A chegada de novas canetas de semaglutida ao Brasil ampliou as opções disponíveis e também trouxe uma diferença que nem sempre é percebida pelo consumidor: embora tenham o mesmo princípio ativo, as semaglutidas podem ser produzidas por processos diferentes.
É o caso das versões obtidas por síntese química e da semaglutida de referência, produzida originalmente a partir de tecnologia de DNA recombinante. Mas essa diferença na fabricação interfere no controle da glicose ou na perda de peso?
Um estudo clínico de fase 3 publicado em 2026 na revista científica Diabetes, Obesity and Metabolism fez uma comparação direta entre as duas tecnologias. A pesquisa avaliou uma semaglutida sintética fabricada pela Sun Pharmaceutical Industries, na Índia, e o Ozempic, da Novo Nordisk, utilizado como medicamento de referência. O objetivo principal foi verificar se a versão sintética era não inferior à referência na redução da hemoglobina glicada.
No Brasil, a tecnologia sintética também está presente entre as novas opções de semaglutida que chegaram ao mercado. O Semavy é comercializado pela Mantecorp, marca do Grupo Hypera. A caneta é adquirida na Índia pela companhia para comercialização no mercado brasileiro.
É importante fazer uma ressalva: o estudo publicado não avaliou pacientes utilizando especificamente a marca Semavy comercializada no Brasil. O produto experimental descrito no artigo é identificado como semaglutida sintética fabricada pela Sun Pharmaceutical Industries. Portanto, os resultados apresentados na pesquisa devem ser atribuídos à formulação que efetivamente foi estudada.
Qual é a diferença entre semaglutida sintética e a de referência?
A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1, classe de medicamentos utilizada no tratamento do diabetes tipo 2 e, em determinadas formulações e indicações, no tratamento da obesidade.
A diferença discutida no estudo está na forma de obtenção do princípio ativo.
A semaglutida de referência tem origem em processo que envolve tecnologia de DNA recombinante. Já a versão investigada pelos pesquisadores é produzida por síntese química do peptídeo.
Antes do estudo de fase 3, os pesquisadores realizaram diferentes análises comparativas entre as formulações. Segundo o artigo, foram feitos testes físico-químicos, ensaios de atividade biológica e estudos de bioequivalência. Os autores relatam que as análises confirmaram estrutura primária e modificação por ácido graxo equivalentes, além de comparabilidade em potência e perfil de impurezas.
Isso não significa que qualquer produto apresentado como “semaglutida sintética” possa ser considerado automaticamente equivalente à semaglutida de referência. O resultado se refere ao produto investigado e depende de fatores como processo de fabricação, pureza, controle de qualidade, formulação e avaliação regulatória.
Estudo acompanhou 314 pessoas com diabetes tipo 2
O ensaio clínico foi randomizado, multicêntrico, aberto e realizado em 35 centros da Índia.
Participaram 314 adultos entre 18 e 65 anos com diabetes tipo 2. Para entrar no estudo, os voluntários precisavam apresentar hemoglobina glicada entre 7% e 10,5%, apesar do tratamento estável com metformina e de medidas relacionadas à alimentação e atividade física.
Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos de 157 pessoas. Um recebeu a semaglutida sintética e o outro, a semaglutida de referência. As aplicações eram semanais e os dois grupos seguiram o mesmo esquema de aumento progressivo das doses, que poderiam chegar a 2 mg por semana de acordo com a resposta glicêmica.
Dos 314 participantes inicialmente randomizados, 290 completaram as 24 semanas de tratamento.
Hemoglobina glicada caiu cerca de 2 pontos percentuais
O principal resultado analisado pelos pesquisadores foi a mudança na hemoglobina glicada, a HbA1c, exame utilizado para avaliar o controle da glicose ao longo dos últimos meses.
Depois de 24 semanas, a redução média foi de:
2,04 pontos percentuais com a semaglutida sintética e 1,95 ponto percentual com a semaglutida de referência.
