Aos 95 anos, Dona Carmen Wills revela pela primeira vez uma história que viveu há mais de três décadas. Em 1994, aos 63 anos, ela descobriu um câncer de mama após perceber uma alteração ao tocar o próprio corpo. O tratamento envolveu cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Na época, ela já convivia com diabetes havia décadas e precisou redobrar os cuidados com a glicose.
A experiência ganha destaque durante o Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama. Além de compartilhar como enfrentou a doença e avaliar o atendimento recebido pela rede pública, Dona Carmen faz um alerta sobre a importância de manter os exames em dia e não adiar os cuidados com a saúde.
Sua história também levanta uma questão importante: ter diabetes aumenta o risco de desenvolver câncer de mama? O mastologista Dr. André Mattar explica a relação entre as duas condições e os cuidados necessários durante o tratamento.
Dona Carmen enfrentou o câncer de mama e precisou redobrar os cuidados com o diabetes
Após receber o diagnóstico em 1994, Dona Carmen iniciou o tratamento no Hospital A.C.Camargo, onde passou por diferentes procedimentos e recebeu acompanhamento médico contínuo.
“Eu passei por cirurgia, procedimento de quimio e rádio e também o diabetes foi vigiado o tempo todo. Fiquei cinco anos em retornos contínuos até ter alta.”
Durante a quimioterapia e a radioterapia, o controle da glicose se tornou um dos principais desafios. As oscilações exigiram acompanhamento do endocrinologista e mudanças nas doses utilizadas para tratar o diabetes.
“Sim, foi muito complicado. Especialmente na época das químios e da rádio. E muita descompensação. E lá o endócrino tinha que mudar as dosagens. Foi bem complicado.”
Uma das lembranças mais marcantes veio quando recebeu alta do acompanhamento oncológico. Segundo Dona Carmen, o médico lhe disse: “De câncer a senhora não morre, mas continue cuidando do seu diabetes.”
A frase permaneceu na memória da paciente e reforça a importância que o acompanhamento do diabetes teve durante sua recuperação.
Como o tratamento do câncer pode afetar a glicose?
A experiência de Dona Carmen ilustra uma situação que exige atenção das equipes médicas. Segundo o Dr. André Mattar, ter diabetes não impede o tratamento do câncer de mama, mas pode aumentar o risco de algumas complicações.
Na cirurgia, a glicemia persistentemente elevada pode dificultar a cicatrização e aumentar o risco de infecções. Durante a quimioterapia, os corticoides utilizados para prevenir náuseas e outras reações podem provocar aumentos importantes da glicose.
“Na químio, a gente normalmente usa corticoide, para prevenir enjoo e outras alterações, como eventualmente até alergias, isso pode elevar bastante a glicose e alguns quimioterápicos podem agravar a neuropatia, então pode ter dormência nas mãos e pés e o diabetes também pode causar isso.”
O especialista explica que determinados tratamentos hormonais também podem contribuir para ganho de peso e alterações metabólicas. Por isso, em alguns casos, é necessário modificar as doses de insulina ou de outros medicamentos utilizados no controle do diabetes.
O acompanhamento conjunto entre oncologista, mastologista e endocrinologista é fundamental. Dependendo do caso, nutricionistas, enfermeiros e outros profissionais também participam dos cuidados. O objetivo é garantir que o tratamento do câncer de mama seja realizado com segurança, enquanto o diabetes continua sendo acompanhado.
Ter diabetes aumenta o risco de câncer de mama?
De acordo com Mattar, pesquisas que reúnem resultados de diferentes estudos indicam que mulheres com diabetes tipo 2 apresentam risco aproximadamente 20% maior de desenvolver câncer de mama em comparação com mulheres sem a condição.
“A gente tem algumas meta-análises, que são aqueles estudos que juntam vários outros estudos, que mostram que mulheres com diabetes tipo 2, elas têm um risco cerca de 20% maior de desenvolver câncer de mama.”
Essa associação envolve fatores como excesso de insulina no organismo, inflamação crônica e obesidade, especialmente após a menopausa. O excesso de peso é um fator de risco compartilhado pelas duas doenças.
Isso não significa que toda mulher com diabetes desenvolverá câncer. O percentual representa um aumento relativo do risco, e não uma probabilidade individual de 20% de ter a doença. Os resultados também se referem principalmente ao diabetes tipo 2, não podendo ser automaticamente aplicados ao tipo 1.
