáveis, evitar andar descalço, secar bem os pés após o banho, hidratar a pele, sem aplicar creme entre os dedos, e manter as unhas cortadas de forma reta para reduzir o risco de lesões.
Controle do diabetes também influencia a evolução da neuropatia
Além dos cuidados com os pés, o controle do diabetes tem papel importante na evolução da neuropatia.
Segundo o ortopedista, manter a glicemia dentro das metas ajuda a reduzir a progressão da lesão nos nervos e também diminui o comprometimento da circulação, fator importante para a cicatrização de feridas.
Por isso, qualquer mudança no aspecto dos pés deve ser avaliada rapidamente por um profissional de saúde. Quanto mais cedo uma alteração é identificada, maiores são as chances de evitar complicações.
