Uma glicose de 120 mg/dL em jejum pode estar dentro da meta de tratamento de um adulto com diabetes e, ao mesmo tempo, indicar uma alteração que merece investigação em quem ainda não tem diagnóstico. Essa diferença ajuda a esclarecer uma dúvida frequente: afinal, qual é o nível adequado de açúcar no sangue?
A resposta depende do momento da medição, do diagnóstico e das condições de cada pessoa. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a referência geral para adultos com diabetes é manter a glicemia entre 80 e 130 mg/dL em jejum e abaixo de 180 mg/dL duas horas após o início da refeição. Esses objetivos precisam ser individualizados pela equipe de saúde.
Já o pré-diabetes é identificado por exames que mostram glicose acima da faixa normal, mas abaixo dos critérios de diabetes. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) orienta que alterações nos exames sejam avaliadas por um médico, que poderá confirmar o resultado e definir a conduta.
Quais são os valores que indicam pré-diabetes?
Para investigar alterações da glicose, os profissionais podem solicitar glicemia de jejum, hemoglobina glicada ou teste oral de tolerância à glicose, conhecido como curva glicêmica. Os principais valores de referência para pessoas fora da gestação são:
| Exame | Faixa normal | Pré-diabetes | Critério para diabetes |
|---|---|---|---|
| Glicemia de jejum | Abaixo de 100 mg/dL | 100 a 125 mg/dL | A partir de 126 mg/dL |
| Hemoglobina glicada | Abaixo de 5,7% | 5,7% a 6,4% | A partir de 6,5% |
| Glicemia duas horas após ingestão de 75 g de glicose no laboratório | Abaixo de 140 mg/dL | 140 a 199 mg/dL | A partir de 200 mg/dL |
A SBD também reconhece critérios para a medição de uma hora na curva glicêmica. Quando apenas um exame apresenta resultado compatível com diabetes, ele deve ser repetido para confirmação, conforme a avaliação clínica.
É importante observar que a curva feita no laboratório não equivale à medição após uma refeição comum. O exame utiliza uma quantidade padronizada de glicose, em condições específicas.
Em conteúdo educativo, a SBEM também identifica a glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL como alterada e reforça a necessidade de investigação. Um resultado isolado não deve levar à automedicação.
Quem tem pré-diabetes deve buscar qual resultado?
Os números que definem pré-diabetes descrevem uma alteração, e não uma meta a ser mantida. O cuidado busca reduzir o risco de progressão para diabetes tipo 2 e, quando possível, fazer os exames retornarem à faixa normal.
A SBD recomenda mudanças na alimentação e atividade física regular para todas as pessoas com pré-diabetes, com redução de peso quando houver sobrepeso ou obesidade. Medicamentos podem ser considerados em situações específicas, após avaliação médica.
A evolução para diabetes não é inevitável, mas o acompanhamento continua necessário mesmo quando os resultados melhoram.
Como saber se o diabetes está controlado?
Além das medições ao longo do dia, a avaliação inclui a hemoglobina glicada, ou HbA1c, exame que reflete a exposição à glicose nos meses anteriores. Para muitos adultos, a meta geral é abaixo de 7%, desde que isso não provoque episódios graves ou frequentes de hipoglicemia, a queda excessiva da glicose.
Nos sensores, outra medida é o tempo no alvo: a parcela do dia em que a glicose permanece entre 70 e 180 mg/dL. Para muitos adultos, busca-se mais de 70% do tempo nessa faixa. Isso não significa que 180 mg/dL seja uma meta de jejum.
Uma medição isolada também não descreve todo o controle do diabetes. É necessário observar o conjunto dos resultados, incluindo as elevações, as quedas e a frequência com que acontecem.
Crianças, adolescentes, idosos e pessoas com maior risco de hipoglicemia podem precisar de objetivos específicos. Gestantes também têm metas próprias, que devem ser discutidas no acompanhamento pré-natal.
A glicose pode estar alta sem provocar sintomas
Esperar sentir algum desconforto pode atrasar a identificação da hiperglicemia, nome dado à glicose elevada.
“Os sintomas da hiperglicemia, eles são mais leves, eles não são tão rápidos quanto o da hipoglicemia”, explica o endocrinologista pediátrico Luis Eduardo Calliari, da Santa Casa de São Paulo.
O médico destaca que algumas pessoas se sentem bem mesmo com valores elevados.
“Só que como isso num primeiro momento é assintomático, a pessoa não sente nada, as pessoas às vezes deixam passar.”
Quando aparecem, os sinais podem incluir sede excessiva, aumento da urina, cansaço, visão embaçada e perda de peso sem explicação. A ausência desses sintomas não dispensa os exames ou a monitorização indicada pela equipe de saúde.
O portal Um Diabético também explica por que a glicose alta acontece e quais fatores podem contribuir para a elevação.
O que fazer quando a glicose estiver acima da meta?
A conduta depende do valor, da persistência da elevação, dos sintomas e do tratamento utilizado. Quem já tem diabetes deve seguir o plano de ação combinado com a equipe, incluindo quando repetir a medição e como usar uma eventual correção de insulina previamente prescrita.
Registrar o horário, a alimentação, os medicamentos e a presença de doença pode ajudar a entender o episódio. A frequência das medições precisa considerar o tipo de diabetes e a complexidade do tratamento.
Se as elevações se repetem, é necessário procurar a equipe para revisar o cuidado. Aumentar medicamentos ou aplicar doses extras de insulina sem orientação pode provocar hipoglicemia.
Nem toda subida acontece por causa de doces. Infecções e outros problemas agudos podem aumentar a necessidade de insulina. No diabetes tipo 1, a insulina basal, que mantém a cobertura entre as refeições e durante a noite, não deve ser suspensa por conta própria, inclusive quando a pessoa está comendo menos.
Também não é adequado tentar resolver qualquer elevação com exercício intenso. A SBD alerta que a atividade pode piorar a hiperglicemia em determinadas situações, principalmente no diabetes tipo 1.
Quando procurar atendimento de urgência?
Glicose elevada acompanhada de vômitos, dor abdominal, respiração rápida ou profunda, sonolência, confusão ou dificuldade para ingerir líquidos exige avaliação urgente.
Esses sinais podem indicar uma complicação aguda, como a cetoacidose diabética, relacionada à falta de insulina e ao acúmulo de substâncias chamadas cetonas.
No diabetes tipo 1, valores persistentemente a partir de 250 mg/dL, especialmente durante doenças, devem levar à aplicação do plano de ação e à avaliação de cetonas conforme orientação profissional. Se a glicose continuar elevada apesar das medidas prescritas, é necessário buscar orientação prontamente.
Sintomas de cetoacidose exigem atenção mesmo sem uma glicose tão elevada. O atendimento não deve ser adiado para esperar que o aparelho alcance determinado número. A combinação entre resultado, sintomas e resposta às medidas previamente orientadas ajuda a definir a gravidade.
