O sensor de glicose mudou a forma como muitas pessoas com diabetes acompanham as variações da glicemia ao longo do dia. Se durante décadas a principal maneira de verificar esses valores em casa foi furar o dedo e usar um glicosímetro, hoje a tecnologia permite enxergar também o que acontece nos intervalos entre essas medições.
Na prática, o sensor de glicose oferece mais do que um valor isolado. Dependendo do sistema, é possível acompanhar tendências de subida ou queda e observar como a glicose se comporta durante diferentes momentos do dia e da noite.
Esse avanço também trouxe novas questões para quem convive com diabetes. Todas as pessoas precisam usar um sensor? Quem pode se beneficiar mais dessa tecnologia? E, para quem não consegue comprar o dispositivo, como funciona o acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS)?
Para entender esse cenário, é preciso olhar para dois pontos diferentes: o que as evidências científicas mostram sobre o uso dos sensores e como essa tecnologia está chegando às pessoas com diabetes no Brasil.
O sensor permite enxergar o que acontece entre uma medição e outra
Os sensores de glicose são pequenos dispositivos colocados na pele, geralmente no braço ou em outro local indicado pelo fabricante. Um pequeno filamento fica logo abaixo da pele e acompanha a quantidade de glicose no líquido que existe entre as células.
Na prática, o mais importante para quem usa é entender a diferença entre o sensor e a medição tradicional.
Quando uma pessoa fura o dedo e encontra uma glicemia de 110 mg/dL, por exemplo, ela sabe quanto estava sua glicose naquele momento. É como tirar uma fotografia.
O sensor acrescenta outras informações. Ele permite acompanhar o que aconteceu antes e observar a direção que a glicose está tomando. Dependendo do dispositivo, setas de tendência podem mostrar se ela está estável, subindo ou caindo.
Isso ajuda a revelar comportamentos que poderiam passar despercebidos entre uma medição e outra, inclusive durante o sono.
O uso dos sensores ganhou espaço no tratamento do diabetes
À medida que novos estudos foram publicados, os sensores passaram a ocupar um espaço maior nas recomendações das sociedades médicas.
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) de 2026 recomenda a monitorização contínua da glicose para pessoas com diabetes tipo 1. Para pessoas com diabetes tipo 2 que usam insulina, a entidade também recomenda essa forma de monitorização. Em outras situações, o uso pode ser avaliado de maneira individualizada.
Isso significa que os sensores deixaram de ser vistos apenas como uma facilidade tecnológica e passaram a fazer parte das ferramentas disponíveis para acompanhar o tratamento.
Mas isso não quer dizer que todas as pessoas com diabetes tenham exatamente a mesma necessidade.
Uma pessoa que apresenta quedas frequentes da glicose, por exemplo, pode ter necessidades diferentes de alguém que não utiliza insulina e mantém a glicemia dentro das metas estabelecidas junto à equipe de saúde.
Por isso, tipo de diabetes, medicamentos utilizados, risco de hipoglicemia, rotina e objetivos do tratamento precisam entrar nessa decisão.
Uma seta ao lado da glicose pode mudar a interpretação daquele número
Os sensores não fornecem apenas uma sequência de valores.
Imagine duas pessoas com uma glicose de 100 mg/dL. Na primeira, o sensor indica que a glicose está estável. Na segunda, mostra uma tendência de queda.
O número é o mesmo, mas a informação disponível é diferente.
Ao reunir os dados de vários dias, também é possível perceber horários em que a glicose costuma subir ou cair e avaliar como ela se comporta durante o sono, após refeições, exercícios e outras situações da rotina.
Outra informação utilizada atualmente no acompanhamento do diabetes é o chamado tempo no alvo. De maneira simples, ele mostra quanto tempo a pessoa permaneceu dentro da faixa de glicose definida como objetivo.
Esses dados podem ajudar a pessoa com diabetes e a equipe de saúde a identificar padrões e avaliar o tratamento.
Ter muitos números na tela, porém, não resolve tudo. É importante aprender a interpretar essas informações. Por isso, as recomendações da SBD também destacam a importância da educação em diabetes para quem utiliza essas tecnologias.
Mesmo com o sensor, a ponta de dedo pode ser necessária
O avanço dos sensores reduziu a necessidade de furar o dedo várias vezes ao dia para muitas pessoas. Ainda assim, o glicosímetro não deve necessariamente ser abandonado.
Isso acontece porque os dois aparelhos medem a glicose de maneiras diferentes.
O glicosímetro analisa uma gota de sangue. O sensor acompanha a glicose no líquido existente entre as células. Por causa dessa diferença, principalmente quando a glicose está subindo ou caindo rapidamente, os números podem não ser exatamente iguais.
Também podem existir situações em que o valor mostrado pelo sensor não combina com aquilo que a pessoa está sentindo.
