Existe uma pergunta que muitas pessoas recebem logo após o diagnóstico de diabetes tipo 1: “Agora você vai poder fazer esporte normalmente?”. Para quem convive com a condição, a dúvida costuma aparecer cedo, principalmente durante a adolescência, fase em que atividades físicas fazem parte da rotina escolar, social e até profissional.
Gabriel Parke aprendeu a responder essa pergunta dentro dos treinos de freestyle football. Aos 22 anos, ele convive com diabetes tipo 1 há 11 anos e já conquistou três títulos mundiais no campeonato online WPSC, vencendo as edições de 2022, 2024 e 2025.
Morando atualmente em Boca Raton, na Flórida, e passando parte das férias em São Paulo, Gabriel construiu uma rotina em que o esporte exige tanto dedicação física quanto atenção constante à glicemia.
O freestyle football começou depois do futebol tradicional
Gabriel começou no freestyle em 2016. Antes disso, jogava futebol, mas decidiu mudar de modalidade depois de começar a acompanhar vídeos de freestyle no YouTube.
“Eu comecei acompanhando o freestyle no YouTube, depois fui aprendendo as manobras básicas e evoluindo mais e mais”, conta.
Segundo ele, aquele período marcou uma mudança importante na vida pessoal e esportiva.
“O momento que comecei o esporte foi um dos mais marcantes da minha vida. Foi onde tudo começou.”
Com o passar dos anos, os treinos se intensificaram e vieram as primeiras competições presenciais e online. Entre os principais resultados da carreira estão os três títulos mundiais conquistados no WPSC.
Diabetes tipo 1 no esporte exige monitoramento constante
Além dos treinos, Gabriel também precisou aprender a lidar com o diabetes tipo 1 dentro da rotina esportiva. Diagnosticado há 11 anos, ele lembra que o início foi difícil.
“No começo foi muito estranho lidar com a diabetes porque eu não sabia nada sobre ela. Foi difícil mudar a alimentação e começar a usar insulina na caneta”, relata.
Hoje, ele utiliza bomba de insulina Omnipod e sensor contínuo de glicose Dexcom para acompanhar a glicemia ao longo do dia.
“Eu tomo insulina antes das alimentações e acompanho minha glicose o dia todo, caso ela suba muito ou fique baixa”, explica.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, pessoas com diabetes tipo 1 podem praticar atividade física regularmente, mas precisam monitorar a glicemia e adaptar alimentação e insulina conforme orientação médica.
No caso de Gabriel, a maior atenção acontece durante os treinos.
“Sempre quando faço exercício físico eu acabo sentindo glicemia baixa, então preciso ficar de olho na glicemia o tempo todo e sempre ter algo para comer”, afirma.
O atleta precisou aprender como o corpo reage durante os treinos
Com o tempo, Gabriel percebeu que entender os sinais do próprio corpo era tão importante quanto treinar as manobras do freestyle.
“Quando a pessoa aprende a controlar a glicose através da insulina, ela também entende como isso funciona no esporte”, diz.
Ele afirma que a adaptação aconteceu aos poucos, principalmente durante os treinos mais longos e intensos.
“Tem que sempre ficar de olho na glicose e se alimentar bem antes, durante e depois do treino.”
Segundo especialistas, exercícios físicos podem alterar os níveis de glicose porque aumentam o consumo de energia pelos músculos. Por isso, cada pessoa precisa entender como o organismo reage à atividade física.
A endocrinologista Denise Franco explica que o acompanhamento adequado ajuda pessoas com diabetes tipo 1 a praticarem esporte com mais segurança.
“O exercício físico faz parte da qualidade de vida e pode ser realizado com monitoramento e planejamento individualizado”, afirma.
“Tem que ter paciência”, diz tricampeão mundial
Depois de anos conciliando treinos e cuidados com a glicemia, Gabriel afirma que o principal conselho para quem recebeu o diagnóstico recentemente é não desistir do esporte.
“O melhor conselho é ter paciência e procurar aprender mais sobre a diabetes”, diz.
Segundo ele, entender o funcionamento da glicose e da insulina ajuda a pessoa a ganhar mais segurança durante a prática esportiva.
“Para um diabético, é necessário prestar muito mais atenção nessas coisas.”
Enquanto continua treinando e participando de competições, Gabriel também se tornou exemplo para outras pessoas com diabetes tipo 1 que ainda têm dúvidas sobre esporte e desempenho físico.
A trajetória dele mostra que o diagnóstico exige adaptação diária, mas não impede alguém de competir em alto nível.