O diagnóstico de diabetes tipo 1 na infância exige uma série de adaptações para toda a família. Além de monitorar a glicose, crianças e responsáveis precisam aprender a lidar com as aplicações diárias de insulina. Mas será que uma alternativa administrada pela respiração pode tornar essa rotina mais simples?
Essa possibilidade voltou a ganhar destaque durante o ISPAD 2026, congresso internacional sobre diabetes na infância e adolescência, realizado no Rio de Janeiro. Entre os assuntos discutidos, esteve o uso da insulina inalada em crianças que receberam recentemente o diagnóstico de diabetes tipo 1.
A endocrinologista pediátrica Dra. Carol Passone acompanhou uma das sessões e destacou os resultados apresentados, especialmente em relação ao tempo em que a glicose permaneceu dentro da faixa desejada.
O que mostrou o estudo?
Durante a apresentação, foram discutidos resultados de uma pesquisa que avaliou o uso da insulina inalada em crianças recém-diagnosticadas com diabetes tipo 1.
“Tivemos uma sessão muito interessante sobre a insulina inalada, coisas que vão e voltam no tratamento do diabetes”, comentou a médica.
Na estratégia descrita pela especialista, os participantes utilizaram insulina basal uma vez ao dia, associada a doses de insulina inalada de 2, 4 ou 8 unidades.
O objetivo era investigar uma alternativa que pudesse contribuir para o controle da glicose e simplificar o tratamento no período inicial após o diagnóstico.
“Foi muito interessante, eles conseguiram, nos pacientes avaliados, encontrar o melhor tempo no alvo, com doses simples e fáceis, no paciente que tinha acabado de abrir diagnóstico”, destacou a médica.
O tempo no alvo indica a porcentagem do dia em que a glicose permanece dentro da faixa estabelecida para o tratamento. Quanto maior esse período, melhor tende a ser o controle glicêmico, desde que isso não venha acompanhado de episódios excessivos de hipoglicemia.
Os resultados relatados são animadores, mas ainda é necessário considerar os dados completos da pesquisa para avaliar a dimensão dos benefícios e sua segurança.
Como funciona a insulina inalada?
Diferentemente das insulinas aplicadas por injeção, a versão inalada é administrada por um dispositivo que permite a absorção do medicamento pelos pulmões.
Sua principal característica é a ação rápida, que começa poucos minutos após a administração e ajuda a controlar a elevação da glicose depois das refeições.
O efeito também termina mais rapidamente do que o de algumas insulinas injetáveis utilizadas nas refeições.
Essa característica pode oferecer vantagens em determinadas situações, mas exige acompanhamento médico para ajustar as doses às necessidades de cada paciente.
É importante destacar que a insulina inalada não substitui a insulina basal, necessária para manter o organismo abastecido com insulina ao longo do dia e da noite.
Menos picadas podem facilitar o tratamento?
Um dos aspectos que mais chamaram a atenção durante a apresentação foi a possibilidade de tornar o início do tratamento menos complexo.
Nos primeiros meses após o diagnóstico, as famílias precisam aprender a calcular doses, acompanhar a glicose e compreender como alimentação, atividade física e outros fatores interferem no controle do diabetes.
Nesse contexto, reduzir parte das aplicações de insulina pode representar uma alternativa interessante, especialmente para crianças que apresentam dificuldades com as injeções.
“É uma coisa que a gente não estava ouvindo falar e agora a gente vê que ela pode ter uma boa ação, então eu acho que isso é incrível a gente poder tratar de uma forma mais tranquila do que as picadinhas todos os dias”, afirmou a Dra. Carol Passone.
A possibilidade, entretanto, depende da avaliação individual e das evidências científicas disponíveis. Nem todas as crianças poderão utilizar essa alternativa, especialmente aquelas com determinadas condições respiratórias.
Insulina inalada já esteve disponível no Brasil
Embora tenha voltado a ganhar destaque nas discussões científicas, a insulina inalada não é uma novidade.
No Brasil, a Anvisa aprovou uma formulação em 2019, mas sua comercialização foi posteriormente descontinuada.
Segundo levantamento do Portal Um Diabético, o tratamento chegou a custar aproximadamente R$ 2.100, valor que representava uma barreira importante para muitos pacientes.
A experiência mostrou que, além dos benefícios clínicos, fatores como custo, acesso e aceitação dos pacientes influenciam a utilização de novas tecnologias.
Nos Estados Unidos, a insulina inalada Afrezza recebeu, em maio de 2026, aprovação para uso em crianças e adolescentes a partir dos 6 anos, além dos adultos. A autorização não significa que o produto esteja novamente disponível no mercado brasileiro.
O tratamento também exige avaliação da função pulmonar e apresenta contraindicações, como asma e outras condições respiratórias crônicas.
Uma tecnologia antiga com novas possibilidades
A discussão no ISPAD 2026 reforçou que uma tecnologia pode deixar de ocupar espaço no tratamento e, ainda assim, continuar sendo estudada.
Com o avanço das pesquisas, alternativas já conhecidas podem ganhar novas aplicações e ser avaliadas em diferentes grupos de pacientes.
No caso da insulina inalada, o interesse está em compreender se ela pode contribuir para um controle adequado da glicose e oferecer mais praticidade, especialmente durante a adaptação ao diagnóstico de diabetes tipo 1.
Os resultados apresentados durante o congresso mostram que essa possibilidade continua despertando o interesse da comunidade científica. Mais do que substituir as opções existentes, o objetivo é ampliar as alternativas de tratamento e identificar quais pacientes podem se beneficiar de cada tecnologia.