Nesses casos, uma medição na ponta do dedo pode ser necessária para confirmar o resultado. As orientações variam conforme o dispositivo utilizado, por isso é importante conhecer as recomendações do fabricante e da equipe de saúde.
Ter indicação para usar um sensor não significa conseguir o dispositivo pelo SUS
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre diabetes e passa também pelo acesso à tecnologia.
Uma sociedade médica pode recomendar determinado tratamento ou equipamento porque estudos mostram benefícios para um grupo de pacientes. Para que essa tecnologia seja oferecida nacionalmente pelo SUS, porém, existe outro processo.
O Ministério da Saúde precisa avaliar as evidências, quem receberia a tecnologia, os custos e o impacto que a oferta teria para o sistema público.
Hoje, os sensores de monitorização contínua ainda não são fornecidos de maneira regular e nacional para todas as pessoas com diabetes que poderiam ter indicação para utilizá-los.
O método tradicional, com glicosímetro, lancetas e tiras para medir a glicose na ponta do dedo, continua sendo a principal forma de monitorização disponibilizada pelo SUS.
Mas esse cenário está em discussão.
Uma nova avaliação pode ajudar a definir os próximos passos no SUS
Em 2026, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) voltou a discutir a monitorização contínua da glicose.
A Conitec é o órgão que ajuda o Ministério da Saúde a decidir quais medicamentos, equipamentos, exames e outras tecnologias devem ser incorporados ao SUS.
Em julho, foi aberta uma consulta pública para ouvir pacientes, familiares, profissionais de saúde e outros setores da sociedade sobre o uso de um sistema de monitoramento contínuo da glicose em tempo real para pessoas com diabetes tipo 1.
A consulta ficou aberta entre 29 de julho e 17 de agosto de 2026.
É importante entender que essa etapa não significa que os sensores já tenham sido aprovados para distribuição nacional. A consulta faz parte do processo de avaliação antes de uma decisão definitiva.
Algumas cidades já começaram a distribuir sensores
Enquanto uma possível ampliação do acesso é discutida nacionalmente, algumas cidades criaram seus próprios programas.
É por isso que duas pessoas com diabetes que vivem em cidades diferentes podem encontrar situações completamente distintas no SUS.
Na cidade de São Paulo, a prefeitura iniciou em 2026 a distribuição gratuita de sensores para crianças de 2 a 12 anos com diabetes tipo 1 que atendem aos critérios estabelecidos pela rede municipal.
Em Aracaju, o programa Sem Medir a Vida oferece sensores para crianças, adolescentes e jovens com diabetes tipo 1 acompanhados pela rede municipal e que se enquadram nas regras do programa.
Outros municípios também avançaram na criação de políticas ou leis relacionadas ao fornecimento da tecnologia, como Indaiatuba e São José dos Campos, no interior de São Paulo.
Mas as regras não são iguais.
Um município pode estabelecer uma determinada idade para receber o sensor. Outro pode atender apenas pessoas com diabetes tipo 1. Também podem existir critérios relacionados ao tratamento e ao acompanhamento pela rede pública.
Por isso, o fato de uma cidade oferecer sensores não significa que exista o mesmo direito para todas as pessoas com diabetes no restante do Brasil.
O Congresso também discute ampliar o acesso
A discussão chegou ainda ao Congresso Nacional.
O Projeto de Lei 323/2025 propõe a oferta gratuita pelo SUS de dispositivos que permitem acompanhar a glicose por meio de sensores.
A proposta foi aprovada pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados em dezembro de 2025, mas ainda precisa passar por outras etapas.
Na prática, isso significa que o projeto ainda não virou lei e, portanto, não criou uma obrigação nacional para que o SUS forneça esses dispositivos.
O desafio agora envolve indicação, informação e acesso
Os sensores mudaram a maneira como a glicose pode ser acompanhada. Em vez de observar somente valores isolados, tornou-se possível enxergar tendências e padrões durante diferentes momentos do dia.
As recomendações médicas também avançaram e hoje a monitorização contínua tem indicação para diferentes grupos de pessoas com diabetes, principalmente para quem utiliza insulina.
Isso não significa que o sensor seja obrigatório para todo mundo ou que todas as pessoas obtenham exatamente o mesmo benefício.
A escolha precisa considerar as características e necessidades de cada pessoa e ser acompanhada de orientação para que os dados possam ser compreendidos e utilizados de forma adequada.
No Brasil, existe ainda outro desafio. A tecnologia avança mais rapidamente do que o acesso pelo sistema público. Enquanto o país discute uma possível incorporação mais ampla, algumas cidades já oferecem sensores para grupos específicos e outras ainda não contam com programas semelhantes.
Por isso, entender quem pode se beneficiar é apenas uma parte dessa discussão. A outra é definir como uma tecnologia que ganhou espaço no tratamento do diabetes poderá chegar, de maneira sustentável, às pessoas que têm indicação para utilizá-la
