Quem convive com diabetes já lida com uma rotina de cuidados redobrados: monitorar a glicemia, ajustar a alimentação e cuidar da saúde vascular. Nesse cenário, a imunidade e a cicatrização merecem atenção especial, já que a hiperglicemia crônica interfere diretamente nesses dois processos. A nutricionista Martha Amodio explica qual é o real papel da vitamina C nesse contexto e onde ele termina.
Por que a hiperglicemia prejudica a imunidade
Segundo a especialista, quando a glicemia permanece elevada por períodos prolongados, diferentes mecanismos da resposta imunológica podem ser prejudicados. Além disso, esse quadro também aumenta o estresse oxidativo no organismo.
“Por isso, quando falamos de imunidade em quem tem diabetes, não adianta pensar apenas em vitamina C ou em qualquer outro nutriente isoladamente. Um bom controle glicêmico continua sendo fundamental.” Martha Amodio | Nutricionista
A vitamina C não substitui o controle glicêmico
Garantir uma ingestão adequada de vitamina C faz parte de um bom estado nutricional. Ela contribui para a defesa antioxidante e para o funcionamento adequado do sistema imunológico. Ainda assim, o nutriente não corrige os efeitos de uma glicemia persistentemente elevada.
Existem estudos que investigam possíveis efeitos da suplementação de vitamina C sobre a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada. Isso ocorre especialmente em pessoas com diabetes tipo 2, e alguns resultados são interessantes. No entanto, a evidência ainda não justifica recomendar o nutriente como estratégia para baixar a glicemia ou tratar o diabetes. Seu papel mais bem estabelecido está relacionado às funções fisiológicas e antioxidantes.
Estresse oxidativo: um ponto central no diabetes
A hiperglicemia crônica está associada ao aumento da produção de espécies reativas e do estresse oxidativo, processo envolvido no desenvolvimento das complicações do diabetes. A vitamina C atua como antioxidante, ajudando a neutralizar essas espécies reativas e a proteger estruturas celulares contra danos.
Nesse sentido, não adianta simplesmente acrescentar um antioxidante se a glicemia permanece constantemente elevada. É preciso olhar para o contexto metabólico como um todo, e não apenas para um nutriente isolado.
Cicatrização: por que a atenção aumenta no diabetes
A vitamina C é necessária para a síntese de colágeno, fundamental para a formação e a reparação dos tecidos. Isso ganha ainda mais importância no diabetes, porque hiperglicemia, alterações vasculares, neuropatia e infecções podem comprometer a cicatrização.
Ainda assim, é importante não inverter a mensagem. Ter vitamina C suficiente é necessário para uma boa cicatrização, mas isso não significa que megadoses do nutriente tratem uma ferida ou um pé diabético. Feridas em pessoas com diabetes precisam ser avaliadas e tratadas por profissionais.
Existe interação com metformina ou insulina?
Não existe uma recomendação geral para que pessoas que usam metformina ou insulina evitem alimentos ricos em vitamina C. Na prática, a preocupação maior deveria estar no uso indiscriminado de suplementos e megadoses. Por isso, quem faz tratamento medicamentoso e deseja usar suplementos em doses elevadas deve conversar antes com o profissional que acompanha seu tratamento.
Frutas cítricas entram no cardápio de quem tem diabetes?
Quem tem diabetes pode comer frutas. Nesse caso, é preciso considerar quantidade, forma de consumo, composição da refeição, glicemia no momento e resposta individual. De maneira geral, a fruta inteira é preferível ao suco, pois mantém as fibras, a mastigação e a saciedade, favorecendo uma resposta glicêmica mais estável.
Fontes de vitamina C com baixo impacto glicêmico
Morango pode ser uma excelente opção entre as frutas com menor impacto glicêmico. Além disso, pimentão, brócolis, couve e outros vegetais oferecem vitamina C com quantidade muito pequena de carboidratos disponíveis por porção. Quanto maior a variedade de frutas, verduras e legumes ao longo da semana, melhor.
Quando a suplementação exige mais cautela
A cautela com a suplementação aumenta em algumas situações específicas, como doença renal e histórico ou predisposição a determinados cálculos renais. Em uma pessoa com diabetes e comprometimento renal, a suplementação de vitamina C não deveria ser tratada como algo simples. Cada caso precisa ser avaliado de forma individualizada, considerando função renal e demais condições clínicas.
Bônus: a vitamina C também ajuda a absorver o ferro vegetal
Uma dica prática destacada pela especialista é o papel da vitamina C na absorção do ferro não heme. Esse tipo de ferro está presente em feijão, lentilha e outras leguminosas comuns no prato de quem tem diabetes. Nesse sentido, combinar essas fontes com um pouco de limão, pimentão ou uma fruta cítrica de sobremesa favorece a absorção sem exigir suplementação.
Além disso, essa combinação merece atenção redobrada em quem tem maior risco de deficiência de ferro. Mulheres em idade fértil que menstruam e pessoas vegetarianas ou veganas com diabetes fazem parte desse grupo.
“Vitamina C não é um remédio contra gripe e nem um tratamento para o diabetes. Ela é um nutriente essencial para que nosso sistema imunológico funcione adequadamente, participa da defesa antioxidante, da formação de colágeno e ainda melhora a absorção do ferro de origem vegetal”, finaliza Martha.
Portanto, antes de pensar em suplementos, vale olhar para o prato. Frutas, verduras e legumes variados conseguem oferecer boas quantidades de vitamina C ao longo do dia. Dessa forma, esse cuidado se soma a um plano alimentar equilibrado para quem tem diabetes.