A diferença estimada entre os tratamentos foi de 0,09 ponto percentual, com intervalo de confiança de 95% entre -0,26 e 0,09. O resultado ficou dentro do limite estabelecido previamente pelos pesquisadores para demonstrar não inferioridade.
Na prática, o estudo não demonstrou que a semaglutida sintética seja superior à de referência. O resultado indica que a formulação sintética avaliada não foi inferior à referência para o principal desfecho da pesquisa, que era a redução da HbA1c.
Cerca de 3 em cada 4 participantes chegaram a HbA1c abaixo de 7%
No início do estudo, a HbA1c média dos participantes era de aproximadamente 8,6% nos dois grupos.
Depois de 24 semanas, 74,6% das pessoas que receberam a semaglutida sintética e 74% das que receberam a semaglutida de referência apresentavam HbA1c abaixo de 7%. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos nesse resultado.
Também houve redução da glicemia de jejum. Na 24ª semana, a queda média foi de 52,8 mg/dL no grupo da semaglutida sintética e 50,3 mg/dL no grupo da referência.
Na glicemia após as refeições, as reduções chegaram a 94,3 mg/dL e 84,6 mg/dL, respectivamente. Apesar de terem aparecido diferenças estatísticas em alguns momentos do acompanhamento, os próprios pesquisadores alertam que esse achado deve ser interpretado com cautela por envolver múltiplas comparações e ter caráter exploratório.
E na perda de peso?
Os resultados sobre o peso foram muito próximos entre as duas formulações.
Depois de 12 semanas, os participantes haviam perdido, em média, 3,36 kg com a semaglutida sintética e 3,42 kg com a referência.
Na 24ª semana, a redução média chegou a 6,17 kg nos dois grupos.
Em percentual do peso corporal, a redução foi de 8,61% no grupo da semaglutida sintética e 8,39% no grupo da semaglutida de referência. Não houve diferença estatisticamente significativa na perda de peso entre os tratamentos.
O número precisa ser interpretado com cuidado. Isso não significa que uma pessoa que comece a utilizar semaglutida perderá necessariamente 6 kg em seis meses.
Os participantes da pesquisa tinham características específicas e foram acompanhados dentro de um protocolo clínico. O peso médio no início era de 71,7 kg entre aqueles que receberam a versão sintética e 73,24 kg no grupo da referência.
Além disso, o estudo foi realizado em pessoas com diabetes tipo 2 e não foi desenhado como um ensaio para avaliar especificamente o tratamento da obesidade.
Efeitos colaterais também foram semelhantes
Eventos adversos foram registrados em 56,7% dos participantes de cada grupo.
Os problemas gastrointestinais foram os mais frequentes, algo já conhecido nessa classe de medicamentos. Eles ocorreram em 43,3% dos participantes que receberam a semaglutida sintética e 46,5% dos que receberam a referência.
Entre os eventos relatados estavam náusea, vômito, diarreia e gastrite. A maioria foi considerada leve ou moderada.
Foram registrados três episódios de hipoglicemia durante a pesquisa, dois entre os participantes que receberam a semaglutida sintética e um no grupo da referência. O estudo também não detectou anticorpos contra os medicamentos após as 24 semanas de tratamento.
Afinal, sintética e biológica tiveram resultados diferentes?
Dentro das condições avaliadas neste estudo, não foi encontrada diferença relevante no principal resultado de controle glicêmico nem na perda de peso entre a semaglutida sintética estudada e a semaglutida de referência.
A sintética reduziu a HbA1c em 2,04 pontos percentuais, contra 1,95 ponto da referência. A perda média de peso foi de 6,17 kg nos dois grupos após 24 semanas.
O estudo, portanto, fornece evidência clínica de comparabilidade para a formulação sintética específica que foi investigada, mas não permite concluir que todas as semaglutidas sintéticas disponíveis no mercado sejam automaticamente equivalentes entre si ou à semaglutida de referência.
Para quem tem diabetes tipo 2, a escolha do medicamento deve considerar a indicação aprovada pela Anvisa, as características individuais, outras co
