Crianças com diabetes podem seguir o calendário de vacinação normalmente? A dúvida é comum entre pais ou responsáveis, principalmente em relação ao risco de alterações na glicemia e à necessidade de ajustar a insulina. Para esclarecer essas e outras questões, o Portal Um Diabético ouviu o infectologista Igor Marinho.
Diabetes e maior risco de infecções
Segundo o especialista, crianças com diabetes têm sim maior risco de infecções. Isso não significa, porém, que toda criança terá quadros frequentes, especialmente quando o controle glicêmico está adequado. O problema é que algumas infecções podem evoluir com maior gravidade e descompensar rapidamente a glicemia, provocando cetose ou cetoacidose.
“As infecções que merecem mais atenção são influenza, covid-19, pneumonia pneumocócica, infecções urinárias, infecções de pele, inclusive nos locais de cateteres, candidíase e gastroenterites. Vômitos, dor abdominal, respiração rápida, sonolência, desidratação ou cetonas elevadas são sinais de alerta.” Igor Marinho | Infectologista
O calendário vacinal para crianças com diabetes
O calendário básico é o mesmo, mas algumas vacinas ganham importância especial. Nesse sentido, o infectologista destaca quatro prioridades: a vacina anual contra influenza e a vacinação contra covid-19. Também recomenda a revisão do esquema pneumocócico e a confirmação do esquema completo contra hepatite B. Conforme recomendação da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), pode ser indicada sorologia anti-HBs de um a dois meses após o término do esquema contra hepatite B.
O esquema pneumocócico precisa ser analisado conforme a idade e as vacinas já recebidas pela criança. Em alguns casos, pode haver indicação de complementação pelo CRIE.
Além disso, o diabetes isoladamente não contraindica nenhuma vacina. A criança pode receber inclusive vacinas vivas, como tríplice viral, varicela e febre amarela, quando indicadas. A restrição aparece apenas quando existe outra condição associada que provoque imunossupressão grave.
Impacto da vacina na glicemia
A vacina pode causar dor, febre baixa e uma resposta inflamatória passageira, o que pode elevar temporariamente a glicemia. Se a criança perder o apetite, também pode ocorrer hipoglicemia. Em geral, porém, essas alterações são leves e breves.
“Não há evidência de que crianças com diabetes apresentem sistematicamente reações mais fortes. O risco de descompensação provocado pela própria infecção costuma ser muito maior do que o provocado pela vacina”, explica Igor Marinho.
Insulina no dia da vacinação
No dia da aplicação, a insulina não precisa ser alterada. A orientação é manter a alimentação, a hidratação e o tratamento habituais, monitorando a glicose com mais frequência nas primeiras 24 a 48 horas. A insulina basal deve ser mantida sem interrupções, e as correções devem seguir o plano definido pela equipe de diabetes. Se houver hiperglicemia persistente, vômitos ou mal-estar importante, é necessário medir cetonas e seguir as orientações para os dias de doença.
Quando adiar a vacinação
Uma hemoglobina glicada elevada ou uma glicemia isoladamente acima da meta não são motivos para adiar a vacina. Não é necessário esperar um controle perfeito. O adiamento se justifica em casos de cetoacidose, cetose significativa, vômitos repetidos, desidratação, instabilidade clínica ou doença aguda moderada a grave. Depois da melhora, a vacina deve ser aplicada o quanto antes. Resfriado leve, febre baixa isolada ou uso de antibiótico por infecção leve, em geral, não impedem a vacinação.
Cuidado com sensores e bombas de insulina
A vacina deve ser aplicada no local recomendado para a idade, geralmente no deltoide ou na coxa, evitando áreas com lipohipertrofia, inflamação, hematomas ou infecção. Também não se deve aplicar a vacina sobre ou muito perto de sensores, cateteres ou conjuntos de infusão da bomba.
“Quando possível, oriento usar o membro oposto ao sensor para evitar o deslocamento do dispositivo e a confusão entre uma reação local da vacina e um problema do sensor”, explica o infectologista.
Erros mais comuns dos pais
Na prática clínica, os erros mais frequentes envolvem adiar as vacinas esperando uma HbA1c perfeita e acreditar que o diabetes contraindica vacinas vivas. Também é comum esquecer a dose anual contra influenza e as atualizações contra covid-19. Outros equívocos recorrentes incluem não revisar o esquema pneumocócico e alterar ou suspender a insulina por conta própria no dia da vacinação.
Além disso, é comum não medir cetonas quando surgem vômitos ou hiperglicemia persistente. Também é frequente interpretar febre baixa ou dor local como alergia à vacina e abandonar as doses seguintes. Por fim, chegar ao CRIE sem a caderneta de vacinação ou sem relatório com o diagnóstico da criança dificulta o atendimento.
Mensagem para pais de crianças recém-diagnosticadas
Para o infectologista, a vacina não é inimiga do controle glicêmico, pois faz parte da proteção da criança. Segundo ele, uma infecção pode provocar muito mais descompensação do que uma reação vacinal passageira.
Por isso, a recomendação é revisar a caderneta de vacinação com o pediatra, o endocrinologista ou o CRIE. Também vale manter as doses em dia e ter um plano claro para lidar com febre, hiperglicemia e cetonas. Dessa forma, vacinar ajuda a prevenir não apenas a infecção, mas também internações e episódios de cetoacidose.
