O exame de glicose está dentro do esperado, mas, durante uma consulta, surge uma expressão que nem todo mundo conhece: resistência à insulina. Se o açúcar no sangue ainda não está alto, por que é preciso prestar atenção?
A explicação está no esforço que o organismo pode estar fazendo para manter esse resultado. Quando a insulina encontra dificuldade para exercer sua função, o pâncreas pode aumentar a produção do hormônio para compensar. Durante algum tempo, essa resposta consegue manter a glicose em níveis normais. Quando a compensação deixa de ser suficiente, a glicemia pode subir. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) descreve esse mecanismo no desenvolvimento do diabetes tipo 2.
A resistência à insulina merece acompanhamento, mas sua presença não significa que a pessoa obrigatoriamente desenvolverá diabetes. Alimentação, atividade física e cuidados com o peso e o sono fazem parte das medidas que ajudam a melhorar a saúde metabólica.
O que é resistência à insulina?
A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas. Entre suas funções, está ajudar a glicose a entrar nas células dos músculos, onde pode ser utilizada como energia, e regular a quantidade de glicose liberada pelo fígado.
Resistência à insulina significa que o organismo responde menos à ação desse hormônio. Com isso, pode precisar de uma quantidade maior de insulina para obter uma resposta semelhante.
Segundo a SBEM, essa dificuldade também envolve o metabolismo das gorduras. É por isso que a avaliação vai além do açúcar no sangue e considera outros aspectos da saúde.
O excesso de gordura corporal, especialmente na região abdominal, e a inatividade física estão entre os fatores relacionados ao problema. Entretanto, pessoas sem sobrepeso também podem apresentar resistência à insulina. A aparência, sozinha, não permite identificar a condição.
O que a resistência à insulina pode causar no organismo?
Uma das principais consequências possíveis é a elevação da glicose. Quando a produção de insulina já não consegue compensar a menor resposta do organismo, podem surgir o pré-diabetes e, posteriormente, o diabetes tipo 2. Essa evolução depende de diferentes fatores e não acontece da mesma maneira em todas as pessoas.
A resistência à insulina também está relacionada a alterações que frequentemente aparecem juntas: aumento da gordura abdominal, pressão alta, triglicerídeos elevados e redução do HDL, conhecido como colesterol “bom”. A combinação dessas alterações pode caracterizar a síndrome metabólica, associada a maior risco de doenças cardiovasculares. Isso não significa que todas sejam causadas exclusivamente pela resistência à insulina.
Outra associação é com o acúmulo de gordura no fígado, chamado de esteatose hepática. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) aborda essa doença dentro de um contexto que inclui resistência à insulina, alterações das gorduras no sangue, hipertensão e diabetes.
Como saber se tenho resistência à insulina?
Não é necessário esperar sentir alguma coisa para procurar avaliação. A investigação considera histórico familiar, condições de saúde, medidas corporais, pressão arterial e exames indicados pelo profissional.
Exames como glicemia de jejum, hemoglobina glicada e, em determinadas situações, teste de tolerância à glicose ajudam a verificar se já existem alterações do açúcar no sangue. Resistência à insulina e pré-diabetes não são sinônimos: o pré-diabetes é identificado por alterações nos exames de glicose, enquanto a resistência pode existir antes dessas mudanças.
6 medidas que ajudam a melhorar a resistência à insulina
1. Colocar a atividade física na rotina
O exercício ajuda o organismo a utilizar a glicose e melhora a resposta à insulina. Para pessoas com pré-diabetes, a SBD recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica de intensidade moderada, com adaptação às condições individuais.
Uma possibilidade é distribuir caminhadas ao longo da semana. Quem está parado pode começar com períodos menores e aumentar gradualmente.
2. Incluir exercícios de força
Musculação, exercícios com elásticos e outras atividades de fortalecimento também podem fazer parte do cuidado.
Para pessoas com diabetes tipo 2, a SBD recomenda combinar exercícios aeróbicos e de força. A orientação inclui fortalecimento de duas a três vezes por semana, em dias não consecutivos, conforme a capacidade e as necessidades de cada pessoa.
3. Interromper períodos prolongados sentado
Além de reservar um horário para se exercitar, vale observar o restante do dia. Levantar durante o trabalho e fazer pequenos deslocamentos a pé são formas de reduzir o tempo sedentário.
A SBD recomenda que pessoas com pré-diabetes ou diabetes tipo 2 diminuam o tempo diário em atividades sedentárias. Essas pausas complementam a prática regular de exercício.
4. Melhorar a alimentação com escolhas possíveis
Feijão, verduras, legumes, frutas inteiras e cereais integrais ajudam a compor uma alimentação com mais fibras. Outra medida é reduzir bebidas açucaradas, como refrigerantes e refrescos.
A SBD destaca que não existe uma única estratégia alimentar adequada para todos. O planejamento precisa considerar preferências, rotina, recursos e necessidades nutricionais. Não se trata de escolher um alimento “milagroso”, mas de construir um padrão que possa ser mantido.
5. Cuidar do peso quando houver indicação
Para quem tem sobrepeso ou obesidade, a redução de peso pode melhorar a sensibilidade à insulina.
No estudo Diabetes Prevention Program, citado pela SBD, uma intervenção que combinou alimentação, atividade física e meta de perda de pelo menos 7% do peso reduziu em 58% o risco relativo de desenvolver diabetes tipo 2 durante o acompanhamento, em comparação com placebo. O resultado foi observado em pessoas com alto risco e não representa uma garantia individual.
6. Dar atenção ao sono e manter o acompanhamento
A duração e a qualidade do sono também fazem parte do cuidado metabólico. Na diretriz de tratamento do diabetes tipo 2, a SBD inclui melhora do sono, controle do estresse e cessação do tabagismo entre as medidas recomendadas.
O acompanhamento permite verificar glicose, pressão e colesterol e definir se há necessidade de medicamentos. O tratamento depende das condições associadas e da avaliação individual.
É possível melhorar a resistência à insulina?
Sim. A resposta do organismo ao hormônio pode melhorar com atividade física, mudanças alimentares, redução de peso quando indicada e tratamento das condições associadas. A intensidade da melhora varia conforme as causas e as características de cada pessoa.
Suplementos não substituem esse cuidado. A Anvisa alerta que produtos vendidos com promessas de tratar resistência à insulina não devem ser usados como substitutos de tratamentos médicos. A prioridade é identificar o que precisa ser cuidado e estabelecer medidas que façam sentido para a rotina.
