Passar horas em um estádio, enfrentar filas, dançar e organizar a alimentação são alguns dos desafios para quem vive com diabetes e quer aproveitar um show. Para Gabriela Lourenço, que tem diabetes tipo 1 (DM1) desde os 6 anos, esses cuidados fazem parte da preparação para assistir ao show do BTS, grupo do qual é fã e que se apresenta em São Paulo nos dias 28, 30 e 31 de outubro.
Com mais de 30 anos de convivência com a condição, ela compartilha o que aprendeu para curtir os shows sem deixar de lado os cuidados com a glicemia.
“É totalmente possível curtir um show com diabetes, desde que você tenha responsabilidade de entender seus limites”, afirma.
A partir da própria experiência, Gabriela reúne dicas para quem também quer aproveitar esses shows e se preparar para imprevistos durante o evento.
1. Planeje a alimentação e a hidratação
Nos dias de show, Gabriela procura manter uma alimentação mais leve, com frutas e saladas, e dar atenção à hidratação. Como a entrada no estádio está prevista para as 16h, ela se organiza para almoçar antes de sair de casa e faz um lanche antes de entrar. Também leva barras de cereal na pochete, caso sinta fome durante a apresentação.
Em shows menores, nos quais tem mais facilidade para comprar comida, ela faz a contagem de carboidratos de acordo com o que pretende consumir. A estratégia é utilizada por pessoas com diabetes tipo 1 para adequar a dose de insulina à quantidade de carboidratos ingerida, conforme o plano de tratamento individual.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) recomenda a contagem de carboidratos como uma ferramenta para o manejo da alimentação no diabetes tipo 1. O método permite maior flexibilidade nas escolhas alimentares, sem exigir a exclusão de alimentos que contêm carboidratos. A aplicação, porém, depende das orientações da equipe de saúde e das necessidades de cada pessoa.
2. Leve os insumos e tenha um plano B
Gabriela usa bomba de insulina, mas não depende apenas do equipamento. Ela também leva canetas de insulina para situações em que a bomba apresenta algum problema, como uma obstrução da cânula. Outro item indispensável são os carboidratos de ação rápida, como balas, que ela mantém à mão para tratar episódios de hipoglicemia, quando a glicose no sangue fica abaixo do recomendado.
Para facilitar a entrada nos eventos com os materiais necessários, Gabriela também costuma levar um relatório da médica que a acompanha, explicando suas necessidades relacionadas ao diabetes. Segundo ela, nunca teve esses itens barrados na entrada. A recomendação é conferir com antecedência as regras do evento para medicamentos, dispositivos e alimentos, além de verificar quais documentos podem ser solicitados. Como os procedimentos variam de acordo com a organização, não é seguro presumir que a entrada de todos os itens esteja garantida.
3. Saiba como a empolgação pode afetar a glicemia
Dançar, pular e cantar por horas também podem influenciar a glicemia. No caso de Gabriela, a adrenalina costuma contribuir para a elevação da glicose, e ela já espera que isso possa acontecer durante o show. Mesmo com experiência, ela já enfrentou episódios de hipoglicemia e hiperglicemia em apresentações musicais. Entretanto, em cada situação, procura observar a glicemia e agir de acordo com as orientações que segue para o tratamento.
Quando percebe uma hipoglicemia, recorre aos carboidratos de ação rápida que leva consigo e diminui o ritmo até se recuperar. Já diante de uma hiperglicemia, acompanha as informações do sensor, incluindo as setas de tendência, para avaliar a evolução da glicose. Gabriela explica que a bomba de insulina que utiliza conta com recursos de correção automática. Quando está com canetas, segue as orientações de correção definidas para seu tratamento.
A experiência dela reforça a importância de conhecer os próprios padrões de glicemia e ter um plano de ação para situações de hipo e hiperglicemia. A resposta do organismo à atividade física e à emoção varia de pessoa para pessoa, por isso não existe uma única estratégia que sirva para todos.
4. Cuide da glicemia mesmo em meio à multidão
Em um estádio lotado, encontrar um banheiro ou um espaço para se sentar nem sempre é fácil. Gabriela conta que, quando precisa administrar insulina, faz isso com a caneta ou pela bomba, mesmo no meio do público. Nessas situações, ela pede licença e solicita às pessoas ao redor que abram espaço.
“Sempre fui respeitada nessa necessidade”, conta.
A experiência também mostra como o respeito às necessidades de quem vive com diabetes faz diferença. Ter que administrar insulina ou verificar a glicemia não deve ser motivo de constrangimento, e o acesso aos cuidados necessários não precisa ficar em segundo plano durante um momento de lazer.
5. Conheça seu corpo e respeite seus limites
Para quem vai ao primeiro show depois do diagnóstico, Gabriela tem um conselho:
“Tenha conhecimento sobre sua condição e o seu corpo”.
Segundo ela, conhecer as próprias necessidades ajuda a tomar decisões diante de situações inesperadas e a aproveitar melhor a experiência. A fã conta que nunca deixou de ir a um show por medo de passar mal. A autonomia que construiu desde a infância, com o apoio dos pais, foi importante nesse processo. Para Gabriela, entender como o diabetes funciona no próprio corpo permite planejar a saída sem abrir mão de atividades que fazem parte de sua vida.
Isso não significa ignorar os riscos, mas se preparar para lidar com eles. Levar os insumos necessários, saber como agir diante de alterações da glicemia e planejar a alimentação são medidas que podem contribuir para uma experiência mais segura.
O que a organização do show precisa oferecer?
Além dos cuidados individuais, Gabriela chama a atenção para questões que dependem da estrutura dos eventos. A hidratação é uma das principais preocupações, já que nem sempre é possível entrar com a quantidade de água necessária e o acesso à bebida durante o show pode ser difícil.
Ela também defende procedimentos de entrada mais acessíveis, porque filas longas podem ser desgastantes, e equipes preparadas para lidar com as necessidades de pessoas com diabetes.
Na avaliação da fã, é importante que os profissionais saibam orientar o público e que ninguém precise justificar repetidamente sua condição ou correr o risco de ter medicamentos e insumos essenciais barrados.
A reportagem procurou a Live Nation Brasil e o MorumBIS para saber quais são os procedimentos para a entrada de medicamentos, insumos para o controle do diabetes e alimentos para tratar a hipoglicemia, além da estrutura de atendimento médico disponível durante os shows. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno.
Um sonho que vai além do show
Para Gabriela, assistir ao BTS representa a realização de um sonho. Viver com uma condição crônica não impediu que ela construísse uma relação com a música e com os shows, mas esse caminho também exigiu aprendizado, adaptação e apoio. Ela reconhece que hoje conta com tratamento moderno e acompanhamento médico de qualidade, mas lembra que precisou superar obstáculos ao longo da vida com diabetes tipo 1.
Ao compartilhar sua experiência, Gabriela espera que crianças e adolescentes que também vivem com DM1 consigam enxergar possibilidades para além dos cuidados diários com a condição.
“Nunca permiti que eles me intimidassem”, afirma
