Imagine sentir tremores, suor frio ou fraqueza, sintomas que podem indicar uma queda da glicose, mas olhar para o sensor e encontrar um valor dentro da faixa esperada. Em uma situação como essa, será que é possível confiar apenas no número apresentado pelo dispositivo?
Os sensores de glicose facilitaram a rotina de muitas pessoas com diabetes, permitindo acompanhar as variações ao longo do dia sem a necessidade de tantas picadas nos dedos. Entretanto, essa tecnologia não elimina completamente o uso do glicosímetro.
A enfermeira Gabriela Cavicchioli, educadora em diabetes, explica que existem momentos em que a medição tradicional, conhecida como glicemia capilar, continua sendo necessária para confirmar os resultados e ajudar a tomar decisões com mais segurança.
“O uso de sensor de glicose exclui a necessidade de fazer a glicemia capilar, a famosa ponta do dedo? Não, pessoal. Não exclui”, esclarece.
Por que o sensor e o glicosímetro podem mostrar valores diferentes?
A diferença está na maneira como cada dispositivo mede a glicose. Enquanto o glicosímetro utiliza uma pequena amostra de sangue retirada da ponta do dedo, o sensor acompanha a concentração de glicose no líquido intersticial, presente entre as células do organismo.
Quando a glicose está relativamente estável, os resultados costumam ser próximos. Entretanto, durante mudanças rápidas, como após uma refeição, uma atividade física ou a correção de uma hipoglicemia, podem aparecer diferenças entre as medições.
Isso acontece porque as alterações da glicose no líquido intersticial não ocorrem exatamente ao mesmo tempo que no sangue. Por esse motivo, o sensor pode levar alguns minutos para refletir uma subida ou queda que já começou.
Essa diferença não significa necessariamente que o equipamento esteja apresentando um defeito. Trata-se de uma característica da tecnologia, que precisa ser considerada na interpretação dos resultados.
Quando é necessário fazer o teste na ponta do dedo?
Uma das principais recomendações é realizar a glicemia capilar quando os sintomas não correspondem ao resultado apresentado pelo sensor.
Por exemplo, uma pessoa pode apresentar tontura, tremores, palpitações ou suor frio, sinais que podem indicar hipoglicemia, enquanto o dispositivo mostra uma glicose aparentemente normal.
Nessas situações, a medição na ponta do dedo ajuda a verificar se o valor apresentado corresponde ao que está acontecendo no organismo.
“O principal é quando aquilo que você está sentindo não está batendo com o que você vê no sensor. E é muito importante a gente conferir para ter certeza de que o valor do sensor está adequado”, orienta Gabriela.
As diretrizes da Associação Americana de Diabetes (ADA) também recomendam que pessoas que utilizam sistemas de monitoramento contínuo tenham acesso a um glicosímetro, especialmente quando houver dúvidas sobre a precisão das leituras ou incompatibilidade entre os sintomas e os resultados.
Além disso, o teste capilar pode ser necessário quando o sensor apresenta mensagens de erro, deixa de fornecer leituras ou indica a necessidade de confirmação, conforme as instruções do fabricante.
Corrigiu uma hipoglicemia e o sensor continua mostrando glicose baixa?
Outra situação importante acontece após o tratamento de uma hipoglicemia.
Quando a glicose cai, a pessoa pode precisar consumir carboidratos de rápida absorção para corrigir o episódio, seguindo as orientações da equipe de saúde. Entretanto, mesmo depois da ingestão, o sensor pode continuar mostrando valores baixos durante alguns minutos.
Isso ocorre porque a glicose no sangue pode começar a subir antes que a mudança seja identificada pelo sensor.
“Além disso, em algum momento, por exemplo, de hipoglicemia, que você já fez a correção e tá na dúvida se a glicose tá subindo, porque você ainda tá sentindo um pouco da sensação de hipoglicemia, a gente pode conferir na capilar”, explica a enfermeira.
Segundo Gabriela, essa diferença pode gerar ansiedade e levar a pessoa a consumir mais carboidratos do que o necessário, acreditando que a primeira correção não funcionou.
“E às vezes isso pode dar aquele desespero, porque ainda tem um pouco de sensação, e a gente hipercorrigir essa glicemia”, acrescenta.
Por isso, é importante respeitar o intervalo recomendado para reavaliar a glicose após o tratamento de uma hipoglicemia. A medição capilar pode ajudar nessa avaliação, evitando decisões baseadas exclusivamente em uma leitura que ainda não acompanhou a mudança no sangue.
Em casos de hipoglicemia grave, com perda de consciência, convulsões ou incapacidade de engolir com segurança, é necessário atendimento de emergência. Não se deve oferecer alimentos ou líquidos pela boca nessas situações.
Quem usa sensor precisa carregar o glicosímetro?
Mesmo com os avanços tecnológicos, manter um glicosímetro e tiras de teste disponíveis continua sendo uma medida importante para pessoas que utilizam sensores de glicose.
O monitoramento contínuo oferece informações que vão além de uma medição isolada. Ele permite acompanhar tendências, identificar padrões ao longo do dia e observar como a glicose responde à alimentação, aos exercícios e ao tratamento.
Já o teste capilar funciona como uma ferramenta complementar, especialmente quando existe alguma dúvida sobre os valores apresentados.
Isso não significa que seja necessário realizar os dois tipos de medição o tempo todo. A frequência dos testes na ponta do dedo depende das características do sensor, do tratamento utilizado e das recomendações da equipe de saúde.
O principal cuidado é compreender que o sensor facilita o acompanhamento do diabetes, mas não substitui completamente o glicosímetro em todas as circunstâncias. Como destaca Gabriela Cavicchioli, a glicemia capilar continua tendo um papel importante em momentos específicos, principalmente quando o resultado do dispositivo não corresponde aos sintomas ou quando há dúvidas após a correção de uma hipoglicemia.
