Quem recebe o diagnóstico de diabetes tipo 2 costuma ouvir recomendações genéricas sobre exercício físico, mas raramente entende o porquê delas. Segundo o fisiologista do exercício William Komatsu, a pergunta “qual o melhor exercício” parte de uma premissa equivocada. Na prática, o que determina o efeito sobre a glicose não é apenas o tipo de atividade. O fator principal é a intensidade com que ela é realizada.
Não existe um exercício “melhor”, mas há um que não pode faltar
De acordo com Komatsu, não existe um exercício mais indicado especificamente para o diabetes tipo 2. Isso porque a condição costuma vir acompanhada de perda de massa muscular. Por isso, o treinamento de fortalecimento é recomendado para qualquer pessoa com a doença, assim como seria para a população em geral. Além disso, o treino de força pode ser complementado por exercícios aeróbicos. Esses exercícios tendem a reduzir a glicose de forma mais aguda durante a própria sessão.
Como a intensidade muda o efeito sobre a glicose
Durante o exercício de intensidade mais baixa, o corpo ativa o transportador de glicose GLUT4. Esse mecanismo acelera a queda da glicemia ao longo da atividade. Já os exercícios de fortalecimento, dependendo da intensidade, podem ter o efeito oposto e até elevar a glicose temporariamente.
Ainda assim, essa lógica não é fixa. Uma caminhada muito rápida deixa de ter caráter aeróbio e passa a se comportar como anaeróbia. Isso pode reduzir ou até reverter a queda esperada da glicemia. Da mesma forma, um treino de fortalecimento com cargas leves e muitas repetições se aproxima do efeito aeróbio. Nesse caso, a queda da glicose durante o exercício tende a ser mais aguda. Portanto, segundo o fisiologista, o fator determinante não é a categoria do exercício, mas a intensidade em que ele é executado.
A caminhada depois das refeições como estratégia prática
Uma dica prática destacada por Komatsu para quem tem diabetes tipo 2 é caminhar depois das refeições. Uma caminhada de 15 a 30 minutos logo após o almoço ou o jantar já ajuda a evitar picos de glicose depois de comer.
Diferenças entre diabetes tipo 1 e tipo 2 na hora de se exercitar
Embora as orientações gerais sobre atividade física sejam as mesmas para os dois tipos de diabetes, existe uma diferença importante de risco. Quem tem diabetes tipo 1 usa insulina exógena e, por isso, apresenta insulina ativa no organismo durante o exercício. Isso aumenta o risco de hipoglicemia. Já o diabetes tipo 2 não carrega esse mesmo risco. Ainda assim, pessoas com os dois tipos podem praticar qualquer modalidade de exercício, desde que respeitadas as devidas precauções.
Orientações para quem recebeu o diagnóstico recentemente
Para quem está começando, o primeiro passo é obter liberação médica para a prática de exercícios. Em seguida, é preciso entender a dose de insulina utilizada e o horário de aplicação. Também é importante saber se já existe domínio da contagem de carboidratos. Essas informações costumam levar algum tempo para se consolidar após o diagnóstico.
O início do tratamento geralmente coincide com um quadro de hiperglicemia, tanto no tipo 1 quanto no tipo 2. Por isso, a recomendação nessa fase é priorizar exercícios de intensidade mais baixa. Eles provocam uma queda mais aguda da glicose durante a atividade. Segundo Komatsu, o treinamento de fortalecimento muscular pode ser incorporado à rotina depois que essa fase inicial é superada.
Monitoramento da glicose durante o exercício
Os sensores de glicose facilitam o acompanhamento em tempo real das variações causadas pelo exercício e por sua intensidade. No entanto, quem não tem acesso a essa tecnologia pode recorrer à glicemia capilar, com medições antes, durante e depois da atividade.
O fisiologista recomenda medir a glicemia 15 minutos antes do início do exercício e novamente no momento de começar. Essa comparação ajuda a identificar a tendência, se a glicose está subindo ou caindo. Durante a atividade, a medição é especialmente importante quando o valor está próximo de uma hipoglicemia. Ao final, uma nova aferição ajuda a avaliar o efeito da sessão como um todo. A ausência de sensor, portanto, não deve ser motivo para deixar de se exercitar.
O papel da prescrição médica e do profissional de educação física
Por fim, Komatsu destaca a importância de o médico registrar a recomendação de exercício no receituário, incluindo frequência semanal e tipo de treino. Segundo ele, pacientes tendem a seguir com mais consistência orientações formalizadas por escrito. Além disso, o profissional de educação física que acompanha pessoas com diabetes precisa ter conhecimento específico sobre sensores de glicose e bombas de insulina. Essa experiência permite ajustar o treino para um melhor controle metabólico.
