A insulina inalável usa os pulmões para levar a insulina à corrente sanguínea. A proposta é substituir parte das aplicações injetáveis usadas nas refeições por uma inalação. A Afrezza, principal medicamento desse tipo nos Estados Unidos, tem ação ultrarrápida e foi desenvolvida para acompanhar a elevação da glicose após a alimentação. Estudos recentes também avaliaram como a dose utilizada interfere nos resultados do tratamento.
O que é a insulina inalável
A Afrezza é uma insulina de ação ultrarrápida indicada para o uso durante as refeições. O paciente coloca um cartucho no inalador e inspira o conteúdo pela boca.
A insulina chega aos pulmões e passa rapidamente para a corrente sanguínea. Por isso, o medicamento começa a agir em poucos minutos.
Nos Estados Unidos, a Afrezza atende adultos com diabetes tipo 1 ou tipo 2 que utilizam insulina nas refeições. No diabetes tipo 1, o tratamento também precisa manter a insulina basal.
Como a Afrezza age no diabetes
A ação rápida representa uma diferença em relação às insulinas injetáveis usadas nas refeições. Segundo as informações fornecidas para esta reportagem, a Afrezza começa a reduzir a glicemia em cerca de 12 minutos.
Além disso, seu efeito desaparece mais rapidamente. Essa característica pode reduzir o risco de hipoglicemia prolongada após a refeição.
A aplicação também muda a rotina. Em vez de preparar uma injeção antes de comer, a pessoa pode utilizar o inalador quando a refeição estiver disponível.
Isso pode ter impacto em situações como restaurantes, viagens e mudanças inesperadas no horário das refeições.

Por que a dose da insulina inalável virou uma questão
A conversão entre a insulina injetável e a inalável representa um dos pontos centrais do tratamento.
Quando a Afrezza recebeu aprovação, a orientação considerava uma conversão direta da dose injetável. Na prática, muitos pacientes apresentaram controle insuficiente da glicose após as refeições.
Como consequência, alguns apresentaram picos de glicemia mesmo seguindo a prescrição. Por outro lado, essa resposta levou parte dos profissionais a questionar a estratégia de dose.
Novos estudos passaram a avaliar se a quantidade inicial de insulina inalável deveria ser maior.

O que mostrou o estudo INHALE-3
O estudo INHALE-3 avaliou 123 adultos com diabetes tipo 1 durante 17 semanas. Os pesquisadores compararam a Afrezza com tratamentos tradicionais.
Ao final desse período, os dois grupos apresentaram média de A1C de 7,6%. Portanto, a média geral não mostrou diferença entre as estratégias.
Os resultados individuais, porém, apresentaram diferenças.
Entre os participantes que usaram Afrezza, 28% reduziram a A1C em pelo menos 0,5%. Enquanto isso, 21% apresentaram aumento desse índice.
Na avaliação do tempo dentro da faixa-alvo de glicose, 25% dos participantes apresentaram melhora. No entanto, 31% tiveram piora.
O estudo de extensão acompanhou os participantes por mais 13 semanas. Nesse período, 42% das pessoas que utilizaram Afrezza atingiram A1C abaixo de 7%.
Nenhum participante do grupo que manteve o tratamento tradicional alcançou esse resultado durante a extensão, segundo as informações apresentadas.
O que mudou na orientação de dose
Os dados do INHALE-3 indicaram que a conversão de um para um entre a insulina injetável e a inalável não funcionava para muitos pacientes.
A orientação passou a considerar uma dose inicial maior. Na prática, os dados apresentados indicam uma dose inicial próxima do dobro da quantidade de insulina injetável utilizada anteriormente.
Ainda assim, a resposta varia entre as pessoas. Por isso, o médico precisa ajustar a dose de acordo com cada tratamento.
A mudança também ajuda a explicar por que alguns pacientes tiveram resultados abaixo do esperado quando começaram a usar a insulina inalável.
Por que a glicose sobe depois das refeições
O controle da glicemia após as refeições representa uma dificuldade para muitas pessoas com diabetes tipo 1.
As insulinas de bolus tradicionais podem levar entre 15 e 20 minutos para começar a agir. Por isso, a pessoa geralmente precisa aplicar a dose antes de comer.
Essa antecipação nem sempre combina com a rotina. Em um restaurante, por exemplo, o horário da refeição pode mudar. O mesmo ocorre quando a pessoa ainda não sabe quanto conseguirá comer.
A insulina inalável permite administrar a dose mais próxima do momento da refeição. Além disso, a pessoa pode fazer ajustes durante ou depois da alimentação, conforme a quantidade consumida e os dados do sensor.
Quando a insulina inalável pode ser usada
Durante uma refeição, a pessoa pode utilizar a Afrezza quando a comida estiver disponível. A estratégia busca acompanhar a elevação da glicose após a alimentação.
Algumas pessoas também podem utilizar doses de correção antes de dormir. Nesse caso, o acompanhamento da glicose pelo sensor ajuda a identificar elevações durante a madrugada.
Refeições com maior quantidade de gordura ou proteína podem exigir atenção adicional. Esses nutrientes podem retardar a digestão e alterar o momento em que a glicose aumenta.
Por isso, algumas situações podem exigir uma segunda dose entre uma e três horas depois da refeição.
Quem não pode usar a insulina inalável
A Afrezza não é indicada para pessoas com doenças pulmonares, como asma ou DPOC. Como o medicamento chega ao organismo pelos pulmões, essa condição exige avaliação antes do tratamento.
O acompanhamento também inclui exames de função pulmonar.
No diabetes tipo 1, a insulina inalável não substitui a insulina basal. O paciente precisa manter a estratégia indicada pelo médico para controlar a glicose entre as refeições e durante o período de jejum.
Quais efeitos podem aparecer
Os dados apresentados apontam poucos episódios graves de hipoglicemia entre os usuários.
A tosse aparece como um dos efeitos relatados. Cerca de 23% dos usuários apresentaram tosse leve logo após a inalação.
Segundo as informações fornecidas, o sintoma geralmente foi controlado com um gole de água.
A presença de tosse ou outras reações precisa entrar na avaliação do tratamento, principalmente porque a administração ocorre diretamente pelos pulmões.
O que aconteceu com a insulina inalável no Brasil
A Afrezza recebeu aprovação da Anvisa em 2019. No entanto, o produto teve baixa utilização no país e acabou descontinuado.
Entre os fatores apontados nas informações disponíveis estão o custo, a baixa adesão e os resultados abaixo do esperado.
Segundo levantamento realizado pelo Um Diabético, o preço chegou a R$ 2.100.
A experiência também mostra como a estratégia de dose interfere na resposta ao tratamento. Os dados mais recentes sobre a conversão entre insulina injetável e inalável ajudam a explicar parte dos resultados observados anteriormente.
