Aos 95 anos, Dona Carmen Wills fez questão de chegar cedo para votar neste domingo (25), no segundo turno das eleições. Em uma seção eleitoral na zona oeste de São Paulo, a professora exerceu seu direito democrático levando consigo uma história que atravessa 76 anos de convivência com o diabetes tipo 1.

Defensora do Sistema Único de Saúde (SUS) e do acesso ao tratamento, Carmen é conhecida como a brasileira com maior tempo de diagnóstico da condição. Sua trajetória, já retratada pelo Um Diabético, acompanha mudanças que transformaram a rotina de quem depende de insulina para viver.
Quando recebeu o diagnóstico, em 1950, ela tinha 19 anos. Não havia sensores de glicose, aparelhos portáteis para medir o açúcar no sangue nem as facilidades que hoje ajudam nas decisões diárias sobre o tratamento. O cuidado exigia lidar com informações limitadas e esperar por resultados de laboratório.
Um diagnóstico que mudou os planos
Antes de saber que tinha diabetes, Carmen apresentou fome intensa, muita sede e desidratação. O quadro levou a uma internação, e ela precisou permanecer no hospital por aproximadamente um mês para ajustar o tratamento com insulina.
Naquele período, preparava-se para o vestibular de medicina. A interrupção dos estudos mudou seus planos, e Carmen acabou seguindo a pedagogia. Tornou-se professora e construiu uma vida que incluiu casamento, duas filhas e, posteriormente, netos e bisnetos.
Nascida em Santa Catarina, ela também enfrentou um câncer de mama. Ao compartilhar suas experiências, fala sobre cuidado, apoio familiar e aprendizado, sem esconder as dificuldades que fizeram parte do caminho.
Das seringas de vidro aos sensores
Durante décadas, as aplicações de insulina eram feitas com seringas esterilizadas em casa. Para acompanhar o diabetes, Carmen dependia de testes de urina e exames laboratoriais, cujos resultados podiam demorar dias.
A falta de informação imediata sobre a glicose tornava especialmente difícil reconhecer e enfrentar as hipoglicemias. Em um dos episódios relatados ao Um Diabético, ela contou que desmaiou dentro do carro, perto de casa, e recebeu ajuda de um homem que avisou sua família.
Com o avanço do tratamento, Carmen passou a utilizar sensor de glicose. A possibilidade de acompanhar os valores ao longo do dia representou uma mudança importante para quem viveu tantos anos sem recursos semelhantes.
Sua experiência permite observar, numa mesma vida, a distância entre o tratamento disponível em meados do século passado e as tecnologias atuais. Também mostra por que informação e acompanhamento continuam presentes mesmo quando os equipamentos mudam.
Uma história registrada em livro
Em 2025, sua trajetória ganhou a biografia “Carmen H. Wills — 75 anos superando o diabetes tipo 1”, escrita pela jornalista Letícia Martins. A publicação reúne lembranças da professora e depoimentos de familiares, amigos e profissionais de saúde.
Carmen também participou da série documental “Sim, Diabético – Vidas Transformadas”, produzida pelo Um Diabético. Nos registros, compartilha experiências que ajudam outras pessoas a compreender como era viver com a condição antes dos recursos disponíveis atualmente.
O reconhecimento veio ainda por meio de homenagens relacionadas ao tempo de convivência com o diabetes, incluindo a medalha de 50 anos do Joslin Diabetes Center. Sua história passou a circular em reportagens, entrevistas e encontros da comunidade.
Além de contar sua história, ela participou de conversas sobre educação em diabetes, dividindo aprendizados acumulados desde o diagnóstico recebido ainda na juventude.
Neste domingo, o compromisso foi com as urnas. Depois de atravessar tantas transformações no cuidado com a saúde, Dona Carmen fez questão de participar da escolha política do país, mantendo a disposição de estar presente nas decisões coletivas.
A votação pela manhã acrescentou um novo registro a essa trajetória: aos 95 anos, a professora continua exercendo sua cidadania e defendendo o acesso à saúde.