O sabor adocicado faz muita gente com diabetes olhar para a beterraba com desconfiança. Será que algumas fatias na salada podem aumentar demais o açúcar no sangue? Embora o vegetal contenha carboidratos, que podem elevar a glicose, sua doçura não é motivo para excluí-lo da alimentação. Para entender seu impacto, é preciso observar a quantidade consumida e o restante da refeição.
A nutricionista e educadora em diabetes Juliana Baptista abordou esse assunto durante entrevista ao jornalista Tom Bueno, durante entrevista no Diabetescast.
“Mas você comer fatias de beterraba não tem problema nenhum. Ela não vai ter um impacto tão grande”, afirma a profissional, que também convive com diabetes tipo 1.
A explicação se refere ao consumo de pequenas porções dentro da refeição.
O Ministério da Saúde reforça que não há comprovação científica para proibir beterraba e cenoura na alimentação de pessoas com diabetes por serem doces ou crescerem debaixo da terra. Em publicação elaborada com a Universidade Federal de Minas Gerais, o órgão destaca que esses alimentos fornecem fibras, vitaminas e minerais.
O que o sabor doce não revela sobre a glicose
O paladar não funciona como um medidor de carboidratos. Um alimento parecer mais doce não significa, necessariamente, que uma porção dele fará a glicose subir mais do que a de outro alimento menos adocicado.
Os números ajudam a entender essa diferença. Segundo a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA), 100 gramas de beterraba cozida, sem casca, drenada e preparada sem óleo e sem sal contêm aproximadamente 6,3 gramas de carboidratos totais e 2 gramas de fibras. Portanto, o peso da beterraba no prato é diferente da quantidade de carboidrato que ela fornece.
Essa diferença é importante porque muitas pessoas associam o sabor adocicado da beterraba a uma grande quantidade de açúcar. No entanto, para avaliar seu efeito sobre a glicose, é necessário considerar a composição nutricional e a porção consumida. A presença de fibras também faz parte dessa análise, embora não elimine o efeito dos carboidratos sobre a glicemia.
Outro detalhe pode surpreender: a Associação Americana de Diabetes inclui a beterraba no grupo dos vegetais com pouco amido, um tipo de carboidrato. Na mesma lista estão cenoura, brócolis e couve-flor. Isso não significa que a beterraba seja livre de carboidratos, mas ajuda a desfazer a ideia de que todos os alimentos que crescem debaixo da terra precisam receber o mesmo tratamento na alimentação.
Por que a quantidade de beterraba faz diferença
Mesmo o índice glicêmico, uma medida que indica a rapidez com que um alimento com carboidrato eleva o açúcar no sangue, não deve ser avaliado sozinho. A organização britânica Diabetes UK explica que a quantidade de carboidrato consumida tem maior influência sobre a glicose do que esse índice considerado isoladamente. Na prática, o tamanho da porção importa.
Na entrevista, Juliana cita a possibilidade de comer “duas, três fatias de beterraba” como parte da refeição. O exemplo mostra que é possível incluir o vegetal, mas não estabelece uma quantidade ideal para todas as pessoas, já que o tamanho e a espessura das fatias variam.
A forma de preparo também merece atenção. A beterraba pode ser consumida crua, cozida ou em diferentes preparações, mas os ingredientes acrescentados podem modificar a quantidade de carboidratos da receita. Por isso, avaliar uma salada com beterraba é diferente de analisar uma preparação que também leva açúcar ou outros ingredientes ricos em carboidratos.
Também é preciso observar o prato completo. A Diabetes UK lembra que o índice glicêmico avalia o alimento isoladamente, enquanto as refeições costumam reunir vários ingredientes. Por isso, olhar apenas para a beterraba deixa de fora a contribuição dos acompanhamentos para a glicose após comer.
Afinal, quem tem diabetes pode comer beterraba?
Sim, a beterraba pode fazer parte da alimentação de quem tem diabetes. Isso não significa que ela não tenha efeito sobre o açúcar no sangue ou que exista uma porção indicada para todos. A quantidade deve se encaixar no planejamento alimentar individual, com orientação profissional.
A resposta da glicose após uma refeição também pode variar entre as pessoas. Fatores como a quantidade de carboidratos, o uso de medicamentos, a prática de atividade física e as características individuais influenciam esse resultado. Para quem monitora a glicose, observar a resposta às refeições pode ajudar a compreender como diferentes alimentos se encaixam na rotina alimentar.
O sabor doce, sozinho, não é motivo para tirar a beterraba do prato. Mais útil do que proibir o vegetal é entender quanto será consumido e o que mais fará parte da refeição.
