Aos 13 anos, Gabrielly Vitória Ferreira Silva Campaner concilia a rotina escolar, o tratamento do diabetes tipo 1 e os treinos de ginástica acrobática de alto rendimento. Moradora de São Paulo, ela conquistou, ao lado de sua dupla, os títulos de campeã municipal e estadual na categoria pré-infantil da modalidade.

A trajetória no esporte começou depois do diagnóstico de diabetes, recebido quando tinha apenas 7 anos. Para a mãe, Adriana da Costa Ferreira Campaner, de 43 anos, a conquista representa também uma mudança na maneira como a família passou a enxergar as possibilidades da filha.
Quando recebeu o diagnóstico, Adriana imaginava que a condição poderia limitar a vida da menina. Com o passar dos anos, os treinos e as competições mostraram que Gabrielly poderia desenvolver suas habilidades e seguir no esporte de alto rendimento.
Diagnóstico aconteceu após sinais de diabetes
O diagnóstico de Gabrielly ocorreu entre o final de novembro e o início de dezembro de 2019, quando ela começou a apresentar perda de peso e aumento da sede.
Segundo Adriana, a filha bebia muita água e também gostava de chá. Na época, a família havia passado por situações de estresse relacionadas à escola, incluindo problemas com uma professora que levaram à troca de sala.
A mãe procurou atendimento pediátrico, mas inicialmente ouviu que não havia motivo para preocupação. O médico solicitou exames, enquanto Gabrielly continuava apresentando alterações no comportamento e na disposição.
Na véspera de Natal, antes de receber os resultados, a menina passou mal durante um passeio a uma loja de brinquedos. Adriana percebeu que ela estava com taquicardia e apresentava coloração arroxeada na boca.
A família procurou imediatamente um hospital. Após a realização dos exames, a mãe encontrou o resultado da glicemia, que estava em 329 mg/dL.
Gabrielly foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por cetoacidose diabética, uma complicação que ocorre quando a falta de insulina faz o organismo produzir cetonas em excesso, deixando o sangue ácido. Ela também apresentava níveis muito baixos de potássio. A internação durou uma semana.
Tratamento começou com insulina NPH e regular
Após a alta hospitalar, Gabrielly iniciou o tratamento com insulina NPH e regular, aplicadas com seringas. Segundo Adriana, a filha apresentava episódios frequentes de hipoglicemia e hiperglicemia.
Como o hospital não contava com endocrinologista, a equipe médica colocou a família em contato com um grupo de mães de crianças com diabetes.
A participação no grupo ajudou Adriana a encontrar uma endocrinologista e buscar alternativas para o tratamento da filha.
Com o acompanhamento especializado e o acesso a tecnologias, a mãe relata que passou a ter mais autonomia e confiança para lidar com as variações da glicose.
Ginástica entrou na rotina após o diagnóstico
Gabrielly já demonstrava interesse pela ginástica desde pequena e tinha facilidade com flexibilidade. No entanto, o início da prática esportiva aconteceu depois do diagnóstico, período que também coincidiu com a pandemia de Covid-19.

Ela começou a treinar ginástica artística no Ginásio Bonifácio Cardoso, em Guarulhos. Posteriormente, também participou do projeto Brasileirinhos, idealizado pela ginasta Daiane dos Santos.
Mais tarde, a treinadora Ana Zarantonelli propôs que Gabrielly começasse a praticar ginástica acrobática, modalidade em que segue atualmente.
A ginástica acrobática combina elementos de equilíbrio, força, flexibilidade e movimentos coreografados realizados em dupla ou grupo.
Atualmente, a adolescente treina três vezes por semana, com sessões de quatro horas e meia.
Como Gabrielly controla a glicose durante os treinos
A rotina exige organização para conciliar escola, deslocamento, alimentação, atividade física e monitorização da glicose.
Gabrielly estuda pela manhã e chega em casa por volta das 12h15. Às 14h30, sai em direção a Guarulhos, onde treina das 16h às 20h30. Nos dias de treino, terça, quinta e sexta-feira, costuma chegar em casa por volta das 21h40, dependendo do trânsito.

Para acompanhar a glicemia, ela utiliza um sensor de monitorização contínua da glicose, que permite observar as variações dos níveis de açúcar no sangue ao longo do dia por meio do celular.
A adolescente também utiliza uma bomba de insulina da Roche, mas retira o equipamento durante os treinos.
Segundo Adriana, a decisão está relacionada à falta de um equipamento de reposição caso ocorra algum problema com a bomba durante a atividade. A família está tentando conseguir acesso a uma bomba modelo Nano.
A prática de exercícios exige atenção às respostas individuais da glicose. Durante e após atividades físicas, os níveis podem apresentar variações, incluindo episódios de hipoglicemia.
Por isso, o acompanhamento da glicemia e os ajustes no tratamento precisam considerar a intensidade, a duração e o tipo de exercício realizado.
Gabrielly já conquistou títulos na ginástica
Antes de começar na ginástica acrobática, Gabrielly participou de competições de ginástica artística, incluindo a Copa Nescau e os Jogos InterCEUs.
Na modalidade atual, ela compete em dupla. Recentemente, as atletas conquistaram os títulos de campeãs municipal e estadual de São Paulo na categoria pré-infantil.
Para Adriana, cada conquista representa também um avanço na confiança da família em relação ao futuro da filha.
Quando Gabrielly recebeu o diagnóstico, a mãe acreditava que o diabetes poderia impedir a menina de realizar algumas atividades.
“Quando ela foi diagnosticada, pensei que ela seria uma criança limitada, mas em cada treino ou campeonato ela me mostra que o diabetes não define ela”, relata Adriana.

Mãe fala sobre os desafios após o diagnóstico
Adriana conta que o período após a descoberta do diabetes foi marcado por dificuldades para compreender o tratamento e lidar com as mudanças na vida da família.
Ela também relata que passou a estudar sobre a condição e sobre as tecnologias disponíveis para o acompanhamento da glicose, buscando alternativas para reduzir os riscos de complicações futuras.
“Foi muito difícil. Uma parte de mim ficou no dia do diagnóstico, uma dor que não sei descrever. Tudo que queria era poder tirar dela e passar para mim”, conta.
A mãe também deixou uma mensagem para famílias que estão passando pelo diagnóstico recente de diabetes tipo 1 em crianças.
“Os primeiros dias são os piores da vida. Provavelmente passará pelo luto e pela negação, mas você vai perceber que quanto mais informação tiver, menos medo irá sentir. Isso vai te dando segurança. Não conseguimos dominar o diabetes 100%, então um dia de cada vez”, afirma.