Conciliar o diabetes tipo 1 com a preparação para uma competição de fisiculturismo natural exigiu mais do que disciplina nos treinos e na alimentação para Ana Júlia Martins Vanussi, de 25 anos. Durante 24 semanas, a nutricionista enfrentou oscilações da glicose que interferiram na rotina e exigiram estratégias para seguir em busca do objetivo de subir ao palco.
A experiência incluiu episódios de hipoglicemia durante a madrugada e de hiperglicemia em meio a uma rotina de alimentação restrita e exercícios intensos. Para lidar com essas situações, Ana Júlia precisou observar as respostas do organismo e adaptar estratégias ao longo da preparação. Diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 9 anos, ela conta que o processo também trouxe aprendizados sobre o próprio corpo e sobre os cuidados necessários para conciliar a condição de saúde com o esporte.
A decisão de competir no fisiculturismo natural
Ana Júlia sempre gostou de musculação e de atividades relacionadas ao treinamento e à alimentação. A vontade de competir ganhou força no fim de 2024, quando se formou em Nutrição e começou a preparar o namorado para uma competição de fisiculturismo, realizada em novembro de 2025. Ao acompanhar a experiência de perto, ela se identificou com o ambiente e com as pessoas que participavam do esporte. A decisão veio logo depois da competição.
“Assim que ele desceu do palco eu falei que esse ano seria a minha vez de participar!”, conta.
A escolha foi pelo fisiculturismo natural, modalidade que segue regras específicas sobre o uso de substâncias hormonais e outras substâncias proibidas. Na federação WNBF, os competidores estão sujeitos a procedimentos de controle antidoping, conforme as regras da organização.
Para participar, Ana Júlia precisou apresentar um relatório médico que comprovasse o diagnóstico de diabetes tipo 1 e informasse as doses de insulina utilizadas no tratamento.
“A preparação por si só já é bem desafiadora e quando falamos em uma preparação com uma condição especial de saúde, o trabalho precisa ser redobrado!”, afirma.
Hipoglicemia durante a madrugada e glicose acima de 400 mg/dL
Durante as 24 semanas de preparação, as oscilações da glicose estiveram entre os principais desafios. Ana Júlia conta que consegue manter o controle em cerca de 90% do tempo, mas fatores emocionais e mudanças na rotina podem interferir nos resultados.
Segundo a nutricionista, durante a preparação para a competição, a combinação de alimentação restrita, treinos e exercícios aeróbicos intensos tornou o controle da glicose mais difícil. Nesse período, ela enfrentou episódios de hipoglicemia, caracterizada pela queda da glicose no sangue, e de hiperglicemia, quando os níveis ficam elevados. Em uma das situações, a glicose chegou a 36 mg/dL durante a madrugada. Ana Júlia precisou recorrer à fruta que havia separado para o lanche da tarde.
Ela também relata um episódio em que a glicose atingiu 444 mg/dL, mesmo durante uma fase de alimentação com baixo teor de carboidratos e de treinos intensos.
Os episódios mostram como a resposta da glicose pode variar durante o exercício e em períodos de mudança na alimentação. Em pessoas com diabetes tipo 1, a atividade física exige atenção ao monitoramento e ao planejamento dos cuidados, já que o esforço pode provocar alterações nos níveis de glicose.
Como o sensor de glicose ajudou na preparação
Para Ana Júlia, investir em um sensor de glicose foi fundamental durante a preparação para a competição, pois permitiu acompanhar as oscilações da glicemia e ajudou a lidar com os desafios da rotina. As variações da glicose também interferiram nos treinos. Ela conta que pretendia fazer exercícios aeróbicos em jejum, mas episódios de hipoglicemia dificultaram essa estratégia. Já a hiperglicemia prejudicava o foco e a concentração durante as atividades. A experiência exigiu que a nutricionista observasse como o organismo respondia à alimentação e aos exercícios e buscasse alternativas para lidar com as alterações.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) é recomendável que pessoas com diabetes tipo 1 monitorem a glicose antes, durante e após os exercícios. A entidade também destaca a importância de individualizar os cuidados, considerando fatores como intensidade da atividade, níveis de glicose e uso de insulina.
Alimentação restrita e ajustes na rotina
Fora do período de preparação, Ana Júlia conta que costuma ter mais flexibilidade na alimentação, incluindo refeições livres aos fins de semana. Entretanto, durante as 24 semanas que antecederam a competição, a rotina ficou mais rigorosa, especialmente na etapa final.
“Fiz 24 semanas de preparação sem errar 1g na alimentação”, relata.
A restrição alimentar e o aumento da intensidade dos exercícios trouxeram desafios adicionais para o controle da glicose. Nesse contexto, ela afirma que precisou desenvolver estratégias para lidar com as alterações, observando também como diferentes alimentos respondiam no próprio organismo. Ana Júlia cita o melão como um exemplo de alimento que a ajudou a corrigir episódios de hipoglicemia durante a preparação.
Ela ressalta que não considera as dificuldades uma reclamação, mas uma experiência que exigiu atenção e capacidade de adaptação. O relato reforça que a alimentação e a atividade física precisam ser consideradas em conjunto no cuidado com o diabetes. Mudanças na quantidade de carboidratos consumidos, na intensidade dos exercícios e na rotina podem interferir na glicose, e as estratégias devem ser individualizadas.
Diagnóstico de diabetes tipo 1 aos 9 anos
Ana Júlia convive com diabetes tipo 1 desde a infância. O diagnóstico aconteceu há 17 anos, em 7 de outubro, depois que sua mãe percebeu mudanças no comportamento e no corpo da filha.
Ela estava perdendo peso, sentia muita sede e voltou a fazer xixi na cama, algo que não acontecia antes. A mãe também percebeu a presença de pequenas formigas ao redor do vaso sanitário, mesmo depois da descarga, atraídas pela urina com açúcar. Quando realizou exames, a glicemia em jejum estava acima de 600 mg/dL. Ana Júlia foi levada ao hospital, onde permaneceu internada por uma semana.
Ela se lembra de que estava na escola, organizando com os colegas os brinquedos que levariam para a comemoração do Dia das Crianças. Na volta para casa, a mãe avisou que precisariam ir ao hospital. Apesar da mudança na rotina, Ana Júlia conta que aceitou bem o diagnóstico e nunca teve vergonha de falar sobre a condição.
“Eu sempre aceitei muito bem a minha ‘nova’ condição de saúde, nunca tive vergonha de falar da minha condição e hoje entendo que isso se tornou um propósito de vida!”, afirma.
Ana Júlia pretende continuar competindo
A preparação para o fisiculturismo natural representou uma experiência desafiadora, mas Ana Júlia afirma que não pretende parar de competir. A vivência também reforçou a importância de reconhecer as próprias necessidades e adaptar a rotina para lidar com o diabetes.
A preparação foi conduzida por ela mesma, como nutricionista, com o apoio do namorado, que é educador físico. Ao compartilhar sua experiência, a nutricionista deixa uma mensagem para outras pessoas que convivem com diabetes e têm objetivos no esporte ou em outras áreas da vida.
“Você é capaz de alcançar todos os seus objetivos! A doença te torna único (a) e especial! Lógico, precisamos ter um trabalho redobrado, mas tudo é possível quando você se dedica, se coloca como prioridade no processo. Viver isso foi incrível e eu não pretendo parar.
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