O especialista acrescenta que mulheres com diabetes tipo 2 podem apresentar um prognóstico menos favorável após o diagnóstico, embora a evolução dependa de diferentes fatores clínicos.
Diagnóstico precoce: quais sinais e exames merecem atenção?
O câncer de mama geralmente apresenta os mesmos sinais em mulheres com ou sem diabetes. Entre os principais alertas estão nódulos na mama ou na axila, alterações na pele, retração do mamilo, vermelhidão persistente e saída espontânea de secreção, especialmente com sangue.
Mattar também explica que existe uma alteração benigna chamada mastopatia diabética, que pode formar nódulos endurecidos semelhantes aos de um tumor. Por isso, qualquer alteração suspeita precisa ser investigada.
O diagnóstico precoce aumenta as possibilidades de tratamentos menos agressivos e de preservação da mama. Segundo o especialista, tumores identificados em fases iniciais podem apresentar chances de cura superiores a 90%, dependendo das características da doença.
A mamografia é o principal exame de rastreamento. A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda sua realização anual a partir dos 40 anos para mulheres de risco habitual. No SUS, o Ministério da Saúde orienta o rastreamento populacional a cada dois anos entre 50 e 74 anos, com possibilidade de acesso ao exame entre 40 e 49 anos, mesmo sem sintomas, mediante decisão compartilhada com o profissional de saúde.
Mulheres com diabetes, por si só, seguem as mesmas orientações de rastreamento. Entretanto, fatores como histórico familiar podem exigir acompanhamento individualizado.
É importante lembrar que perceber alterações no próprio corpo, como aconteceu com Dona Carmen, ajuda a identificar sinais de alerta, mas não substitui a mamografia. Na presença de sintomas suspeitos, a investigação deve ocorrer independentemente da idade ou da data do próximo exame de rotina.
O papel do SUS no diagnóstico e no tratamento
Dona Carmen destaca a assistência recebida durante o período em que enfrentou o câncer de mama. Segundo ela, a qualidade do atendimento e a dedicação dos profissionais marcaram sua experiência.
“Eu achei que foi excelente. Médicos muito bons, muito dedicados, sempre muito bem tratados. Eu recomendo e elogio a rede pública de atendimento.”
Após a alta, ela continuou o acompanhamento com a médica Joílma Lima, profissional que conheceu durante o tratamento e que passou a atendê-la posteriormente na rede particular.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece mamografia, exames para investigação, cirurgias, quimioterapia, radioterapia e outros tratamentos oncológicos, conforme a necessidade de cada paciente.
A Unidade Básica de Saúde (UBS) costuma ser a porta de entrada para avaliação e encaminhamento aos serviços especializados. A legislação brasileira estabelece prazo de até 30 dias para realização dos exames necessários à confirmação diagnóstica quando há suspeita principal de câncer de mama e, em regra, até 60 dias para o início do primeiro tratamento após o diagnóstico confirmado.
Apesar dessas garantias, reduzir o tempo entre a identificação de uma alteração suspeita e o início do tratamento continua sendo um desafio importante.
O cuidado precisa ser o ano inteiro
Mais de 30 anos depois do diagnóstico de câncer de mama, Dona Carmen mantém uma mensagem de conscientização para outras mulheres, especialmente aquelas que também convivem com diabetes.
“Eu sempre aconselho as pessoas, tanto no diabetes quanto em qualquer outra enfermidade, que sigam sempre a rotina de exames, porque é indispensável para a prevenção e evitar encontrar uma enfermidade já em estado avançado.”
Embora a realização de exames não impeça o aparecimento do câncer de mama, o rastreamento e a investigação de sinais suspeitos podem permitir a identificação da doença em estágios iniciais, aumentando as possibilidades de sucesso do tratamento.
O Dr. André Mattar reforça que manter hábitos saudáveis, cuidar da glicemia e realizar os exames indicados são atitudes importantes para a saúde. Ele também orienta que nenhuma alteração suspeita seja ignorada ou deixada para a próxima consulta de rotina.
“E lembre-se que o outubro rosa dura apenas um mês, mas o cuidado precisa ser o ano inteiro.”